31/03/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Os despachantes de luxo

O clientelismo só se faz possível a partir da desigualdade social e da lógica de distribuição de benefícios por troca de favores. Ele é a principal fonte de corrupção no País.

Cacau Rezende

A política brasileira que estamos presenciando e tem sido manchete nos jornais é a mesma utilizada pelos portugueses na época de sua colonização. A administração política brasileira se assemelha a do Reinado Português, onde feudatários privilegiados se utilizavam dos benefícios dados pelos governantes, da forma que desejassem, desde que, é claro, fossem fiéis aos interesses do rei.

Aqui no Brasil a prática política do troca-troca tem portanto raízes profundas e antigas, podemos atribuir seu início ao período da colonização.

O que está acontecendo? Uso do favor como moeda de troca nas relações políticas; uso de recursos públicos e dos aparelhos estatais para interesses privados, o impedimento do cidadão na participação do uso do dinheiro púbico e o mais comum, atendimento de demandas e benefícios das comunidades pela troca de votos para garantir a eleição de um determinado político e sua permanência no poder.

Isto é puro clientelismo minha gente!

O Brasil herdou de Portugal esta cultura de dominação das classes sociais.

Com o início da república surgiu uma forma de domínio muito conhecida entre nós, o coronelismo. Este fenômeno é resultado das profundas diferenças econômicas e sociais entre os latifundiários e os trabalhadores. Estas disparidades submeteram os trabalhadores, além da dependência econômica, à dependência intelectual e como resultado final à dependência política.

A população rural não tinha acesso aos serviços públicos básicos, como saúde, educação e infraestrutura, ficando totalmente dependente do poder representado pelo coronel, que utilizava seu voto como moeda de troca pelas demandas e benefícios sociais em poder dos políticos.

Com a migração em massa do homem do campo para as cidades o coronelismo foi perdendo sua capacidade de “troca” com o poder e acabou se extinguindo. Mas infelizmente, embora a figura do coronel tenha terminado, a realidade dos fatos nos mostra que a cultura da troca política permanece até os dias atuais. Isso deve-se ao abismo econômico-social presente até hoje, que concentra as riquezas nas mãos de uma minoria e impede às classes mais pobres os direitos sociais. Daí sua dependência política e a permanência da relação de favores.

O clientelismo só se faz possível a partir da desigualdade social, é a principal fonte de corrupção no País.

Muitos autores defendem a tese do clientelismo como um fenômeno congênito e inerente a formação das sociedades, independente da sua natureza econômica, ricas ou pobres, que pode ser entendido como uma forma natural de intermediação de interesses, ou como estratégia popular de obtenção de benefícios.

O problema é como se dá esta intermediação e quais são os proveitos daí decorrentes. No âmbito público transparente e democrático, podemos afirmar que se trata de interesses legitimados. Infelizmente não é assim que acontece, há quem se utiliza deste processo entre quatro paredes para alcançar benefício próprio em detrimento da coletividade e com prejuízo aos cofres públicos.

Não acredito que possamos acabar com o Clientelismo, mas podemos diminuir seu domínio se adotarmos medidas de combate às suas diversas formas de atuação.

Por exemplo, para os mais pobres, maioria da população, foi criada uma espécie de loteria, onde o cidadão é “sorteado” com algum benefício desde que garanta seu voto a um determinado político. Por outro lado, dentro do Estado existe uma forma de distribuição de benefícios para uma elite de empresários, como estamos vendo acontecer agora, em mãos de políticos articulados com os setores públicos, e funcionários do alto escalão, beneficiados com altos salários e vantagens extras para que facilitem a distribuição de favores.

Estes políticos funcionam como “despachantes de luxo”, de forma criminosa, quer seja no caso das grandes obras, desviando recursos, ou nas demandas populares, atendendo as reivindicações isoladas, sem prioridade, e até mesmo atendimentos individuais em forma de empregos, legalizações, internações hospitalares e etc., etc. e tal.

É necessária uma consciência da população que está sendo manipulada e aprisionada por este quadro político perverso que se enriquece e se perpetua no poder, e que, somente as reivindicações derivadas de um processo democrático e participativo podem resolver as questões da cidade e diminuir a desigualdade social existente no País.

Infelizmente uma minoria da população, mas de grande poder de influência, se associou a estes políticos, gozando dos benefícios que detêm e acaba alimentando e fortalecendo esta prática clientelista, prejudicando o desenvolvimento da cidade e da maioria da sua população.

Por: Cacau Rezende é engenheiro e artista plástico