20/03/2016 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Ganância e sustentabilidade

O estilo de vida dos muito ricos e poderosos, que deveria ser objetivo de reflexão e mesmo de combate, foi adotado como o ideal, uma espécie de padrão possível a todos.

Vilmar Berna

Não é por falta de amor à natureza ou aos animais, ou mesmo por desconhecimento ou de educação Ambiental. Por trás da superexploração da natureza e da superexploração do trabalho humano e animal, está o mesmo sistema de apropriação e concentração de recursos e de poder que produziu a escravidão, a ‘solução final’ nazista e a brutal destruição ambiental de hoje.

Se antes as nações lutavam entre si para se apropriarem dos recursos umas das outras, hoje, as armaduras, os exércitos, as guerras de conquista foram substituídas por dívidas, em nome de empréstimos “humanitários”, oferecidos candidamente por pessoas acima de qualquer suspeita, humildes, normais, que professam o altruísmo, que falam oficialmente sobre as maravilhosas coisas humanitárias que estão fazendo.

Hoje, não são mais necessárias masmorras e prisões para prender ou obrigar as pessoas a trabalharem de sol a sol para gerar riquezas para outros, pois a prisão é por dentro. Nossos sonhos de qualidade de vida, sucesso, felicidade foram capturados e traduzidos em bens de consumo que a moda e a obsolescência programada tornam rapidamente ultrapassados, nos induzindo a mais e mais consumo, nos obrigando a vender a forca de trabalho, a criatividade, o conhecimento, por salários que mal chegam ao final do mês. Para complementar o salário e tentar sobreviver com alguma dignidade é preciso se deixar algemar a dívidas de cartões de créditos, cheques especiais e carnês a perder de vista.

O estilo de vida dos muito ricos e poderosos, que deveria ser objetivo de reflexão e mesmo de combate, foi adotado como o ideal, uma espécie de padrão possível a todos, como se existissem diversos planetas terras de recursos naturais capazes de sustentar tamanho abuso e desperdício de recursos.

Se a força está com o povo, o poder está com quem esse povo escolhe como representantes políticos, e baseado nas informações e nos valores que recebe. Se forem mentirosos e manipulados, certamente influenciarão as escolhas.

Para chegar ao poder – e se manter nele – os candidatos precisam de dinheiro. E não é de pouco dinheiro, mas de verdadeiras fortunas. E é aqui, neste momento, que as boas intenções, as boas ideias e promessas, se misturam numa zona cinza de hipocrisia e manipulações. Por que empresas e empresários não fazem doações ou caridade, fazem investimento.

Leis e regras devem se ajustar aos interesses dos negócios, não só evitando atrapalhar mas principalmente, os favorecendo, discretamente sempre que possível para que a ‘Pátria distraída’ siga em frente na certeza de estar sendo bem cuidada e protegida pelos seus representantes.

Felizmente, ainda há esperança, pois além dos segmentos mais esclarecidos e organizados da Sociedade Civil estarem mobilizados e lutando, cada eleição é uma nova chance de libertação. O Brasil vive tempos obscuros, mas também de muita luz, como essa, que vem do Lava-Jato, e nos renova o ânimo de que a guerra não está perdida, pois ‘é de batalhas que se vive a vida’

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Vilmar Berna é escritor, jornalista e ambientalista. Em 1999, recebeu no Japão, das maos do Imperador, o Premio Global 500 da ONU para o meio ambiente.

Por: Fundador das ONGs UNIVERDE, DEFENSORES DA TERRA e REBIA e da Revista do Meio Ambiente. Mais informações: www.escritorvilmarberna.com.br www.rebia.org.br