24/04/2020 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Um Sentido para a Pandemia

Felipe Tourinho:

Coronavirus. Palavra originada do latim corona (coroa) e vírus (vento, sêmen, o que espalha e invade, sumo, veneno, peçonha).

A palavra coroa remete às insígnias de soberania e nobreza e ao emblema da vitória. Como verbo, coroar tem três grupos de sentido: rodear, recompensar e arrematar.

Juntando as etimologias de coroa e vírus, coronavirus pode significar “quando as formas de poder se tornam agressivas, invasivas, e, para usar uma palavra da moda, tóxicas.

Conforme o isolamento social vai cumprindo seu papel de evitar que grande parte das pessoas suscetíveis adoeçam ao mesmo tempo, levando o sistema de saúde ao colapso, os efeitos colaterais dessa medida vão colapsando o modo de produção e as relações de trabalho da sociedade industrial moderna. Esta, juntamente com a democracia representativa e o estado nacional, os três pilares arruinados da modernidade, demonstram há muito tempo disfuncionalidade.

O choque da pandemia parece querer transmitir à humanidade uma mensagem da Biosfera: a praga é o homem, que derruba florestas e diminui a biodiversidade. Os vírus são os anticorpos da Biosfera contra a pandemia chamada humanidade. O objetivo: evitar que o planeta alcance o ponto de irreversibilidade, que rapidamente se aproxima.

Quais as lições que podemos tirar de tudo isso? A seguir, algumas observações preliminares da situação.

1. A história das epidemias

2. A revalorização da saúde pública

3. A aproximação da morte. Do inimigo comum à projeção da sombra

4. Transição hegemônica sem guerra

5. A praga humana e a indústria do petróleo

6. Envelhecimento, sentido da vida, fundos de pensão e morte. A vida artificial do último homem

7. Um acelerador do futuro

8. O impacto econômico. Decrescimento, dom e dádiva e dinheiro

9. O global e o local: da transição hegemônica às cidades em transição

10. Como montar a nossa geringonça

1. A HISTÓRIA DAS EPIDEMIAS

As populações humanas sempre foram reguladas por meio de fome, guerra e epidemia. Por milhares de anos a população das sociedades foi estacionária. As aglomerações humanas decorrentes dos excedentes agrícolas, o desmatamento e o convívio com animais domesticados estão na origem das epidemias. As rotas de expansão comercial, militar e religiosa são os meios de propagação.

A Ilíada de Homero começa com os gregos sitiando Tróia. Entretanto, eles encontram-se acossados por uma epidemia como consequência de um crime praticado contra um sacerdote de Apolo, o deus das epidemias. Há quem veja na ira de Aquiles o protesto contra o fim da sociedade do dom e da dádiva, o que estaria na origem dos mitologemas do crime contra a hospitalidade.

Hipócrates, o grego antigo que consideramos o pai da medicina ocidental, através da observação científica identificou os pântanos como fontes de emanação de miasmas que causam doenças como a malária (mal ares).

Na Idade Média, a peste bubônica chegava do Oriente através da Rota da Seda. Essa epidemia chegou a dizimar dois terços da população da Europa.

Na Era dos Descobrimentos, foram os europeus que se utilizaram das epidemias para empreender uma guerra biológica que dizimou as populações ameríndias mais do que as armas e os exércitos dos conquistadores.

O progresso tanto das técnicas de saneamento quanto da produção de antibióticos e vacinas permitiu a construção das cidades modernas, nas quais a aglomeração humana se instalou, a separação entre casa e trabalho se radicalizou e a cidade foi sendo planejada cada vez mais para carros e não para pessoas.

Nos últimos cem anos, a ciência moderna conseguiu contornar as epidemias, acabar com a fome endêmica e controlar as guerras. A população explodiu, ultrapassou os sete bilhões de habitantes e a vida humana ficou tão longa que, para muitos, morrer virou um drama com anos e anos de duração. Por isso, a previdência social e os fundos de pensão viraram um grande problema. Seremos derrotados por nossas vitórias?

No final do século XIX e início do Século XX, os médicos sanitaristas tiveram grande proeminência na política. A ocupação do vasto território brasileiro precisou de um grande esforço nacional de compreensão e manejo das doenças transmissíveis. A urbanização acelerada se deu a partir da conquista de terras aos pântanos, rios, manguezais e florestas, todos com seus sistemas de proteção, entre eles mosquitos, artrópodes, vírus e bactérias. A revolta da vacina, em 1904, rebelião popular no Rio de Janeiro causada pela a vacinação obrigatória contra a varíola, também está ligada ao contexto das reformas urbanísticas de Pereira Passos e ao grande esforço de saneamento levado a cabo por Oswaldo Cruz.

Nessa época, as reformas urbanas feitas pelo Barão Haussmann em Paris serviram de modelo para diversas cidades ao redor do mundo como o Rio, Viena e São Petersburgo. Décadas depois, esse modelo deu lugar ao modelo americano de cidade para o automóvel.

Nos dias atuais, a necessidade da redução da emissão de carbono para mitigar o aquecimento global força a humanidade a imaginar um outro tipo de relação entre espaço e tempo na vida das cidades. É quando as indústrias do petróleo, automobilística e metalúrgica vão declinando. Elas cedem o lugar às empresas baseada na comunicação digital. O eixo do comércio internacional se desloca do Atlântico para o Pacífico. Surge a Nova Rota da Seda. E, como sempre acontece, novas rotas comerciais trazem consigo novas epidemias.

2. A REVALORIZAÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA

Uma das consequências mais imediatas desta pandemia é a revalorização de um setor que andava em baixa: a saúde pública. Depois da era dos políticos médicos do início do século 20, a saúde voltou a ter importância na década de oitenta, quando foi criado um movimento em torno da chamada reforma sanitária, que tinha o político médico Sérgio Arouca como um dos seus expoentes, e que lançou as bases para a criação do SUS na Constituição de 1988.

Hoje o SUS é reconhecido como um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo. Entretanto, é subfinanciado e mal gerido pela dispersão dos recursos pelos cinco mil e tantos municípios brasileiros.

Pode ser que, devido à gravidade do problema representado pela pandemia, a política volte a atrair os melhores cérebros. Neste momento, a saúde pública volta novamente a ser uma importante fonte de lideranças.

3. A APROXIMAÇÃO DA MORTE. DO INIMIGO COMUM À PROJEÇÃO DA SOMBRA

Antes da pandemia, a morte se apresentava lá longe, em conflitos e guerras em lugares distantes como o Afeganistão ou as favelas, quer dizer, as áreas de segregação socioambiental.

Quando a pandemia traz a morte para perto, isso tem o poder de modificar a percepção sobre o sentido da vida cotidiana. A incerteza, o desconhecido, a luta contra um inimigo invisível, tudo isso ativa a projeção do inconsciente.

Se, por um lado, um inimigo comum a toda a humanidade cria um sentimento de comunidade entre todos os grupos étnicos e nacionais, a angústia frente ao desconhecido desencadeia projeções primitivas que buscam bodes expiatórios (judeus, mulçumanos, imigrantes, comunistas, gays...). Projeções da sombra, dos aspectos cuja conscientização é postergada devido ao mal-estar gerado pela constatação dos piores impulsos auto e hetero destrutivos de nossa sociedade.

4. TRANSIÇÃO HEGEMÔNICA SEM GUERRA

Vivemos um momento de transição hegemônica na geopolítica mundial. Se o Século XIX foi europeu e o Século XX foi americano, o Século XXI será chinês. A passagem da hegemonia da Europa para os EUA se deu no contexto das Duas Grandes Guerras Mundiais e da Guerra Fria. Aprendemos muito sobre geopolítica nos últimos anos. Podemos evitar que um novo período de guerras mundiais seja necessário para que a História siga seu curso inexorável.

A sociedade do futuro, baseada no diálogo, na inteligência e no planejamento, pode ser multicêntrica. Várias sínteses civilizatórias e culturais são possíveis e vários povos e épocas têm contribuições notáveis para dar. A China, reconhece que seu socialismo com características chinesas funciona para eles, mas, não, necessariamente para os outros. Além do mais, não há igrejas na China nem existe lá fanatismo religioso. Paulatinamente a China vai fornecendo ao mundo do Século XXI modelos civilizatórios, como, por exemplo, a filosofia de Confúcio, lugar esse que foi ocupado pelos EUA no Século XX e pela Europa no Século XIX.

5. A PRAGA HUMANA E A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO

Para que o homem pare de projetar a sombra no bode expiatório, é preciso que ele conheça sua História e reconheça nela as raízes do egoísmo, da falta de empatia e da crueldade que o impede de reconhecer o outro como merecedor do direito de acesso às condições de realização da vida.

Alguns historiadores acreditam que o homem nunca deveria ter saído do neolítico e que a agricultura foi a pior ideia que o homem já teve. Ao criar excedentes agrícolas o homem abriu as portas para a mal nutrição, a fome, as epidemias e as divisões de classe e de gênero.

Outra péssima ideia foi a de construir uma sociedade industrial baseada na queima de combustíveis fósseis. O petróleo é, no fundo, a atmosfera primitiva enterrada. A atmosfera nasceu a partir da interação da vida primitiva com o meio ambiente e demorou bilhões de anos para tomar a composição atual.

Hoje, a economia mundial vive o drama da necessidade do desmonte da indústria do petróleo e da reconfiguração das cidades, que passariam a ser pensadas para as pessoas, e, não, para os automóveis. O problema é que as empresas do complexo petrolífero-metalúrgico-automobilístico têm grande peso nas bolsas de valores e nos fundos de pensão.

6. ENVELHECIMENTO, SENTIDO DA VIDA, FUNDOS DE PENSÃO E MORTE. A VIDA ARTIFICIAL DO ÚLTIMO HOMEM

A humanidade parece estar sendo derrotada por suas vitórias. O grande aumento da expectativa de vida é um exemplo do sucesso da vida humana sobre a Terra. Entretanto, o fantasma do financiamento da Previdência Social liderou a lista de assuntos políticos dos últimos anos. Os gastos com saúde pública e privada tendem a aumentar na medida em que novas drogas e procedimentos aumentam o tempo de vida. Por outro lado, a longevidade nos coloca diante de dilemas éticos sobre o prolongamento desnecessário da vida. Muitos interesses econômicos giram em torno desse dilema ético.

A longevidade crescente da humanidade criou também alguns dilemas éticos em torno dos fundos de pensão, que imobilizam uma quantidade enorme de capital e acabam distorcendo tanto as leis do mercado quanto do poder político de acordo com seus interesses.

As leis do mercado tiveram suas virtudes cantadas em verso e prosa pelo neoliberalismo. As mudanças trazidas pela quarta revolução industrial e a tecnologia 5G estão em via de transformar radicalmente a forma como trabalhamos, nos deslocamos, interagimos, moramos, estudamos e, porque não, amamos.

7. UM ACELERADOR DO FUTURO

Todas essas mudanças estão a caminho. A pandemia de coronavirus funciona apenas como um acelerador do futuro. Home office, educação à distância, festas virtuais, experiências imersivas, tudo isso já estava no horizonte. Só que tudo será mais rápido.

Em pouco tempo, foi feito pela Biosfera muito mais do que qualquer Acordo de Paris seria capaz de realizar. O ar ficou mais puro, os oceanos, mais limpos. Será que o planeta acabará sendo salvo por esta pandemia catastrófica?

8. IMPACTO ECONÔMICO. DECRESCIMENTO, DOM, DÁDIVA E DINHEIRO.

Para que o planeta não alcance o ponto de irreversibilidade, é preciso que a economia seja planejada para o decrescimento econômico. Rever, reutilizar, reciclar e outros “res” são a base do decrescimento econômico. A organização local do trabalho pode diminuir a necessidade do deslocamento via automóveis.

Antes da economia de mercado e do uso do dinheiro como meio de troca, as sociedades viveram por milhares de anos trocando seus excedentes econômicos através de diversos mecanismos baseados no que os antropólogos chamaram de o dom e a dádiva. As trocas dentro da tribo obedecem a um sistema de troca acoplado a um sistema de parentesco que quase nunca é patrilinear.

Seja qual for o sistema, no regime do dom e da dádiva é a honra que está em jogo e, como diziam os gregos antigos, existe uma thymós, ou uma timopsique, que regula um sentido de honra heroica que não aceita a servidão e está disposto a pôr a vida em jogo por conta disso.

Ao contrário, no mundo contemporâneo, vivemos de acordo com o conceito nietzschiano de último homem. Para Nietzsche, o conforto da vida propiciado pelos avanços do progresso trazido pelas democracias liberais do Ocidente levaria à ideia de último homem, aquele que não seria capaz de arriscar nada nem pelo bem coletivo nem por sua própria honra, ou seja, o oposto daquele primeiro homem dos tempos heroicos. Os gregos e as sociedades tradicionais vivem na sociedade da vergonha. O cristianismo e os modernos vivem na sociedade da culpa.

Assim, a pandemia que se apresenta parece estar chamando o homem para novos tempos heroicos, quando o simples ato de fazer compras no mercado da esquina pode significar o encontro com a morte.

O dinheiro, essa grande invenção humana que facilita as trocas econômicas, sucumbiu à sua outra função, a de acumulação de valor e riqueza. Os avanços na tecnologia 5G e na inteligência artificial prometem fazer com que entremos na era da quarta forma da moeda (moeda metálica, papel moeda, dinheiro eletrônico e dinheiro via celular). Novas possibilidades de tributação, de combate à sonegação e à lavagem de dinheiro e de programas de renda mínima se tornam possíveis.

E, ainda sobre o dinheiro, está caindo o dogma de que a emissão de moeda pelos bancos centrais dos países causa necessariamente inflação. Se um país não tiver grande dívida em dólar e se houver capacidade ociosa na produção, ele pode emitir dinheiro para estimular a economia, cumprindo, assim, seu papel de facilitador das trocas. Foi dessa maneira que os EUA evitaram a recessão após a grande crise financeira de 2008.

9. O GLOBAL E O LOCAL: DA TRANSIÇÃO HEGEMÔNICA ÀS CIDADES EM TRANSIÇÃO

A atitude heroica que o momento invoca está ligada à reabilitação do thymós, essa parte da alma que corresponde à honra e ao brio, aquele sentimento presente na ira de Aquiles com a qual iniciei este artigo.

Assim como a transição hegemônica se dará inexoravelmente no plano da geopolítica mundial, é também inevitável que as cidades tenham que se reinventar para se adaptar ao novo cenário de mudanças no mundo do trabalho, aos eventos climáticos extremos e à nova realidade imposta pela pandemia.

O movimento chamado Cidades em Transição aponta para várias soluções urbanísticas a partir dos conceitos de ecovilas, ecobairros e ecocidades.

Problemas globais, como, por exemplo, o aquecimento do clima, têm soluções locais, como as ecovilas. Ações locais, como as para promover a autossuficiência, esbarram em acordos internacionais sobre comércio, energia, trabalho, fluxos migratórios e propriedade intelectual.

10. COMO MONTAR A NOSSA GERINGONÇA.

Todas essas reflexões e tantas outras mais que estão sendo formuladas no calor dos acontecimentos recentes da pandemia de coronavirus tendem a ganhar dimensão política.

Portugal e China, situados nas duas extremidades do continente eurasiano, são governados por sistemas políticos de esquerda: o socialismo democrático em Portugal e o regime de partido único no socialismo com características chinesas, que optou nas últimas décadas pelo regime de um país, dois sistemas.

A História caminha em ondas. A esquerda teve sua onda no início do século XXI. Veio uma contrarreação a partir da extrema direita do espectro político que fez uma estranha aliança com os liberais. Também foi estranha a aliança entre comunismo e capitalismo que derrotou o nazifascismo nas Duas Grandes Guerras Mundiais. No momento, parece que essa aliança volta a ter as condições de se realizar frente ao desafio representada pela hoje já decadente onda política de extrema direita.

A centro-esquerda do espectro político brasileiro não conseguiu se unir em defesa dos feitos realizados por ela a partir da redemocratização: o Plano Real, O SUS, o FUNDEB, o PROUNI, a Lei Maria da Penha, as cotas raciais nas universidades públicas, os programas de transferência de renda e a constituição de 88.

Portugal conseguiu reunir antigos adversários políticos do campo da centro-esquerda num governo que tem sido bem avaliado. Essa reunião de partidos com muitas diferenças foi chamada de Geringonça. A centro-esquerda brasileira deveria seguir o exemplo e montar sua união de diferentes tendências políticas em torno de um programa que dê respostas aos desafios de nosso tempo reunindo as preocupações sociais com as ecológicas.

Por: Felipe Torinho é médico e articulista do Jornal Século XXI