30/04/2016 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Considerações serenas sobre a crise

Para o Brasil é muito importante este momento porque estamos descobrindo o que realmente acontece nos meandros e bastidores da política.

Dib Curi

Creio que temos que ter confiança no fluxo natural das coisas. A democracia é o único regime que tem a virtude de melhorar e de amadurecer com o tempo, através da aplicação de correções de rumo. A constância dos conflitos de interesses acaba nos trazendo a compreensão de que é normal pensar diferente, ver diferente e querer diferente. Por mais que nossa imaturidade e inocência teime em demonizar os interesses e as opiniões divergentes, jamais conseguiremos neutralizar a vida que será sempre um jogo de forças antagônicas. É assim que é!

O amadurecimento é importante, pois deixamos de ser donos da verdade. Deixamos também de ser manipulados pelos interesses em jogo. Logo chegaremos à conclusão de que, fora a grande crise de caráter em vigor, o responsável pela corrupção é o sistema político-eleitoral. A ação mais urgente seria mudar o sistema eleitoral e o financiamento privado de campanhas, punindo exemplarmente a corrupção.

A democracia mais antiga em vigor é a Inglesa. Eles tem parlamentos desde o século XIV. Já tiveram centenas de guerras civis e conflitos e acabaram se decidindo pelo parlamentarismo. São mais maduros e realistas em se tratando de política. Compreendem que existe um jogo de forças contrárias tanto na política como na vida. Sabem lidar melhor com isto. Tiveram mais tempo e oportunidades de amadurecer.

É muito importante este momento porque estamos descobrindo o que acontece nos meandros e nos bastidores da política. Creio que é positivo este grande vazamento de informações confidenciais, afinal precisamos saber de tudo, senão como vamos conhecer a realidade para transformá-la? A transparência vem em primeiro lugar. A história das democracias nos mostra que o conflito e a tensão são inevitáveis em algum momento. Quanto à corrupção, repito, temos que mudar o sistema político-eleitoral para coibi-la.

A humildade ajuda a amadurecermos mais rápido

Se estamos convictos de sabermos tudo, fica muito difícil construirmos algo em comum, pois a verdade tem várias faces que, muitas vezes, se contradizem. Mas se tivermos a mínima desconfiança de que sabemos pouco ou nada, seria mais tranquilo nos unirmos para construirmos uma perspectiva comum, porque poderíamos elaborar o nosso conhecimento e ação juntos, tanto em pesquisa quanto em diálogo. É claro que estamos falando de questões em que necessariamente convergimos, como é o caso da realidade sócio-política. Na questão da filosofia de vida de cada um ou nas questões estéticas permanecemos autônomos e livres de toda convergência e não há a menor necessidade de nos deixarmos pautar pelo mercado, pelas ideologias, pela maioria e pelo Estado.

Ideologias e alienação

A polarização social ainda mantêm as mesmas raízes do conflito entre capitalismo e socialismo. Daqui a 500 anos esta discussão estará no museu. Definiremos então as sociedades pela ausência ou pela presença de duas virtudes cardeais: respeito à vida e promoção dos potenciais humanos. Mais do que uma instância punitiva, a justiça garantirá a correta distribuição das oportunidades.

Os refluxos da História

É lógico que há perigos neste processo de amadurecimento. São justamente os perigos de um retrocesso na democracia. Há correntes submersas no fluxo histórico, de forma que não se joga impunemente com a História. Existem forças atávicas e ancestrais que vem e que vão quando o caos ameaça se instalar. Toda vez que os interesses antagônicos não conseguem sequer dialogarem entre si, as forças autoritárias, conservadoras, ressentidas e reacionárias crescem e ameaçam assumir o poder, colocando em risco a liberdade e as conquistas sociais. A Alemanha viveu este cenário no final da década de 1920 e assim se fortaleceu o fascismo. Queira Deus que o Brasil não precise experimentar isto nas eleições de 2018.

O problema do Brasil é cultural

O problema brasileiro é cultural por duas razões: A primeira é porque o brasileiro não tem as mínimas condições educacionais de travar discussões ideológicas. Isto porque somos extremamente pobres de conceitos e de reflexões de raiz. Mesmo que tivéssemos condições de debater o mecanismo do poder e a constituição da República, mesmo assim, este sistema eleitoral corrupto e as eleições bilionárias colocariam tudo a perder. Esta é a segunda questão cultural que nos assola e que vem da histórica máxima de “levar vantagem em tudo”, que corrompeu a nossa democracia, sob os auspícios do famigerado narcisismo “liberal” contemporâneo.

A Ética deve estar no centro

Não há verdadeira sociedade sem Ética. Estamos assistindo isto no nosso país. Todo ser humano é testado em seus princípios e valores sob as várias alegações do egoísmo, do desejo, da necessidade ou do interesse. No terreno simbólico ou religioso, cabe-nos lutar para vencer cada uma destas “tentações”, fortalecendo o “anjo” da Ética, que brilha mais a cada vitória nossa.

Estamos num momento de escuridão. Se cada um começar a vencer suas batalhas diárias em nome do Bem, começamos a mudar a história. A Ética deve vencer dentro de nós mesmos.

Por: Dib Curi é professor de Filosofia e Editor do Jornal Século XXI