05/08/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Crise da Grécia: a ponta do iceberg do neocolonialismo financeiro europeu

" Esse neocolonialismo financeiro, (...) reacendeu o debate acerca da legitimidade da dívida pública nos países da periferia do capitalismo global."

Sandra Mara Ortegosa

O projeto de uma Europa democrática, unida e solidária esvaiu-se por completo, neste mês de julho, com as brutais medidas de austeridade econômica impostas à Grécia, desnudando a falsa democracia europeia, onde parece não haver lugar para que países como a pequenina Grécia possam assumir o protagonismo do seu próprio destino.

Desde 2010, a Troika de credores internacionais (que inclui o FMI, o Banco Central Europeu e a União Europeia) vem impondo medidas econômicas estoicas à Grécia,que levaram à transferência de enormes recursos públicos aos bancos alemães e franceses; à privatização de bens públicos; ao aumento do desemprego; à redução de salários e pensões; à degradação dos serviços públicos; ao aumento extraordinário da dívida pública; e a uma violenta recessão econômica que levou o país à miséria. A dívida da pequenina Grécia, que tem um PIB de 2 a 3% do PIB do Eurogrupo, é de 316 bilhões de euros!

Esse neocolonialismo financeiro, responsável pela crise da Grécia, reacendeu o debate acerca da legitimidade da dívida pública nos países da periferia do capitalismo global. No Brasil, a dívida consome uma quantidade gigantesca de recursos públicos: mais de 40% do orçamento geral da União, o que corresponde a 10 vezes mais do que é investido anualmente em Saúde ou 12 vezes o valor destinado à Educação.Somando-se a dívida interna (R$ 3 trilhões) e a externa (US$ 0,5 trilhão), a dívida do Brasil equivalea mais de quatro trilhões de reais.

No caso da Grécia, ao contrário do que muitos analistas apressaram-se em afirmar,o programa do partido de esquerda Siryza, que venceu as eleições em janeiro desse ano, não foi uma “fraude plebiscitária”, mas uma proposta de mudanças econômicas, sociais e políticas pautadas no entendimento de que a economia grega só pode se recuperar se houver uma reestruturação da dívida (com revisão de valores e prazos); geração de novos empregos; adoção de medidas de combate à corrupção e promoção de justiça fiscal. A Troika, composta basicamente por ministros das Finanças dos países da União Europeia, usou dos métodos mais antidemocráticos e truculentos com o intuito de impedir que esse programa seja colocado em prática.

No dia 12 de julho, em Bruxelas, apenas uma semana depois do referendo nacional que deu vitória estrondosa ao OXI (“não” em grego), quando mais de 61% dos gregos disseram basta à austeridade, o recém-eleito primeiro ministro grego Alexis Tsipras, sob a ameaça de uma eminente situação de insolvência do país, viu-se obrigado a assinar um duro e humilhante“acordo”para que a Grécia não fosse expulsa da zona do euro. O Grexit, plano defendido pelo ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, com apoio de Angela Merkel (a poderosa Chanceler do governo alemão), propunha a expulsão da Grécia até pelo menos 2021, com a transferência de bens no valor de 50 bilhões de euros a um fundo para abater a dívida.Não se trata de exagero afirmar-se que o que ocorreu foi, de fato, um golpe de Estado empreendido pelo governo e bancos alemães, passando por cima do referendo popular onde os gregos haviam decidido não mais aceitar a continuidade das políticas neoliberais responsáveis pela destruição econômica e social do seu país.

O Syriza, que emergiu dos protestos na Praça Syntagma contra a austeridade, é uma coalizão entre diversas correntes políticas, coletivos e movimentos sociais, com exceção da velha esquerda, representada pelo partido KKE (Partido Comunista da Grécia), e da velha centro-esquerda do PASOSK (Movimento Socialista Pan-Helênico), que por décadas vinham impondo à população grega um sistema bipartidário representativo apenas da casta política corrupta, sistema esse que se repete em outros países, tais como na Espanha com o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e o conservador PP (Partido Popular), e que hoje se veem ameaçados pelo surpreendente crescimento do “Podemos”.O que se evidencia em mais esse episódio da tragédia grega, é que o objetivo daTroika era o de derrubar o governo Tsipras e desmoralizar o Syriza, para que nenhum outro país devedor ousasse se insubordinar contra as políticas neoliberais de austeridade. Em parte esse objetivo foi alcançado com a saída de 109 dos 201 membros do Comitê Central do Syriza, deixando o governo Tsipras numa situação de ainda maior vulnerabilidade.

Com a imposição desse acordo, novamente a Grécia se vê obrigada a trabalhar sob a égide de uma dívida impagável para que, quando a pobreza se alastrar ainda mais, a Troika volte a promover um corte parcial da dívida, como fez em 2012.Como assinalou Pablo Iglesias, presidente do partido espanhol “Podemos”, o que ocorreu na Grécia é “a verdade do poder”: uma correlação de forças extremamente desigual, onde os países do sul europeu quase não têm poder de negociação, mesmo que contando com amplo respaldo popular. O ex-ministro das Finanças,YanisVaroufakis, comparou o acordo assinado por Tsipras com o Tratado de Versalhes, que impôs exageradas reparações de guerra à Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial, salientando que, sem a reestruturação da dívida, tudo está condenado ao fracasso.

Algumas análises mais radicais acusam Tsipras de ter capitulado e traído o próprio Syriza. Não restam dúvidas, no entanto, de que a saída abrupta da Grécia da zona do euro poderia desencadear uma situação catastrófica, aprofundando a crise econômica em que o país está mergulhado e gerando mais desemprego, desabastecimento,falta de dinheiro para o pagamento de pensões e auxílios,etc. Se Tsipras errou ou não ao aceitar esse acordo, só o tempo poderá nos mostrar com precisão. Antes de ceder ao acordo proposto, porém, Tsipras buscou apoio da China, da Rússia e dos EUA, sem que nenhum desses países oferecesse garantia substantiva de ajuda na recuperação da economia grega.

O desfecho final desse confronto com a casta política liderada pela Alemanha na Europa ainda está em aberto. A punição exemplar imposta à Grécia colocou Tsipras numa situação quase trágica: era “pegar ou largar”. Nesse quadro de tamanha desproporcionalidade de correlação de forças, a afirmação de que houve traição ou capitulação é exageradamente forte. De qualquer forma, um dos saldos positivos dessa crise é que os mecanismos de dominação da Troika foram escancarados para o mundo inteiro, gerando redes de solidariedade internacional à Grécia, além de provocar fissuras no sistema, com o próprio FMI reconhecendo que a dívida grega é insustentável.

A ameaça de expulsão da Grécia da eurozona teve, acima de tudo, um caráter de punição exemplar, cujo objetivo central é barrar o avanço de movimentos como o 15-M, que deu origem ao “Podemos”,e que coloca em xeque a dominação da casta financeira com seus bipartidarismos.

O que está em questão, portanto, é o resgate do ideal de democracia que teve origem na Grécia Antiga e a construção de uma cidadania ativa numa Europa onde, até então, o horizonte político não passava de um deserto sem opções. Mas para que as mudanças pretendidas pelo Syriza possam ganhar viabilidade concreta, torna-se indispensável que essa alternativa institucional, ainda bastante frágil e embrionária, propague-se em outros países também submetidos à política de austeridade, especialmente os países do sul europeu (Espanha, Portugal, Irlanda e Itália) aonde a influência contagiante das lutas do Syriza vem crescendo.

Por: Sandra Mara Ortegosa é arquiteta e socióloga pela USP - Phd em Antropologia pela PUC-SP