09/08/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

É possível alimentar a população sem venenos?

É possível alimentar a população brasileira sem o uso de venenos?

"O modelo agrícola baseado no uso de agrotóxicos e sementes transgênicas é, claramente, um caminho insustentável, que coloca em risco o futuro dos nossos solos, da nossa água e da nossa biodiversidade agrícola."

Sandra Mara Ortegosa

No dia 23 de maio aconteceu a Marcha Mundial Contra a Monsanto, mobilizando milhares de ativistas de diversos países num protesto contra essa empresa transnacional que é, hoje, a maior empresa de biotecnologia do planeta, concentrando 90% das sementes comercializadas mundialmente para a produção de alimentos à base dos organismos geneticamente modificados (OGMs) e consagrando-se como um dos maiores monopólios já vistos.

Fruto de um ramo de pesquisa relativamente novo (a engenharia genética), fabricantes de agroquímicos criam sementes resistentes a seus próprios agrotóxicos. O objetivo desse movimento é alertar a população sobre os problemas relacionados ao consumo de agrotóxicos e transgênicos, tais como, os prejuízos causados aos pequenos agricultores e os impactos negativos sobre o meio ambiente, à saúde e à biodiversidade de nossa flora e fauna.

A preocupação com a questão ambiental, uma das pautas políticas mais candentes nesse momento em que o planeta enfrenta dramáticos desequilíbrios e catástrofes decorrentes do aquecimento global e dos extremos climáticos, é algo praticamente ausente na maior parte das decisões do governo brasileiro. O modelo de desenvolvimento econômico adotado no governo Dilma, fortemente baseado no aumento do consumo de bens industrializados, como estratégia de crescimento do PIB, levou também a um aumento do consumo de água e de energia, fazendo com que os reservatórios que abastecem as principais metrópoles da região sudeste (SP, RJ e BH), entrassem em colapso e, consequentemente, forçou muitas indústrias a reduzirem suas atividades, agravando ainda mais a crise econômica em que o país está mergulhando.

Em plena crise hídrica e a despeito de todos os alertas que vêm sendo feitos por cientistas e ambientalistas do mundo inteiro, prossegue o crescente desmatamento da Amazônia para dar lugar aos mega empreendimentos como a Belo Monte, a pecuária, a mineração, a extração ilegal de madeira, as monoculturas de soja e milho transgênicos para alimentar o gado, etc. O desmatamento de nossas florestas, associado às más práticas agrícolas, tem provocado a degradação do solo e da água em níveis altamente preocupantes.

A introdução de transgênicos na natureza coloca nossa biodiversidade sob sérias ameaças, como o desaparecimento ou modificação do patrimônio genético de nossas plantas e sementes e o aumento dramático no uso de agrotóxicos. Isso porque, os transgênicos são produtos de cruzamentos que jamais aconteceriam na natureza, com o objetivo de se obter plantações que resistam à aplicação dos agrotóxicos, fazendo com que seu uso seja ainda mais intenso e pondo em risco a saúde dos agricultores e consumidores. O uso contínuo de sementes transgênicas leva ao surgimento de ervas daninhas e insetos mais resistentes, o que por sua vez obriga o agricultor a aumentar a dose de agrotóxicos a cada ano.

Pouco tempo depois da Organização Mundial de Saúde (OMS) publicar o resultado de um estudo que relaciona a crescente incidência de câncer ao uso do glifosato (um dos componentes do Roundup, o herbicida mais empregado na agricultura), e apenas dois dias após a realização da Marcha Mundial Contra a Monsanto, o jornal Folha de São Paulo publicou uma entrevista com o presidente dessa empresa no Brasil, onde esses fatos não são sequer mencionados e onde ele chama os ambientalistas de ignorantes, enaltecendo a “sustentabilidade dos agronegócios”, chegando a afirmar que a biotecnologia pode ser a solução para as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global, com o desenvolvimento de plantas resistentes à seca, às variações de temperatura e à germinação em condições não ideais. Vale lembrar que a Monsanto é uma das maiores responsáveis pelo aquecimento global.

Fundada em 1901, a Monsanto tornou-se a maior de todas as corporações nesse ramo de negócios, adquirindo diversas empresas no Leste Europeu e na América do Sul (Argentina, México e Brasil) e ameaçando a sobrevivência de pequenos agricultores no mundo inteiro, obrigados a adquirir suas sementes e submeter-se à vistoria de suas plantações pela empresa. Além disso, essas plantações têm que usar obrigatoriamente os herbicidas produzidos pela Monsanto, gerando uma relação de permanente dependência por parte dos pequenos agricultores.

Desde os anos 80, os EUA têm incentivado suas universidades públicas a produzirem pesquisas nas áreas de agricultura e de biotecnologia, em parceria com empresas privadas como a Monsanto, que investe pesadamente nessas instituições garantindo que seus produtos sejam protegidos por uma vasta produção de estudos de viés favoráveis aos seus interesses. Afora todos os malefícios já mencionados, a Monsanto tem também uma estreita relação com as forças militares. É notório o fato de que essa empresa forneceu o famoso “Agente Laranja” lançado nas plantações do Vietnã durante a guerra dos EUA contra esse país. No Brasil, o lobby político da empresa também é bastante forte: no final de abril do corrente ano a Câmara dos Deputados aprovou, por ampla maioria, um Projeto de Lei da bancada ruralista que desobriga a rotulagem de alimentos transgênicos. Na prática, isso significa que a maior parte dos produtos que hoje são rotulados, garantindo aos consumidores brasileiros o direito à informação e escolha, não precisam mais exibir essa informação no rótulo, ou seja, a população vai ser impedida de saber se o que está consumindo é um alimento transgênico (ou que contém componentes transgênicos), violando seu direito à informação e a opção por um alimento mais saudável.

Apesar de todos os estudos denunciando a relação entre o uso desses venenos em nossos alimentos e a crescente incidência de câncer, entre outras doenças, desde 2008 o Brasil ocupa o vergonhoso título de maior consumidor mundial de agrotóxicos: cada brasileiro ingere em média 7 litros desses venenos por ano. O motivo disso é que, enquanto dezenas de países já baniram as sementes transgênicas e a própria empresa Monsanto de seus territórios, o Brasil é um dos países onde é mais barato produzir agrotóxicos e transgênicos, graças aos incentivos governamentais ao agronegócio. O Butão - um pequeno país asiático que substituiu o PIB (Produto Interno Bruto) pelo FIB (Felicidade Interna Bruta), privilegiando a aferição do grau de felicidade de seus 750 mil habitantes -, num caminho inverso ao do Brasil, adotou como meta a partir de 2020 a proibição total do uso de pesticidas e agrotóxicos, e a permissão exclusiva da prática da agricultura baseada em métodos ecológicos.

O modelo agrícola baseado no uso de agrotóxicos e sementes transgênicas é, claramente, um caminho insustentável, que coloca em risco o futuro dos nossos solos, da nossa água e da nossa biodiversidade agrícola. Diante desta situação, desde 2011 mais de 100 entidades ambientalistas trabalham na “Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida”, com o objetivo de sensibilizar a população brasileira para os riscos que os agrotóxicos representam, defendendo a adoção de um modelo de produção baseado nas práticas agroecológicas e na restauração dos ecossistemas degradados.

O argumento de que a biotecnologia pode solucionar o problema da fome, proporcionando o aumento da produtividade de alimentos em pequenas áreas, é falacioso e também não se sustenta, tendo em vista a produção em larga escala de soja e milho transgênicos em monoculturas latifundiárias para alimentar o gado e não os seres humanos. A sociedade brasileira precisa, portanto, pressionar o poder público a realizar uma séria avaliação acerca dos custos e benefícios que envolvem o desenvolvimento de organismos geneticamente modificados, principalmente as consequências do uso destes insumos e seus efeitos sobre o meio ambiente e a saúde pública.

Por: Sandra Mara Ortegosa é arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP