02/07/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Que tipo de cidadão ambiental é você?

Qualquer pessoa que toma consciência da crise ambiental e resolve agir pode ser considerado um cidadão ambiental, seja criança, jovem, adulto ou idoso, empregado ou empregador, analfabeto ou doutor.

Vilmar Berna

Aumenta dia a dia o número de pessoas preocupadas com o meio ambiente, e muitas vão além da boa intenção e da simples reclamação e estão agindo, colocando a mão na massa em ações concretas, o que renova nossa esperança de que a espécie humana ainda terá chances de sobrevivência. O problema é que, apesar de mais e mais pessoas estarem conscientes e mais ativas, ainda permanecem enfraquecidas em sua capacidade de fazer pressão e defender os seus direitos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Um dos motivos desse enfraquecimento nasce da falsa idéia de que para defender a natureza temos de ter conhecimentos técnicos. A cidadania ambiental não requer capacitação, não é um atributo para iniciados. Claro que capacitação e conhecimentos técnicos ajudam e muito, por que a questão ambiental é de enorme complexidade, entretanto, as pessoas podem – e devem – estabelecer parcerias entre si para complementar suas limitações. Qualquer pessoa que toma consciência da crise ambiental e resolve agir pode ser considerado um cidadão ambiental, seja criança, jovem, adulto ou idoso, empregado ou empregador, analfabeto ou doutor. Nos Clubes de Amigos do Planeta, por exemplo, conheci crianças mais comprometidas e mais ativas que muitos adultos e professores, também conheci pessoas analfabetas ou sem qualificação técnica inteiramente comprometidas com a defesa do meio ambiente, assim como conheci pessoas altamente qualificadas, mas indiferentes à crise ambiental.

Outra falsa idéia que contribui para a desmobilização da sociedade é de que existem ações ambientais mais importantes que outras. As pessoas esquecem que não existe um único tipo de ação ambiental. Tem cidadãos e cidadãs que escolhem agir na defesa da fauna, da flora, defendem a criação de parques e reservas, combatem o desmatamento e o tráfico de animais silvestres, lutam pela defesa dos animais domésticos, etc. Outros preferem agir no ambiente de trabalho, associando cidadania ambiental com exercício profissional, adotando técnicas de ecoeficiência, controlando melhor os processos e resíduos, reciclando e reaproveitando materiais, etc. Outros, ainda, agem nos aspectos sociais da questão ambiental, defendendo os mais pobres e excluídos, os povos tradicionais, os indígenas, os operários que se contaminam no ambiente do trabalho, etc. Não são ações antagônicas. Muito pelo contrário, são complementares, pois a questão ambiental é de tamanha complexidade que nenhuma corrente de pensamento e ação, por mais poderosa que seja, conseguirá dar conta sozinha da enormidade da tarefa.

Não é verdade que a luta pela fauna e flora, ou pelos animais domésticos, seja menos importante que outras lutas ambientais. Graças à biodiversidade e aos ciclos da natureza recebemos oxigênio e descartamos gás carbônico, encontramos alimentos e remédios, temos acesso à água e a recursos naturais fundamentais para nossa sobrevivência.

Também não é verdade que seja desprovido de mérito a ação ambiental de empresas e profissionais em busca da sustentabilidade nos processos industriais, da gestão ambiental ecoeficiente, etc. Assim como dependemos da natureza também dependemos do setor produtivo que transforma recursos naturais em bens de consumo para atender a necessidade das pessoas. Infelizmente, sérias distorções no modelo econômico, motivado pela ganância, têm gerado concentração de renda e corrupção, que por sua vez resultam em miséria, pobreza, violência.

Tão importante quanto à preservação da natureza e a ecoeficiência nas empresas é ainda a luta de cidadãos e de organizações por justiça social e melhor distribuição de riquezas, especialmente naqueles segmentos da sociedade que dependem do meio ambiente preservado para sua subsistência, como os pescadores, agricultores, e também os indígenas, entre outros. Nossa espécie também faz parte da Natureza. A pobreza, a fome, a violência, extinguem seres humanos.

É preciso reconhecer que o fato de nos tornamos mais conscientes dos problemas ambientais não nos torna também mais democráticos, fraternos, justos. Existem pessoas devotadas sinceramente à causa ambiental, mas que permanecem arrogantes, autoritárias, tramam umas contra as outras, infelizmente. Os motivos podem ser vários, desde por culpa pelo tempo em que estiveram indiferentes antes de tomar consciência da questão ambiental, seja pelo sentimento de urgência, ou por interesse de aparelhamento partidário, ou por que pretendem obter visibilidade para si ou para sua organização, ou por inveja mesmo, etc. Apesar disso precisamos seguir em frente, pois a crise ambiental não pode esperar até que nos tornemos seres humanos melhores.

Por: Vilmar Berna é escritor, jornalista e ambientalista. Em 1999, recebeu no Japão, das maos do Imperador, o Premio Global 500 da ONU para o meio ambiente.