07/05/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A reconquista da cidade como bem comum

“A urbanização tem cada vez mais constituído um sítio primário de infindável acumulação de capital que administra suas próprias formas de barbárie e violência sobre populações inteiras em nome do lucro. A urbanização se tornou o centro de atividades econômicas avassaladores em escala planetária nunca antes vistas na história da humanidade.” (David Harvey)

Sandra Mara Ortegosa

As manifestações de junho de 2013, deflagradas pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o reajuste das tarifas de ônibus e metrô, e que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho, parecem ter tirado a sociedade brasileira do estado de torpor em que se encontrava até então, levando multidões às ruas das cidades do país inteiro. Mais de um milhão de pessoas saíram às ruas no dia 20 de junho de 2013, no maior protesto da história do país depois do impeachment do ex-presidente Collor, trazendo à tona uma infinidade de pautas e agendas políticas que colocam em cheque o cenário de paz e prosperidade veiculado pela propaganda oficial do governo. Os enormes gastos públicos em obras para sediar os megaeventos da Copa e das Olimpíadas, beneficiando empreiteiras corruptas e provocando a expulsão de centenas de famílias, principalmente no Rio de Janeiro, contribuíram para agravar ainda mais o clima de indignação e descontentamento que tomou conta das ruas.

Uma das características em comum entre as Jornadas de Junho e os protestos que eclodiram no mesmo período em diversas partes do mundo (Primavera Árabe, Istambul, Occupy Wall Street, 15M na Espanha) é o fato dessas manifestações terem sido convocadas pelas redes sociais, sem a participação de partidos ou sindicatos, denotando uma profunda crise no sistema de representação política e um questionamento do modelo de desenvolvimento econômico que, no caso brasileiro, tem privilegiado consumismo, mediante o endividamento da população; a construção de grandes obras impactantes, como é o caso da Belo Monte; o agronegócio, em detrimento dos direitos dos povos indígenas; e a realização de megaeventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, deixando um rastro de elefantes brancos em nossas cidades.

A mesma tropa de choque da PM, que mata diariamente dezenas de jovens pretos e pobres e joga bombas de gás contra famílias de trabalhadores para defender os interesses do mercado imobiliário, entrou em cena na repressão dessas manifestações, tornando evidente a precariedade de nossa democracia, ainda fortemente impregnada de resquícios da ditadura. No Rio de Janeiro, a relação entre um projeto de cidade segregacionista e a militarização dos territórios populares, com a instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), é cada vez mais gritante.

As facilidades de crédito para aquisição de um automóvel fizeram com que o número de veículos particulares dobrasse em nossas cidades. Os congestionamentos do sistema viário em São Paulo, por onde circulam mais de cinco milhões de carros diariamente, chegam a ultrapassar 300 quilômetros de extensão e o tempo médio de deslocamento é, em média, superior a três horas. Com o avanço da crise econômica, é previsível que essa tragédia urbana se agrave, como reflexo da precarização das condições de trabalho, do aumento do desemprego e consequente aprofundamento das desigualdades sociais.

Em conseqüência do boom automobilístico e imobiliário impulsionado pelo governo federal, as metrópoles brasileiras encontram-se hoje mergulhadas num cenário de caos e de crescente deterioração da qualidade de vida urbana. A priorização do transporte individual materializou-se numa paisagem urbana degradante, repleta de vias expressas, viadutos, pontes e túneis, que seguem exclusivamente a lógica da expansão do mercado imobiliário. Sob essa lógica, espaços públicos, edifícios históricos, áreas verdes, bairros inteiros e relações afetivas são destruídos.

Sob a forma de parcerias público-privadas, grandes espaços públicos tornaram-se alvos de lucrativos empreendimentos imobiliários. Em Recife, o Movimento “Ocupe Estelita” luta há três anos contra um empreendimento que pretende construir 12 torres de 40 andares no cais José Estelita, desfigurando a paisagem histórica desse lugar estratégico e de significativo valor cultural e simbólico para a cidade.

Da mesma forma, em São Paulo, o Movimento Parque Augusta, resiste à tentativa de privatização dessa que é uma das últimas áreas verdes no centro da metrópole. A resistência popular contra essas investidas do mercado imobiliário tem se dado com a efetiva ocupação pública dessas áreas, através da realização permanente de eventos culturais, shows, feiras e rodas de conversa, que têm contribuído no crescimento da consciência cidadã sobre questões urbanas.

Movimentos como esses são exemplos do novo ativismo urbano que vem ganhando expressão no país e no mundo afora, oferecendo-nos uma oportunidade de revermos a lógica de produção do espaço urbano, revalorizando a cidade como um bem público e coletivo, locus privilegiado para uma governança urbana inclusiva, democrática e acima dos interesses privados. O que parece cada vez mais claro é que existe um grau de indignação latente, que entra em choque com o modelo de representação política arcaico, que não mais se coaduna com as possibilidades abertas pelo mundo conectado em rede, nem tampouco com essa concepção de cidade como mercadoria.

Por: Sandra Mara Ortegosa é arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP