26/09/2007 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Uenf preserva saberes de mateiros em Campos de Goitacases

Uma equipe do Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do

Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), de Campos, coordenada pelo

sociólogo Javier Alejandro Lifschitz, estuda saberes tradicionais dos

chamados mateiros do Parque Estadual do Desengano, no Centro-Norte do

estado. Descendentes da miscigenação entre indígenas e europeus, os

mateiros somam hoje cerca de 300 famílias que vivem há muitos anos

numa área próxima à Pedra do Desengano, o pico mais alto do parque,

situada a mais de 1,7 mil metros de altitude.

– Durante nossa estada no parque, Dona Joanita, mulher de Cecílio,

mestre de mata, previu que ia chover ao observar um formigueiro –

conta o coordenador da equipe de Uenf, composta por quatro estudantes

e pessoal de apoio das próprias comunidades locais.

Os saberes tradicionais que essa população possui sobre a fauna e

flora da região constitui-se patrimônio cultural que se perderá,

segundo o sociólogo, caso se concretize a ameaça de remoção dessas

comunidades do parque, sob a alegação de que causam prejuízo ao meio

ambiente. Por via das dúvidas, na quarta incursão pela região, o grupo

se embrenhou pela mata e escalou montanhas para registrar parte desses

saberes.

Os registros vão integrar o acervo de um CD multimídia, denominado

Árvore do conhecimento em comunidades, que o professor Javier espera

ver difundido nas escolas da região. Os estudos têm financiamento da

Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do

Rio de Janeiro).

Os estudos na região do Desengano são apenas parte do conjunto de

pesquisas coordenadas pelo professor Javier com comunidades

tradicionais da região. Ele e sua equipe também trabalham com

comunidades quilombolas em Machadinha (Quissamã), Barrinha (São

Francisco do Itabapoana) e Conselheiro Josino (Campos). Os trabalhos

na Fazenda Machadinha geraram um CD e o documentário intitulado

Retalhos, sobre os saberes dos descendentes da senzala e da casa

grande. Os estudos em Barrinha e Conselheiro Josino têm apoio da

Comissão Pastoral da Terra. Em breve, o grupo começará um trabalho com

comunidades de pescadores da Barra do Furado, com apoio da Prefeitura

de Quissamã.

Ao estudar a crescente importância atribuída a comunidades

tradicionais como estas, o sociólogo da Uenf propôs o conceito de

"neocomunidades".

– Trata-se de formas de reconstrução da tradição por meios e agentes

modernos, como a mídia, as ONGs e as universidades, o que sugere um

tipo diferente de modernização, que não é voltado para o futuro, mas

sim para o passado – explica o professor, para quem essas populações

tradicionais podem ter suas atividades reorientadas para a área do

turismo ecológico.

A equipe da Uenf está empenhada na identificação de comunidades

quilombolas em toda a região. Uma delas, de Conceição do Imbé, já está

reconhecida e o processo de titulação das terras, em andamento.

Entre as características básicas de uma comunidade quilombola está o

fato de seus habitantes serem remanescentes de antigas regiões de

escravidão, ainda que não tenha havido no local quilombos no sentido

habitual da palavra. Outra característica fundamental é o

auto-reconhecimento da população como quilombola, o que é determinante

para o reconhecimento pelo Poder Público. Nestes casos se consideram

também dados antropológicos sobre marcas históricas da vinculação com

antigos escravos. O reconhecimento de comunidades quilombolas está

amparado em artigo da Constituição de 1988.

Por: ASCOM do Meio Ambiente RJ