03/04/2016 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A Prática Espiritual na Vida Cotidiana

"Mesmo que as condições externas em que se esteja vivendo não sejam as ideais, manter sempre em mente a busca da iluminação é a chave que abre a porta para remover os obstáculos para a prática."

Alexandre Saioro

Atualmente muitas pessoas que sinceramente buscam seguir um caminho espiritual se vêem sem tempo e condições para isso. A vida corrida, as necessidades financeiras e as responsabilidades sociais e familiares muitas vezes dificultam uma maior dedicação a uma prática espiritual diligente.

Se olharmos as histórias dos grandes mestres veremos que muitos deles passaram um grande tempo de suas vidas exclusivamente se dedicando à prática espiritual. Muitos abandonaram família, trabalho, vida social e seus pertences e viveram uma vida retirada voltada para a realização espiritual. Muitos podem achar que precisamos seguir estes exemplos para alcançar alguma realização, mas isso não é uma regra, podemos e devemos começar de onde estamos, entendendo que, antes de tudo, a prática espiritual acontece na nossa mente.

Na verdade, não devemos separar o caminho espiritual de nossa vida cotidiana, apesar de ser importante de tempos em tempos nos dedicarmos a um retiro para aprofundar certos aspectos em de nossa prática. Devemos almejar integrar a visão espiritual à nossa vida. Isso não significa adotar certos costumes e padrões culturais religiosos, mas sim ter uma conduta com ações positivas que possam beneficiar a nós e aos outros seres, mantendo e nos familiarizando cada vez mais com a sabedoria de nossa visão espiritual.

Na prática budista esta é uma questão importante a ser observada e trabalhada, pois se compreende que todas as experiências de vida são um precioso material para nosso treinamento. Muitos grandes mestres budistas tinham famílias, eram trabalhadores e até governantes e reis com grandes responsabilidades sociais. Eles integraram a prática espiritual ao seu cotidiano e alcançaram uma grande realização espiritual.

Chagdud Tulku Rinpoche dizia que mesmo que meditemos ou rezemos durante uma hora por dia, isso representa uma hora em que você se dedica a prática espiritual contra vinte e três em que não se dedica. Nas palavras dele:

“Quais seriam as chances de uma pessoa contra 23 em um cabo-de-guerra? Um puxa para um lado e 23 para o outro — quem vai ganhar? Não é possível mudar a mente com uma hora de meditação diária. Você tem que prestar atenção a seu processo espiritual ao longo de todo o dia, enquanto trabalha, joga, dorme; a mente precisa estar sempre se direcionando para a meta final da iluminação.”Chagdud Tulku Rinpoche - Portões da Prática Budista – Editora Makara

Mesmo que as condições externas em que se esteja vivendo não sejam as ideais, manter sempre em mente a busca da iluminação é a chave que abre a porta para remover os obstáculos para a prática. Ao mesmo tempo, é preciso desenvolver a habilidade para utilizar qualquer experiência de vida como prática espiritual.

O Budismo Vajrayana é rico em meios hábeis que nos ajudam a não perder nem um momento para purificar carma, gerar mérito e desenvolver sabedoria. Chagdud Rinpoche ensinava aos seus alunos:

“Não importa tanto o que você esteja fazendo, desde que concentre a mente e fique com aquilo que se propõe a fazer. Permaneça junto da tarefa, procurando estar confortável em relação ao que está fazendo e, desse modo, você treinará a mente. Sempre se observe de forma minuciosa, reduza os pensamentos, palavras e comportamentos negativos, e aumente aqueles que são positivos. Pense com cuidado e constantemente refaça seu foco, pois você pode ficar com a mente nublada com muita facilidade. O que a meditação produz é um constante ajuste do foco. Você tem que trazer de volta a intenção pura, vez após vez. E, então, relaxe a mente para permitir um reconhecimento direto e sutil daquilo que está além de todo o pensamento.”

Outro grande mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, escreveu recentemente instruções preciosas de como usar uma tarefa simples e comum, no nível externo, como uma prática espiritual ao aplicar de forma genuína as três atitudes positivas conhecidas como os Três Métodos Supremos.

O primeiro método consiste em estabelecer a motivação pura em qualquer tarefa que se esteja fazendo. Isso significa que seja o que for que façamos nossas ações são dirigidas para o benefício de todos os seres sencientes. Nas palavras de Dzongsar Khyentese Rinpoche:

“Comece com a purificação da sua intenção, pensando que fará o trabalho para o bem de todos os seres sencientes. Lembre-se de que não está fazendo a oferenda de trabalho para incrementar sua gratificação pessoal, conquistar maior reconhecimento ou acumular mais pontos em seu programa de milhagem.”

O segundo método consiste em manter a visão de que todas as coisas são tão insubstanciais quanto os sonhos, uma exibição ilusória, incessante e magnífica. Desta forma, venenos da mente com raiva, apego, inveja, orgulho etc não encontram um chão para se fixar.

Dzongsar Khyentese Rinpoche ensina como:

“Você deve refletir da seguinte forma: Em última análise, tudo o que eu fizer hoje será apenas um conceito. Em termos relativos, é preciso haver uma estrutura, assim como no sonho. Embora no sonho não haja direção de verdade, quando sonho que estou caindo, caio para baixo em direção à terra, não para cima em direção ao céu. No fundo, a direção não importa porque nunca houve queda alguma. Ainda assim, a concepção de um “modo de cair” é necessária no mundo relativo do sonho. Portanto, vou fazer meu trabalho da forma mais adequada possível.

Para compreender melhor a proposta deste método é útil refletir sobre estas duas próximas citações de dois dos maiores mestres budista tibetanos:

“Em qualquer percepção que surja, você deve ser como uma criança que entra num templo lindamente decorado: ela olha, mas o apego não entra de modo algum em sua percepção. Então você deixa tudo ali, fresco, natural, vivo e intocado. Quando você deixa tudo no seu estado próprio, a forma não muda, a cor não esmaece, o brilho não declina. Tudo o que surge não é maculado por nenhum apego, e assim todas as coisas que você percebe surgem como a desnuda sabedoria de Rigpa, que é a inseparabilidade entre luminosidade e vacuidade.” Dudjom Rinpoche

“Embora arco-íris surjam no céu, eles não fazem diferença para o céu; simplesmente, o céu torna possível o surgimento do arco-íris. Fenômenos adornam a vacuidade, mas jamais a corrompem.” Dilgo Khyentse Rinpoche

O terceiro método diz respeito a dedicação do mérito. No budismo, acredita-se que toda ação, palavra ou pensamento benéfico, realizado com uma motivação altruísta, gera uma energia positiva. Ao gerar esta energia positiva ou mérito, nós podemos dedicar para o benefício de todos os seres de forma que todos possam alcançar a completa liberdade do sofrimento e experimentar felicidade temporária e definitiva.

Quando fazemos isso, o mérito se torna ilimitado, como uma gota de água que jogada no oceano se torna o próprio oceano. Ao dedicar o mérito nós praticamos, ao mesmo tempo, a compaixão na oferenda de nossa energia positiva e a sabedoria no reconhecimento da ausência de algo com uma existência inerente e independente e da manifestação interdependente de todas as coisas.

Com estes métodos extraordinários incrementamos nossa prática espiritual em cada instante de nossas vidas até a realização final aspirada pelos Bodisatvas de libertar do sofrimento de forma definitiva os incontáveis seres senscientes.

Por: Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org)