18/10/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O transformismo do PT em sua fase agônica

A presidente Dilma com a ruralista Kátia Abreu

“Sua razão e sua paixão são o leme e a vela de sua alma navegante. Se um dos dois quebrar, você pode adernar e ficar á deriva ou ficar imóvel no meio do mar. Porque a razão, reinando sozinha, restringe todo impulso. E a paixão, deixada a si, é fogo que arde até sua própria destruição.” (Gibran Khalil Gibran)

Sandra Mara Ortegosa

Uma das principais evidências que emergiram do recente processo eleitoral que resultou na reeleição da presidente Dilma, numa apertada vitória sobre o adversário Aécio Neves, é que o ciclo do PT no poder parece ter entrado em fase agônica, colocando em questão a própria possibilidade de sua sobrevivência no espectro político-partidário. Por um lado, verifica-se uma crescente insatisfação de amplas parcelas do eleitorado em relação à polarização binária PT x PSDB e ao caráter plebiscitário das disputas eleitorais nas últimas duas décadas e, por outro, a indiscutível diminuição das diferenças que marcavam o perfil desses dois atores políticos.

O atual comportamento do PT vem sendo marcado por uma dubiedade quase esquizofrênica, ao tentar manter uma imagem de partido de esquerda ao mesmo tempo em que está atolado em práticas políticas da direita conservadora. O fato de Dilma Rousseff ter chorado ao receber o relatório final da Comissão da Verdade, enquanto no Rio de Janeiro, três ativistas de esquerda, que participaram ativamente das Jornadas de junho de 2013, tiveram suas prisões decretadas e outros vinte estão sendo processados por “formação de quadrilha armada”, é bastante ilustrativo desse enorme paradoxo em que o PT está mergulhado. Enquanto isso, o Exército continua ocupando o Complexo da Maré e o número de “desaparecidos” em áreas de UPPs não param de aumentar, com respaldo do Plano Nacional de Segurança Pública, que legitima perseguições políticas, criado com o pretexto de manter a ordem durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Os que votaram em Dilma no segundo turno, acreditando que ela faria um segundo mandato mais compromissado com o meio ambiente e com pautas políticas de esquerda, devem estão perplexos com os rumos que estão se desenhando, claramente identificados com o projeto econômico neoliberal fortemente combatido pelo PT em seus ataques às candidaturas de Eduardo Campos, Marina Silva e Aécio Neves, respectivamente. Com relação à questão ambiental, a política neodesenvolvimentista que embasa o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) segue servindo de pretexto para o sacrifício de nossas florestas e dos povos indígenas.

Como afirma Vladimir Safatle, em seu artigo Esquerda Zumbi, “Dilma conseguiu criar uma situação politicamente inusitada. A confirmar as previsões, seu ministério será um dos mais conservadores desde o fim do governo Collor. Caso seu governo ‘dê certo’, ela terá provado quanto seu partido é atualmente desnecessário, já que foi simplesmente alijado da política econômica, assim como das políticas industrial e agrícola, limitando-se a ser um gestor das relações políticas do Estado e do sistema estatal de cooptação da sociedade civil. A política a ser implementada é dificilmente distinguível do que seria um governo tucano ou marinista. Ao contrário, caso o governo ‘dê errado’, então Dilma terá mostrado como nem na base do transformismo brutal o consórcio governista consegue ainda ficar de pé. Esse é apenas um sintoma clássico de esgotamento de ciclo político. Em várias partes do mundo, vemos a mesma história envolvendo partidos que vieram da esquerda.”

A cidadania insurgente de Junho de 2013 foi sufocada e Dilma se reelegeu com uma campanha multimilionária e marqueteira, que impediu qualquer tentativa de um debate programático e propositivo para o país. A campanha eleitoral foi marcada por um mar de lama e de acusações entre os candidatos, que em nada contribuiu na elevação do nível de consciência dos eleitores.

Os que defenderam a tese do “voto crítico” em Dilma, sob o argumento de que ela representaria a opção “menos pior”, estão indignados com a composição direitista de seu ministério. Ao mesmo tempo, assistimos o nascimento de um movimento protofascista, que vem crescendo nas redes sociais e nas ruas do país, esboçando um retrato nada animador do terremoto político que está por vir em 2015, com uma avalanche de acusações contra o PT.

Para o Ministério da Fazenda, Dilma escolheu Joaquim Levy, o “Chicago Boy” discípulo do Armínio Fraga, ligado ao mercado financeiro e diretor da Bradesco Asset Management, conhecido por suas posições ortodoxas e pró-mercado, para alegria dos investidores capitalistas. Para o Ministério da Agricultura, Dilma escalou sua amiga Kátia Abreu (senadora pelo PMDB/TO, ex PSD e ex DEM), intitulada “Miss Desmatamento”, “Motoserra de Ouro” e “Queridinha dos Ruralistas”, conhecida por sua hostilidade aos povos indígenas e defesa dos interesses dos latifundiários. Para a vice-presidência do Banco do Brasil, Dilma resolveu colocar uma raposa para tomar conta das galinhas: nada mais que Anthony Garotinho! Cid Gomes, que declarou que “professor deve trabalhar por amor, não por dinheiro”, foi convidado por Dilma para ser seu Ministro da Educação, mas felizmente recusou.

Como esclarece Marcos Rolim, “muitos imaginam que perfis assim tenham a ver com a necessidade de ajustes na economia. Parece, mas não é. O que comanda as indicações é a urgência política de ampliar apoio entre os conservadores para amortecer os impactos dos escândalos de corrupção. O segundo governo Dilma tende a ser, por isso, mais dependente da ‘Casa Grande’ do que o primeiro e ainda menos vocacionado a reformas. A turma que comeu bolinha de cinamomo terá mais dificuldade em alertar o Brasil para os ‘riscos do comunismo’, mas essa será, possivelmente, a única vantagem. Refém do ‘andar de cima’, o PT é cada vez mais uma caricatura dele próprio. Nela, seus candidatos atacam os adversários como ‘demônios da direita’. Depois de eleitos, entretanto, convocam todos os ‘diabos’ e lhes entregam as chaves.”

Por: Sandra Mara Ortegosa é socióloga e articulista do Jornal Século XXI.