02/07/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Platão e os transgênicos

Para Platão, não seria possível construir uma verdadeira sociedade sem uma ética de princípios permanentes e universais; uma referência superior para as escolhas sociais e para a formação do caráter das pessoas.

* Dib Curi

Nossa sociedade vive um momento muito confuso e com pouquíssimas referências sobre os valores prioritários a desenvolver. As pessoas parecem muito nervosas, inseguras e interesseiras. Perdemos a capacidade de dialogar, incapazes que somos de encontrar consenso sobre qualquer assunto. Em meio a todo este relativismo e individualismo, campeiam absolutas as motivações do mercado e do coorporativismo político, aparentemente mais importantes do que as considerações da ciência, da ética ou dos humanismos.

Não sei se o leitor sabe, mas desde a antiguidade acontece um grande debate entre os interesses públicos e os interesses privados, que tornou-se a questão principal da civilização. Nossos antepassados mais ilustres neste debate foram Sócrates e Platão. Eles criticaram fortemente o ceticismo vigente e a primazia dos interesses individuais. Sócrates buscou um consenso que fosse baseado no justo e no verdadeiro. Platão distinguiu entre opinião (doxa) e conhecimento (episteme). Ele enxergou um caminho social sustentado em princípios permanentes e “impessoais”; os princípios anipotéticos.

Mas Platão foi além disto. Ele considerou o principal princípio anipotético a idéia do Bem. Esta idéia seria um modelo a ser seguido por todos aqueles que desejassem se identificar com a luz que brilha fora da caverna dos sentidos e dos interesses. Para Platão, deveríamos nos tornar uma imagem e semelhança do Bem, mas muitos de nós se tornavam apenas imagens sem semelhança nenhuma, cópias degeneradas chamadas simulacros, geradores do caos e do conflito. Para ele, um mundo de imagens sem semelhança com o Bem seria um mundo de ilusões.

Dois mil e quatrocentos anos depois o tema volta a cena com novas roupagens; entre elas, os transgênicos. Esta discussão se fortaleceu na década de 90. O Brasil tornou-se o segundo produtor de transgênicos, além de líder mundial no consumo de agrotóxicos. Os responsáveis pela produção destas substâncias alcançaram grande poder com a eleição de lobystas no Congresso Nacional, o centro da bancada ruralista.

Mesmo assim, desde 2003, a sociedade brasileira se defendeu com o decreto 4680, onde as empresas eram obrigadas a identificar com um símbolo T preto, sobre um triângulo amarelo os produtos com transgênicos. Nos EUA é amplamente reconhecida a importância da rotulagem obrigatória.

Mas no Brasil quem toma conta do galinheiro são as raposas. Depois de sucessivas pressões dos interesses privados multinacionais, no dia 28/5/2015, foi aprovado o Projeto de Lei 4148/08 do deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), que extingue a rotulagem obrigatória dos alimentos transgênicos. Foram 320 votos a favor e 135 contra. Para o consumidor, não será mais possível saber sobre a presença de transgênicos nos alimentos. Um absurdo que fere o princípio constitucional da liberdade de escolha baseada em informação suficiente.

Se Platão vivesse hoje com certeza estaria falando dos transgênicos. Para ele, os orgânicos seriam as cópias fieis da natureza como ela é. Já os transgênicos seriam os simulacros, as imagens sem semelhança, deturpadas pela ignorância dos interesses. Para Platão, não seria possível construir uma sociedade sem uma Ética de princípios universais e permanentes, que fossem referências superiores para as escolhas sociais e a formação do caráter das pessoas.

Vale o que é bom para alguns ou o que é bom para todos? Na Filosofia - sabedoria herdeira de Platão - existem duas teses sobre o Universo. Por um lado, o Universo seria totalmente escuro e a consciência seria a luz criadora das realidades. Atualmente, no mundo pós moderno, se crê muito nisto, ou seja, que o homem seja a medida de todas as coisas. Por outro lado, o Universo seria feito de luz e a consciência seria uma espécie de tela de cinema que só captaria aquilo que é capaz de ver, que lhe serve e interessa. Tudo mais ela não veria. Neste caso, a consciência selecionaria entre todas as possibilidades do real. Assim, a realidade seria muito superior e mais ampla do que a visão interesseira e mesquinha da humanidade. Neste caso ainda existiria esperança...

Por: * Dib Curi é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI