08/09/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Cadê a MPB, cadê?

"Musica de verdade é a que alimenta a alma, faz a cabeça, comove o coração, vira símbolo de uma época, entra pelos poros e une as pessoas num mesmo uivo de alcatéia feliz."

Luhli

No tempo de Chiquinha Gonzaga, em que a mídia não existia, quando ela compunha uma polca, os editores iam vender as músicas impressas assobiando as melodias pelas ruas. Com a chegada do rádio, os autores começaram a ter a necessidade de ganhar algo com a execução de suas obras. Criaram-se as primeiras sociedades autorais e essa coisa toda de mídia começou.

As pessoas questionam onde foi parar a verdadeira musica popular brasileira, dizem que não há mais compositores como antigamente. Não sabem que há centenas de nós, fazendo boa musica e sem espaço na mídia, como menestréis cantando só para amigos, vendendo cds independentes no mão a mão. Se querem saber a verdade sobre o que acontece nos bastidores da MPB, leiam esse desabafo que um dos nossos maiores letristas, meu parceiro Alexandre Lemos, compartilhou no FaceBook. A verdade do que ele diz me fez escrever uma resposta, que reverberou peIa Internet afora em milhares de acessos. Dois sobreviventes da nossa musica mostrando a vocês os dois lados da moeda:

- “Tenho 140 canções minhas gravadas por mais de 40 intérpretes, entre eles super stars como Ney Matogrosso. Há quem me conheça, há quem me admire. Mas eu, sinceramente, não vejo mais graça nessa brincadeira. Tentei ser artista e profissional ao mesmo tempo. Assinei contratos com editoras, fiz canções como quem faz jingles. Só quem já passou por isso sabe o quanto é difícil fazer canções que precisam ser originais e não ter nada de novo ao mesmo tempo, que sejam únicas e iguaizinhas às que estão tocando nas rádios. Isso banaliza a música a tal ponto que dá vontade de largar o violão e abrir uma franquia de pão de queijo. Quer que sua música toque no rádio ou numa novela? É simples: pague o jabá. Bate uma alegria quando uma música da gente começa a fazer sucesso, mas logo tudo perde a graça , por sabermos que nossa música estar tocando na rádio significa apenas que se conseguiu que o diabo se interessasse por nossa alma. Houve um momento em que pareceu que os artistas ditos independentes seriam a salvação. Mas, em sua maioria, eles acham que só eles merecem ganhar alguma coisa com seu trabalho. Não pagam direitos autorais pela venda de seus CDs e, via de regra, não encaminham pro ECAD a lista do que vão cantar nos shows. Como o ECAD não é bom de adivinhação, o autor fica a ver navios.

Mais do que direitos autorais, faltam mesmo são os direitos de ser autor. O direito de ser artista sem que isso signifique ser marginal ou marginalizado. O direito da sociedade em ouvir o que ela mesmo faz e cria, sem passar pelos filtros dos executivos das majors e das rádios e das tevês, uma gente que não entende nada de arte, não tem bom gosto e nem escrúpulos.

Tô cansado, sem nenhuma vontade de seguir nesse trem de doido. Pensei em me aposentar, mas me disseram que artistas não se aposentam, pela própria natureza do que fazem. Que esse texto, então, me sirva de obituário simbólico e que, pra ficar ainda mais musical, receberá o título de Aqui, Jazz. O que não passa de um típico trocadilho de músico. “

Aqui vai minha resposta:

Conheço muito bem toda essa história que meu parceiro Alexandre Lemos conta. A mídia, que nasceu para divulgar a arte, se tornou um fim em si mesma, e a arte sobrou, ficou fora da engrenagem do show bizzz, da fabricação em massa de musicas-chiclete, mastigadas, logo cuspidas e ávidamente substituidas por outros chicletes musicais. Isso não tem nada a ver com musica popular brasileira. Musica de verdade é a que alimenta a alma, faz a cabeça, comove o coração, vira símbolo de uma época, entra pelos poros, une as pessoas num mesmo uivo de alcatéia feliz. E, com o tempo, fica cada vez melhor. Existe, por esse Brasil afora, uma riqueza enorme de manifestações musicais populares, festas e folguedos com infinita variedade de ritmos, tanto mais ricas quanto mais pobre é o povo. Com todo o massacre da televisão estão lá resistindo, vivos e pulsantes, os reizados, os bois, carimbós, xotes e cirandas. Mesmo nas cidades o samba prolifera, imbatível, nos churrascos nas lajes e nas rodas de fundos de quintais. Não se trata portanto de uma escolha do público, mas de uma jogada despótica de um capitalismo enlouquecido ao ver fugir do seu domínio os lucros extorquidos dos artistas pelo advento da Internet, que abre portas para um outro futuro. Sem se conseguir ganhar a grana que não rola por consequencia disso tudo, a vida fica muito difícil. Então é salve-se quem puder, nessa hora nada é contra entrar num negócio de pão de queijo.....ou qualquer forma de sobrevivência digna,desde que não corrompa nosso prazer de ser musica. Isso é que a gente não pode deixar acontecer. O importante agora é resistir, confiando num renascimento que venha a por fim nessa Idade Mídia, defendendo ferozmente a relação de amor com a nossa arte. O ato criativo traz no seu bojo a essência do sagrado. A alegria da chegada de uma musica nova é um sopro de renovação e esperança. O importante é não perder o acesso a nós mesmos que só o prazer criativo traz. Envelhecer não tem de ser esmorecer. O grande desafio, caro parceiro, é ser fiel a si mesmo, ao seu genuíno prazer e não à sua amargura.

Por seu talento, por nosso alento, para ser maior que o momento, vamos lá, vamos juntos, celebrar o fato de sermos sobreviventes compondo mais uma?...

Por: Luhli é multi artista, compositora de sucessos, cantora, instrumentista e arranjadora. É artista gráfica e tem livros publicados. www.luhli.mpbnet.com.br