23/04/2016 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O Brasil precisa de um novo começo

Por isto, ao mesmo tempo em que sejamos severos com a corrupção, especialmente a relativa à coisa pública, pensemos num plano de salvação nacional, com a adesão de todos. Recusemo-nos a esta polarização política que querem nos impor.

Jorge Miguel Mayer

”Em casa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”. (ditado português)

A corrupção tem sido investigada. O Poder Judiciário tem acusado o desvio de bilhões de reais. Triste constatar a presença constante da corrupção na vida política e econômica do Brasil. Na verdade, existem o corruptor e o corrupto, É preciso dizer que muito frequentemente grandes negócios se fazem obtendo aprovações mediante compra de favores e preferências por parte das autoridades nacionais que decidem.

Estranhamente, o dinheiro da propina, da tradicional “bola” não retorna na mesma escala de sua apropriação. A Fifa nos dá um bom exemplo de atitude a tomar. Solicitou à Justiça norteamericana a recuperação de dezenas de milhões de dólares dos seus antigos dirigentes, acusados de desviar quase 200 milhões de dólares. O relatório da Fifa cita 41 nomes de dirigentes, entre os quais os ex-presidentes da CBF Ricardo Teixeira e José Maria Marin, além de Marco Polo Del Nero. Somente dos três, a Fifa cobra cinco milhões e trezentos mil dólares

Supreende-me o vazio programático das acusações que se dirigem ao PT, ao Lula e articulam o afastamento presidencial. Usam a expressão estrangeira: “impeachment”. Existe uma conspiração que envolve as instâncias parlamentar e judiciária, o canal televisivo de maior audiência no país e uma classe média fiel ao O Globo, principalmente aquela de um Estado, como São Paulo, onde a crise econômica é brutal.

Fico a matutar o que está por trás desta conspiração. Será o desejo de privatização total, a começar da Petrobrás, passando pelo Banco do Brasil, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)? Praticamente o fim do Brasil institucional. Será um novo 1932, quando São Paulo se uniu contra o governo? Um Brasil para poucos?

Qualquer análise dos rumos nacionais deve considerar o poder do Império, o revigoramento da direita na América Latina. O popular “grampo” revelou um poder além da Presidência. Pensemos no que a Presidente Dilma falou: “se fazem isto com a Presidência, o que não farão com os cidadãos comuns”? Assim como em 1964 havia uma organização conspiratória montada desde 1961 com apoio norteamericano, o que haverá hoje?

Já vivemos sob o poder financeiro dos bancos; a política econômica é paralisante ou incapaz de assegurar o desenvolvimento; estamos sob uma crise ambiental (vide o recente caso do rio Doce); o colapso da educação é enorme, como o exemplo da greve da rede pública estadual do Estado do Rio de Janeiro. O sistema de saúde é deprimente; a Justiça mantém centenas de milhares de pobres nas prisões. O latifundiários sonegam e grilam à vontade; as populações indígenas se revoltam. As favelas são palco de uma guerra que infelicita famílias em proporções de um verdadeiro conflito bélico.

Enfim a liberdade tem sido usada pelo Poder para controlar a informação, para excluir... Há um Poder que transcende a vida institucional. Entra presidente, muda presidente; muda parlamento e as mudanças são imperceptíveis. Vale o dito: “muda o pudim, mas as moscas continuam as mesmas”. Se agora com precisão estratégica se procura extirpar o PT e seus líderes, certamente isto está cheirando ao golpe fatal que não só arrisca acabar com o Brasil, como fazer deste movimento um estímulo para a direita planetária em crescimento.

A armação do golpe revelou-se mais difícil, do que se imaginava. A nação ficou aturdida em conhecer as armas do Big Brother; que não hesitam em manifestar a manipulação e desprezo pela liberdade individual; e em ver o líder da campanha pelo “impeachment” possuir fortunas em contas suíças.

A nação não aguenta tamanha paralisação. Está destruindo vidas. Pode-se dizer que pretendem governar para vinte milhões uma nação de 200 milhões de habitantes. É o triunfo da Belíndia.

Penso que não se sai da crise sem uma intervenção estatal. Ao mesmo tempo e contraditoriamente se cortam os gastos estatais. A corrupção deve ser atacada estruturalmente, de tal modo que ela seja extirpada, o que implica a transformação social e a transparência. Por isto em nome dos andrajosos, dos pobres, dos marginais, dos “sem...”, (lembrança do desfile carnavalesco com o enredo de Joãozinho Trinta em 1989: Ratos e Urubus Larguem a Minha Fantasia), torna-se necessária e urgente uma ação, que levante nossa autoestima.

Um país que dispõe de um grande contingente jovem, belas tradições populares, terras ociosas, recursos naturais abundantes e acesso às maravilhas da tecnologia e da ciência moderna, não pode ficar parado sem ver agravada dolorosamente a discrepância entre o seu potencial e o fatual. Por isto, ao mesmo tempo em que sejamos severos com a corrupção, especialmente a relativa à coisa pública, pensemos num plano de salvação nacional, com a adesão de todos. Recusemo-nos a esta polarização política que querem nos impor.

Este plano de salvação nacional para sair da crise passa pela ação pública, pela descentralização econômica e política, conferindo iniciativa a estados e a municípios. Na verdade a crise atual é civilizatória. A questão atual em todo mundo é a superação do velho industrialismo, com distribuição social de renda.

Que haja uma melhoria substancial nos sistemas básicos públicos; na educação pública e na Saúde. Enfim dotemos o pobre de condições de vida, valorizando comunidades. Isto fará a diferença. Sem essas novas medidas continuaremos com muitas palavras e promessas vazias. Palavras, palavras, palavras...

Por: Jorge Miguel Mayer é Doutor e professor de história da Universidade Federal Fluminense