30/09/2017 Noticia Anterior

Para que governos?

"A democracia é a arte política de empoderar visões e práticas variadas através da mais uniforme “concentração” de oportunidades e riquezas."

Dib Curi

Quando pensamos em poder, logo pensamos em governos. Muitos pensadores falaram sobre a função dos governos. Definir qual seria esta função (ou missão), à partir de um horizonte tão amplo de visões é uma tarefa difícil. Temos que fazer escolhas diante de tanto conhecimento elaborado na história da humanidade. Desde Platão e Aristóteles, o ser humano se ocupa em refletir sobre a missão dos governos. Depois vieram Maquiável, Hobbes, Locke, Rousseau e Montesquieu, que são considerados clássicos. Mais tarde juntaram-se Saint Simon, Marx e Bakunin, entre outros. Será preciso levar também em conta o pensamento liberal de Edmund Burke ou Friedrich Hayek, por exemplo. Os federalistas americanos contribuíram demais, assim como o economista inglês John Maynard Keynes. Além disto, existem os modelos de Estado praticados na História. Muita coisa pra resumir em definições simples. Teremos que fazer opções. A primeira delas será pela democracia ( Estado democrático).

A democracia é o regime que tem por ideal o respeito à todas as vozes sociais. Se assim não for não estaremos numa democracia, mas numa oligarquia disfarçada de República como no caso do Brasil. A democracia é a arte política de empoderar visões e práticas variadas através da busca da mais uniforme “concentração” das oportunidades e das riquezas. Se qualquer um dos segmentos sociais tiver muito mais poder, dinheiro e oportunidades do que os outros, a democracia se nega a si mesma, exatamente nesta diferença da força de representação social de cada uma.

Ora, se a democracia é o nosso valor maior, a principal função dos governos será a de manter e aprofundar a democracia em todos os segmentos sociais. Assim, a educação será a prioridade numero UM do Estado, pois é a raiz da tolerância, do respeito à diversidade, clareando o preconceito e alargando os horizontes existenciais. Faço, desta forma, uma opção pelo pensamento de Platão, quando identifico o Estado (governos) com a educação. Muita coisa pode e deve ficar com a iniciativa privada. O norte da educação não. Os horizontes do que é o ser humano não podem ser definidos pela iniciativa privada. É preciso estimular a solidariedade, a fraternidade, o horizonte público e a generalidade e não somente o individualismo, a competitividade e a subserviência especialista.

Neste momento, faço também uma opção por Marx, pois o dinheiro no poder inviabiliza a construção social da democracia. Liberdade para o dinheiro sim. Dinheiro no poder não. Foi Platão quem primeiro afirmou isto. A função do dinheiro é comprar e todos precisam vender algo para viver. Assim, acabam por se mercantilizarem as relações e a própria perspectiva existencial de toda a gente. Tempo não é dinheiro.

Na verdade, todo este desvirtuamento social aconteceu porque deixamos a mentalidade econômica avançar e deter o poder absoluto do mundo à partir do mercantilismo, da descoberta das Américas e da revolução industrial, que acabaram por dar o poder à Inglaterra e aos EUA, sua principal colônia. Por sua vez, a Inglaterra foi a nascente do empirismo, da indústria e do liberalismo. Mas foi, ao mesmo tempo, o país que primeiro derrubou e tirou o poder dos Reis e fortaleceu o parlamento e os interesses de quem fazia comércio.

Se formos falar em democracia representativa, creio que a Inglaterra alcançou um patamar de destaque. Acho impossível compreender o Estado contemporâneo sem um bom estudo da história da Inglaterra. O fato é que com toda esta salada, a democracia representativa talvez tenha sido mesmo uma criação das oligarquias mercantis bilionárias, que se apoderaram do espaço público, através da profícua parceria da nova classe social daqueles que se vendem a si mesmos: os políticos, herdeiros e irmãos xipófagos dos antigos aristocratas que roubavam e pilhavam para permanecerem no poder. Assim, no fim das contas, os políticos governam o Estado para o deus dinheiro. Sem dúvida, é isto que está causando a falência da democracia representativa.

Mas democracia não é isto. O conceito de democracia está mais próximo da participação e de uma representação social expandida. E isto é algo que se constrói aos poucos. Por isto, democracia sem educação cidadã não existe. A principal função do Estado é educar, garantindo o amadurecimento da democracia, um sistema muito difícil de praticar, porque baseado na repartição espontânea de “poder”, das oportunidades e no respeito à diversidade de ser. Teríamos que compreender muito mais sobre o bem comum.

Gosto muito das ideias da filósofa Hannah Arendt, principalmente, naquilo que constitui a essência do seu pensamento. Para ela, em nossos tempos, a política estaria se transformando em uma mera administração de necessidades individuais e não mais a garantia do bem comum. Creio que a frase seguinte sintetiza bem o seu pensamento:

“Na época moderna, a existência se conjuga na primeira pessoa. Então, o universo plural, que é o universo político, perdeu o sentido.”

Após a excessiva valorização do interesse dos indivíduos, na modernidade, esvaziou-se justamente o espaço entre os indivíduos (espaço público) onde a verdadeira política se estabelece e prospera.

Por: Dib Curi é professor de Filosofia, ambientalista e editor do Jornal Século XXI