11/01/2016 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O sequestro dos espaços públicos

Uma das grandes contribuições da Filosofia ao saber político e social de nosso tempo veio de Michel Foucault, filósofo francês nascido em 1926 e falecido em 1984. Foucault analisou o poder em nossas sociedades. Ele chegou a conclusão de que o poder fabrica o tipo de ser humano que lhe interessa. O pensador francês chamava isto de produção de subjetividades. É como se o poder fosse uma industria de gerar modos de pensar e de ser. Um exemplo exagerado desta tendência seria o Nazismo, com sua propaganda, seleção e eugenia.

A questão é que o poder quer forçar a visão e o jeito de ser das pessoas nos moldes que lhe interessam. Segundo Foucault, o poder se entranha na sociedade até chegar às instituições e mentes. Ele chamou isto de micropoderes, um plano microfísico de relações e estratégias onde o poder se ramifica, circula, seduz, domina e produz saberes e sujeitos. Foucault também chamava isto de biopolítica ou biopoder, uma tendência de regular a população.

Para o leitor ficar mais situado vou dar dois exemplos; um do passado e outro do presente. O primeiro é o poder religioso da Igreja durante a Idade Média (476 d.C - 1453 d.C). Sabemos que naquela época a igreja projetava um tipo de ser humano que fosse a imagem e semelhança de Deus. Mas sabemos também que a igreja forçava homens e mulheres usando ameaças, violência e a culpa. O castigo para os que não seguiam o modelo prescrito foram milhares de execuções na fogueira. Para Foucault todo poder é um poder de disciplinar.

Um exemplo mais atual é o poder econômico. Quem não ouviu falar em indústria cultural ou sociedade de massas? Estes conceitos foram desenvolvidos pelos filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer. Os objetivos do poder econômico são o o conformismo e o consumismo. A publicidade induz as pessoas a se comportarem como consumidores num mercado e não como cidadãos num ambiente solidário. A indústria cultural padroniza produtos e pessoas para o consumo, influindo sobre o estado de consciência das pessoas através do marketing. O valor da pessoa é substituído pelo valor da coisa e pelo valor da imagem. A indústria cultural produz o meio pelo qual a Vida deve se manifestar e reprime as outras possibilidades.

A tendência do poder em manipular as pessoas e se apropriar dos espaços públicos fez os anarquistas serem contra todas as formas de poder.

“Anarquismo significa ‘sem governantes’:é uma filosofia política que objetiva a eliminação das formas de governo compulsório. Os anarquistas são contra a hierarquia se ela não for livremente aceita. A noção de que anarquia significa caos e bagunça se popularizou pelos meios de propaganda. Anarquia significa ausência de coerção e não ausência de ordem”. Para os anarquistas o “poder” é uma forma radical de negação da liberdade. Por isto, eles nos pedem o fim da nossa cumplicidade.

Como vimos, os poderes constituídos sempre tiveram a intenção de inculcar modos de ser e disciplinar as populações, seja pela força seja pelas ideias. Todavia, antigamente, os objetivos sociais eram baseados em grandes ideologias ou em narrativas míticas ou religiosas. Depois da derrocada destas meta narrativas e do enfraquecimento das ideologias de esquerda e de direita, o poder político ocidental parece não exibir mais a intenção de colonizar ideológicamente as mentes como fazem as ditaduras de esquerda e de direita e os fundamentalismos.

Isto acontece porque o poder político virou refém do poder econômico e não tem mais vocação pública. O discurso político se tornou vazio, hipócrita e esquizofrênico. O que vemos é o poder político sendo fatiado entre interesses privados, sejam corporações, grupos ou pessoas. Vale tudo para se privatizarem as últimas áreas públicas existentes, entre elas, a água, o ar e as florestas. Até a mente das pessoas deverá ser privatizada num futuro próximo para ficarmos mais sensíveis ao materialismo galopante, fonte de dinheiro e, principalmente, de poder.

Sabemos que a liberdade tem os limites da sobrevivência. A prevalência dos valores privados sobre os públicos destrói as bases da civilização no jogo selvagem dos interesses. Platão disse isto no seu livro “A República” e Thomas Hobbes no seu livro “Leviatã”. Por outro lado, se continuarmos formando pessoas individualistas, hedonistas e consumistas, as coisas públicas (República) correrão um grave risco. A crise pode virar de caráter.

O poder político, que deveria ser um espaço de administração de iniciativas e bens públicos, abriu-se demais ao tráfico das influências privadas. Nada contra os interesses privados, pois eles são um dos motores da História. Mas o interesse público é o volante, a direção. Cada um no seu quadrado. Retirar o privado do público é prioridade, à começar pelo financiamento das campanhas e o fim do patrimonialismo, carreirismo e clientelismo.

No fim das contas, a humanidade perdeu as referências míticas e religiosas e não colocou nada no lugar.

Por que falar a Verdade?

Por que agir com Bondade?

Por que defender a Justiça?

O conflito entre o privado e o público é claro. O poder político existe para defender os espaços públicos e os valores maiores da civilização. Mas este poder nem sempre governou neste sentido e, muitas vezes, se entranhou nas consciências retardando-as. Se continuarmos a corromper o espaço público que é o de defesa de nossos valores comuns e fundamentais a humanidade estará em risco. E todos sairão perdendo...

Por: Dib Curi é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI