18/11/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Meio ambiente: o grande ausente nas eleições de 2014

"O enorme paradoxo: Em nome do crescimento econômico desmata-se a Amazônia para produzir energia elétrica e provoca-se a seca que faz diminuir a produção de energia elétrica e o abastecimento de água na região Sudeste."

Sandra Mara Ortegosa

Uma das características mais frustrantes da recente disputa eleitoral pela presidência do Brasil foi que o debate sobre propostas para o país reduziu-se a um embate medíocre, marcado pela troca de acusações e procedimentos antiéticos, que em nada contribuiu para esclarecer ou elevar o nível de consciência política dos eleitores. O fato de que mais de 37 milhões de pessoas optaram pelo voto nulo, branco ou nem foram votar, revela um forte descontentamento, sentimento de impotência e de fastio com a situação de engessamento da política brasileira na polarização bipartidária PT versus PSDB, que vem dominando monotonamente o cenário político-eleitoral nas duas últimas décadas. Temas cruciais para os brasileiros, especialmente os ligados à questão ambiental, foram tacitamente omitidos pelos dois candidatos finalistas, Dilma Rousseff e Aécio Neves, em meio a uma gravíssima crise de água que atinge o Estado de São Paulo, ameaçando colapsar a maior metrópole do país e carro-chefe da economia nacional.

O clima agressivo de embate entre os dois candidatos transbordou da tela dos programas de TV para as ruas e redes sociais, provocando fissuras familiares, abalando amizades e estendendo-se para além do segundo turno, com manifestações de grupos de extrema-direita pela separação entre as regiões Norte/Nordeste e Sul/Sudeste e até um ato público na Avenida Paulista pelo impeachment de Dilma, com faixas pedindo a volta dos militares ao poder, liderado pelo filho do deputado Bolsonaro e pelo cantor Lobão. Na visão da jornalista Eliane Brum, em seu artigo “O Longo Dia Seguinte”, uma das melhores análises sobre o que foram essas eleições presidenciais, estamos vivenciando uma ruptura entre o país que vivemos e o país inventado:

- “Chegamos ao dia seguinte sem que o futuro tenha sido de fato disputado. Se a eleição de 2014 foi a mais acirrada das últimas décadas, não só pelos candidatos, mas pelos eleitores, terminou sem debate. Não havia adversários nem nos estúdios de TV, onde os candidatos rolavam ora na lama, ora na retórica mais medíocre, nem nas redes sociais, elas que se tornaram as ruas realmente tomadas pela militância. Havia apenas inimigos a serem destruídos. As fraturas do país dizem respeito bem menos à pequena diferença entre a vencedora e o derrotado – e bem mais a uma fissura entre o país que vivemos e o país inventado. Não como uma fabulação, que é a matéria de qualquer vida. Não como uma utopia, que é onde se sonha chegar. Mas como um deslocamento perverso da realidade, uma cisão. Só essa desconexão pode explicar como a maior cidade do país transformava-se num cenário de distopia durante o primeiro e o segundo turnos eleitorais sem que em nenhum momento o meio ambiente e o modelo de desenvolvimento tenham entrado na pauta com a seriedade necessária. Chegamos ao dia seguinte como parte dos moradores de São Paulo: olhando para o céu à espera que uma chuva venha nos salvar. E é com essa verdade profunda que temos de lidar.”

Com o agravante da péssima gestão dos recursos hídricos de SP pelo governo Alckmin (PSDB), a seca provocada pelo desmatamento da Amazônia é a razão estrutural do problema. O governo Dilma foi um dos que mais retrocederam na questão ambiental, com uma série de medidas favoráveis ao agronegócio, empreiteiras, madeireiras, mineradoras, pecuaristas e latifundiários, tais como: a reforma do Código Florestal, a construção da mega usina hidrelétrica de Belo Monte, o avanço do comércio ilegal de madeira, a estagnação da reforma agrária e da demarcação das terras indígenas, etc. Não por acaso, em seu discurso logo após a apertada vitória nas urnas, Dilma mencionou vários segmentos sociais com os quais pretende dialogar, mas se omitiu em relação aos povos indígenas. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, os direitos de trabalhadores sem terra, dos povos indígenas e dos quilombolas não são respeitados porque o governo Dilma enxerga essas comunidades apenas como “entraves ao desenvolvimento” e privilegia os interesses do agronegócio, das mineradoras e de empreendedores de grandes obras de energia. Preservação ambiental e respeito aos direitos dos povos indígenas não combina com as metas do PAC (Plano de Aceleração Econômica) e com o modelo desenvolvimentista, cuja visão “ colonialista” de progresso passa indiferente por cima de tudo que temos de mais valioso e sagrado, como a riquíssima biodiversidade da Amazônia e a cultura dos povos originários do Brasil.

A gigantesca e impactante usina de Belo Monte, que vem sendo construída em pleno coração da Floresta Amazônica (apesar de toda a pressão social de ambientalistas, populações ribeirinhas e indígenas), tornou-se a menina dos olhos do governo Dilma e símbolo máximo de um enorme paradoxo: em nome do crescimento econômico desmata-se a Amazônia para produzir energia elétrica e provoca-se a seca que faz diminuir a produção de energia elétrica e o abastecimento de água na região Sudeste. A lógica é simples: quanto mais árvores, mais água infiltra no solo, abastecendo os aquíferos subterrâneos, maior a evapotranspiração e consequentemente mais chuvas. Sem florestas chove menos e secam-se as nascentes. Infelizmente, se o desmatamento continuar, poderemos chegar num ponto onde não mais será possível germinar novas plantas.

Como alertou o biogeoquímico Antônio Nobre, com base no relatório intitulado “O Futuro Climático da Amazônia”, realizado pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a região amazônica, com 20% da floresta desmatada e outros 20% degradados, já começa a falhar em seu papel da regulação do clima da América Latina. A seca que atinge o Sudeste, especialmente São Paulo, tem relação direta com o desmatamento da Amazônia, já que a redução da quantidade de árvores no local afeta os “rios aéreos” de vapor, responsáveis pelo transporte da água que cai com as chuvas nas regiões brasileiras mais distantes. O sistema Cantareira, que abastece mais de 20 milhões de pessoas, está à beira do colapso completo e, se não chover mais do que o previsto neste verão, São Paulo seca no primeiro semestre do próximo ano.

Para rompermos com esse quadro, parece cada vez mais evidente que o Brasil necessita urgentemente de uma nova e ampla articulação política, capaz de elaborar uma proposta de governo com viabilidade eleitoral, com base num modelo de desenvolvimento sustentável pautado em justiça social e respeito ao meio ambiente. Uma nova articulação ou movimento que rompa com a dicotomia PT/PSDB, que nos foi imposta neste segundo turno, e que tende a levar o Brasil a um impasse político, pela desqualificação do debate programático, pelo sectarismo de posições e pelo fechamento de horizontes.

Por: Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP.