15/10/2007 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Aquecimento global: é preciso mais do que biocombustíveis para enfrentá-lo

Debate reuniu especialistas e representantes do governo e de setores envolvidos com a luta ambiental para uma discussão sobre o aquecimento global. Ficou claro que a solução não passa apenas por alternativas energéticas, mas sim por uma definitiva mudança nos padrões de consumo e produção.

Marcel Gomes - Carta Maior

SÃO PAULO – Num dos mais quentes Debates Carta Maior até aqui, especialistas e representantes de setores envolvidos com a luta ambiental cobraram do governo brasileiro uma posição mais consistente no combate ao aquecimento global. Coube à secretária nacional de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Telma Krug, fazer a defesa das políticas oficiais. O evento aconteceu na noite de quarta-feira (10), no auditório de um hotel em São Paulo. Cerca de 50 pessoas assistiram ao debate no local e outras 9 mil o acompanharam pela internet, com transmissão ao vivo pela TV Carta Maior.

O tema do aquecimento global deixou de ser apenas questão acadêmica ou bandeira de grupos ambientalistas. A preocupação com o aumento da temperatura no planeta ganhou as ruas, estimulada por intensa cobertura da imprensa e pela sensação de que os efeitos das mudanças climáticas já são coisa do presente. Elevação do nível dos oceanos, verões mais quentes do que o normal e alterações nos períodos de chuva são alguns dos problemas que já podem ser sentidos por cidadãos de vários países.

O governo brasileiro tem participado ativamente dos fóruns internacionais de discussão sobre o aquecimento global e seu plano de incentivo aos biocombustíveis é posto como estratégico para minimizar os efeitos da queima de carvão, petróleo e gás – os principais causadores de emissões. “O etanol brasileiro é o único que não tem contribuição marginal para mudança do clima, segundo o próprio IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima]”, disse Telma Krug. Segundo ela, o etanol é um combustível renovável, em que o crescimento da cana no campo consome o CO2 produzido posteriormente pela queima do combustível.

Em tese, o esforço brasileiro para disseminar os biocombustíveis – além do etanol, há o biodiesel – parece fazer sentido. Conforme dados apresentados por outro dos debatedores da noite, o professor Célio Bermann, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), de um ponto de vista energético, o mundo depende em 81% daqueles três produtos fósseis. O que chama atenção, ainda, é que a maior parte das emissões de gases causadores do aquecimento global – 60,3% – tem origem na queima de combustível no setor de transportes, como o uso de automóveis. Nesse caso, o uso de etanol e biodiesel poderia colaborar – mas o próprio Bermann faz uma série de ponderações.

Para o professor da USP, não é a disseminação de biocombustíveis que irá resolver o problema do aquecimento do planeta. “A questão energética passa não pela busca de alternativas energéticas, mas pelo modelo de desenvolvimento, de consumo. Não há recursos naturais capazes de manter o mesmo padrão de consumo europeu e norte-americano estendido para todos os habitantes do planeta. Há finitude física”, apontou.

Com esse raciocínio, Bermann critica decisões do governo brasileiro de construir hidrelétricas na Amazônia em benefício de indústrias de alumínio – “um produto de baixo valor agregado” –, de retomar a usina nuclear de Angra 3 – “não há solução para os resíduos” – e de expor para o mundo a produção brasileira de etanol como um modelo a ser seguido – “quando há denúncias de violações dos direitos trabalhistas nos canaviais”. “Sempre se houve que países em desenvolvimento como o Brasil não podem ter as mesmas metas de redução de emissões que os países ricos, mas a idéia que se vende é que vamos chegar lá. É insensato”, completou Bermann.

Contra a panacéia

Integrante da ONG Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), Jean Marc Van der We critica o discurso que defende os biocombustíveis como uma “panacéia” para os problemas energéticos. “Há uma comunicação ideológica muito forte, que coloca os biocombustíveis como sustentáveis, limpos, benéficos para a natureza e a sociedade, como uma bala mágica que resolveria todos os problemas”, criticou.

Conforme dados apresentados por Van der We no debate, para se reduzir em 10% o consumo mundial de combustíveis fosseis, toda área agriculturável da Europa e dos EUA teria de ser destinada aos biocombustíveis; se a intenção for diminuir em 20%, toda área agriculturável do mundo teria de ser tomada. Com isso, estimularia-se também o desmatamento e os preços dos alimentos seriam impulsionados para cima.

Outro problema causado pelos biocombustíveis – em especial, o etanol – foi apresentado pelo promotor Edward Ferreira, membro do Movimento do Ministério Público Democrático. A produção das usinas, por exemplo no interior de São Paulo, é feita mediante “grande sacrifício ao meio ambiente”, disse ele. “O etanol é menos poluente que os combustíveis fósseis, mas para se chegar ao álcool, a cadeia de produção não vem bem. Basta lembrar que ainda se pratica no Brasil a queimada da palha como meio de colheita, poluindo o ar e causando efeito estufa”, lembrou Ferreira, citando ainda o desrespeito à reserva legal para florestas por parte de várias propriedades rurais destinadas ao agronegócio da cana.

Queima, não da cana, mas da floresta, foi o problema lembrado pelo pesquisador Flávio Jesus Luizão, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Segundo ele, 75% das emissões brasileiras vêm das queimadas, sobretudo na região amazônica. Em um alerta contra os que defendem a expansão a qualquer custo das áreas destinadas aos biocombustíveis, Luizão afirma que “a floresta é mais útil do que se pensa para a região, o país e o planeta”. “Ela tem um papel no ciclo hidrológico, da formação de chuvas e do ciclo do carbono, e isso tem importância ecológica e econômica na América do Sul e talvez em outras regiões mais distantes”, afirmou.

Segundo Telma Krug, o governo brasileiro sabe disso e está trabalhando para reduzir o desmatamento na Amazônia. “A queda foi de 50% em três anos, ainda que não se possa dizer que tudo isso se deve a ações governamentais”, ponderou. Ainda assim, defendeu o foco nos biocombustíveis como arma fundamental contra o aquecimento global, a partir de um trabalho de respeito ao meio ambiente e aos direitos dos trabalhadores. “Os países em desenvolvimentos tem direito de se desenvolver, mas não precisamos trilhar os mesmos caminhos. Temos de tentar algo inovador, diferente”, concluiu.

O próximo Debates Carta Maior já está marcado. Será no dia 24 de outubro, no Rio de Janeiro, e também terá como tema o aquecimento global. A TV Carta Maior fará a transmissão ao vivo e os internautas poderão enviar on line questões para os debatedores

Por: Carta Maior