11/08/2017 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Entre oligarcas e populistas

"O pêndulo do poder esteve muito mais tempo do lado das oligarquias, o que explica a extrema desigualdade de nossa sociedade. Os governos populistas dominaram em torno de 50 dos 517 anos de nossa história."

Felipe Tourinho

Um ciclo da política brasileira, a Nova República (1985-2017), está terminando. Um sentimento de desorientação toma conta da sociedade.

Dos 517 anos de história do Brasil, o País atravessou 322 como colônia, 67 como império e 128 sob a forma de república.

A República começou com a República Velha, que teve 41 anos de duração durante os quais as oligarquias rurais de São Paulo e Minas dominaram através da política do café com leite.

Este ciclo oligárquico foi interrompido com a Revolução de 30, que levou ao poder Getúlio Vargas. Começava um ciclo populista que duraria 34 anos, só indo acabar em 1964 com a ditadura militar, quando, novamente, o pêndulo do poder retornou para o lado da oligarquia. A ditadura militar durou 21 anos.

Em 1985, com a redemocratização, teve início a Nova República, que começou com uma tragédia: a morte de Tancredo e a ascensão do seu vice, Sarney.

A Nova República tendeu inicialmente para a oligarquia com Sarney e Collor, teve uma fase de transição com os dois governos FHC, passou com Lula e Dilma por uma experiência populista que despertou enorme expectativa e frustração e termina de forma dramática com o governo Temer. A Nova República durou 32 anos.

Olhando para a história do Brasil, vemos que ocorre uma alternância entre momentos em que ora dominam forças oligárquicas e ora dominam forças populistas. E, vira e mexe, aparece alguém que encarna a tentativa de uma síntese oligárquico-polpulista, como, por exemplo, Floriano Peixoto, Juscelino Kubitschek e Fernando Henrique Cardoso.

Entretanto, no fim da Nova República, assistimos não a uma tentativa de síntese, mas, sim, a uma simbiose entre os dois lados unidos por um instinto sórdido de rapinagem. É o que o sociólogo José de Souza Martins chama de o “centro radical”, aquela faixa do espectro político que, haja o que houver, estará sempre do lado de quem estiver no poder.

A pergunta que devemos nos fazer, então, é como superar a simbiose oligárquico-populista e pensar a nação e a política de outra forma?

Arrisco dizer que a resposta passa por dois conceitos: inclusão e complexidade.

Oligarquia quer dizer governo de poucos. Ela, sucessora da aristocracia do Império, conduziu inicialmente o Brasil de acordo com seus interesses por 430 dos 517 anos de nossa história, contando do descobrimento em 1550 até a queda da República Velha com a Revolução de 30.

Já a palavra populismo é mais ambígua. Ela pode significar uma simpatia pelas causas populares, mas, também, caudilhos que se comunicam diretamente com o povo passando por cima dos mecanismos da democracia representativa, líderes carismáticos, paternalistas, messiânicos, assistencialistas e demagogos.

O pêndulo do poder esteve muito mais tempo do lado das oligarquias, o que explica a extrema desigualdade de nossa sociedade. Os governos populistas dominaram, pelas minhas contas, em torno de 50 dos 517 anos de nossa história.

O problema da oligarquia é a exclusão que ela gera. Então, a ideia de inclusão é o seu contraponto. O desafio é pensar a inclusão fora do simplismo populista. Para o populismo a inclusão depende do voluntarismo de um líder messiânico carismático.

O problema do populismo é o simplismo em um mundo cada vez mais complexo. Complexidade significa que as decisões políticas e econômicas de um país dependem de inúmeras variáveis e que o pensamento político vai muito além da construção de mitos e de voluntarismos messiânicos.

O bem estar de uma nação depende de ciclos econômicos e políticos globais e locais. O capitalismo alterna ciclos de crescimento acelerado com crises cíclicas. Estamos, em 2017, vivendo a crise da terceira revolução industrial.

No Segundo Império, teve início a chamada política de encilhamento, através da qual o Brasil gerou recursos financeiros a partir da emissão de títulos e ações para investir na entrada do País na primeira e no início da segunda revolução industrial. Foi quando deixamos de explorar o trabalho escravo para explorar trabalhadores pobres.

Esse modelo faliu com a crise de 29. Veio a era Vargas. No contexto da Guerra Fria houve uma desglobalização e um ciclo protecionista que se deu aqui sob a ditadura militar. Durante a redemocratização veio a terceira revolução industrial e uma nova onda de globalização. Esta onda terminou com a crise de 2008.

E agora a quarta revolução industrial promete muitas transformações nas relações de trabalho, nas formas de troca e remuneração, na circulação da moeda, no redesenho das cidades e na relação do homem com as matrizes energéticas e com a biosfera.

Temos aí oportunidades e perigos. Conseguiremos superar a aliança entre oligarcas e populistas?

Por: Luís Felipe Tourinho é médico e articulista do Jornal Século XXI