14/05/2017 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O bando de loucos no espetáculo do Apocalipse

"Crianças alimentam Tamagochis, jovens procuram Pokemons e os adultos temem a Baleia Azul."

Dib Curi

Chegaram os tempos que intuitivamente esperamos desde épocas imemoriais. Tempos descritos nas mitologias e religiões como momentos de extraordinária importância. Para os Maias seria o tempo da transição, além do qual muito pouco se poderia dizer, tal a transformação que será sofrida pela humanidade. Para os gregos, a história está aberta e depende dos humanos. Este seria o tempo de Hermes, originariamente ligado à magia, por isto, a expressão “hermética” falava da sabedoria dos iniciados. Hermes é o psicopompo, o guia da alma. É também o patrono ancestral da comunicação. Tem asas nos calcanhares, o que mostra a sua virtude de viajante entre os mundos.

Há outras interpretações religiosas para o momento atual. O espiritismo considera este o tempo em que a Terra subirá de degrau na escala evolutiva dos mundos e passará de planeta de expiação à planeta de regeneração. Por sua vez, os esotéricos e os alternativos acreditam se tratar da Era de Aquário, uma nova era de paz e amor para a humanidade. Já a visão Cristã acredita tratar-se do final dos tempos descrito no Apocalipse, a segunda vinda de Jesus Cristo.

Enquanto os guias da nossa alma não chegam, consideramos a tecnologia como tal. Seu patrono é o deus grego Prometeu, que roubou o fogo do deuses e deu aos homens. Atualmente, Prometeu entregou a tecnologia aos cuidados de Hermes, que a aplicou à comunicação, o que multiplicou as abas dos meios e a relatividade dos discursos e das verdades.

Os deuses gregos acreditavam nestes tempos como criação de novos meios para novas finalidades. Mas nem sempre os fins que o deuses sugerem são os fins que desejamos. O humano tem liberdade e pode negar o destino, desviando-se da justa medida das coisas (Diké) e aventurando-se na total desmedida (Hibris).

Nos momentos de desmedida a verdade das escatologias religiosas torna-se mais difícil de enxergar. A mitologia da Ìndia, por exemplo, no livro religioso do Mahabharata, apresenta este tempo como sendo Kali Yuga, a era da degradação social, ambiental e espiritual, a Idade das Trevas, com as pessoas muito longe de Deus. Para muitos Hindús, Deus é a Realidade, o presente manifesto, a vontade que emerge de tudo que acontece. O real e Deus são a mesma coisa. Para eles, Deus é o Todo e o ser humano não está separado. Pois o Todo mais próximo de nós é a sociedade. De onde viria, então, a desmedida que nos afasta de Deus e da sociedade e nos leva à desagregação de Kali Yuga?

Neste momento, é importante lembrarmos de Platão. Ele elogiava o comércio, que dizia ser uma atividade muito útil à sociedade, porque geradora de riquezas. Mas frisou também que a mentalidade comercial não poderia chegar ao poder, pois suas preocupações não transcendem os seus interesses. Para Platão, a mentalidade comercial no poder alimentaria uma excessiva impulsividade individualista e competitiva, o que esculpiria um ser humano sem raízes, desencarnado da comunidade e sem vínculo com o corpo social, desestruturando também a política. Seu discípulo Aristóteles dizia que o homem é um animal social e político e era preciso desenvolver esta sua face através de uma educação ética das virtudes.

Platão viveu há 2.400 anos e parece atual. A nossa educação para o mercado é uma visão oposta a de Aristóteles. Em nosso tempo, a mentalidade comercial galgou o poder após as revoluções do Sec.XVIII. O mundo se transformou num grande mercado, a vida em mercadoria e o tempo em dinheiro. Será que o comércio global quer agora reinventar artificialmente a vida para gerar mais negócios?

Pois é: Seduzir as pessoas para uma simulação da realidade é o que Jean Baudrilard chamou de hiper realidade: Comidas fabricadas, modo de vida padronizado, modelos ditados pela mídia. A apologia da banalidade nos anestesia e vem editada através dos ídolos de plástico da TV. Os sanduíches do MacDonald nunca são do tamanho das suas propagandas. Crianças alimentam Tamagochis, jovens procuram Pokemons e os adultos temem a Baleia Azul. A simulação parece melhor do que a realidade como nas propagandas de bancos. O virtual é instigante e o real entediante.

Conectados à hiper realidade, temos os desejos capturados pelo marketing e a posição política alinhada com o mercado. Nos tornamos serviçais da preferência da maioria abobada e incalta na dança das vantagens. Nossa democracia está vendida ao mercado como provam as notícias. Não somos um órgão coletivo, um Todo, mas apenas moléculas separadas por nosso individualismo e narcisismo. Sem uma estrutura sólida social, coesão que se desfaz na moderna liquidez, somos átomos ensandecidos no caos político e econômico da desfaçatez. A lei dos tempos é o desejo canalizado pela mercadoria. Trata-se da “Sociedade do Espetáculo”, segundo o escritor Guy Debord. Mas parece que o espetáculo maior será mesmo o Apocalipse. Esperamos pelos novos guias.

Por: Dib Curi é professor de Filosofia, ambientalista e editor do Jornal Século XXI