01/10/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O “Bóson de Higgs” e os caminhos que se bifurcam

"O ímpeto acelerado do indivíduo egoísta impede a continuação da espécie em nome de viver o desejo do momento."

Dib Curi

O ser humano e a sociedade estão se tornando bastante previsíveis e muitas vezes chatos. Assuntos, rotinas e condutas se repetem diariamente sem nos darmos conta do labirinto onde nos metemos. Parece que acordamos sempre no mesmo dia que nunca passa. Felizmente, há algumas práticas que nos levam à possibilidades que se bifurcam na passagem de nossa espécie pela Terra. Começo este texto com uma afirmação bombástica do físico inglês Stephen Hawking em entrevista veiculada em revistas da Europa e pela Info-Exame:

- “O bóson de Higgs tem potencial para destruir o Universo.”

O “bóson de Higgs” é uma partícula sub-atômica. Há um século atrás achávamos que o átomo era composto por apenas três partículas: prótons, elétrons e nêutrons. Todavia, já descobrimos muitas outras partículas, entre elas, o “bóson de Higgs”. O cientistas o chamam de “partícula de Deus”, tal é a sua importância e singularidade.

Para comprovar sua existência foi construído, na Suíça, um enorme laboratório chamado LHC. O Grande Colisor de Hádrons, como é conhecido, custou 7 bilhões de euros e é o maior acelerador de partículas do mundo. Seu objetivo é obter dados sobre colisões de partículas subatômicas. A máquina gigantesca está 175 metros abaixo do nível do solo e tem 27 km de circunferência. O fato é que há um grande perigo nestas pesquisas.

Segundo Hawking, o “bóson de Higgs” é uma partícula extremamente instável, principalmente, na presença de grandes quantidades de energia. Esta instabilidade, se provocada, poderia causar uma decadência catastrófica do vácuo e um colapso no espaço/tempo. Antes de continuar, gostaria de contar outra história parecida com esta, ou seja, sobre a nosso desejo de explorar o pano de fundo da realidade. Esta história é o mito do deus grego Dionísio, regente dos ciclos vitais, das festas, do vinho, dos prazeres e da insanidade. Suas seguidoras embriagadas e enlouquecidas eram chamadas de bacantes e ele é considerado o deus protetor do teatro. À partir daqui, quaisquer semelhanças entre a realidade e a ficção não devem ser consideradas apenas meras coincidências...

O que há de parecido entre o mito de Dionísio e o “Grande Colisor de Hádrons”? O fato é que a mãe de Dionísio, chamada Sêmele, teria pedido ao deus da época, chamado Zeus, para vê-lo em toda a sua plenitude. Todavia, ela não suportou o impacto da visão da divindade e morreu fulminada, grávida de Dionísio, filho de Zeus, que salvou a criança.

Assim como no mito, quais seriam as consequências de fazermos contato com as estruturas “inconscientes” e cristalinas que sustentam o mundo visível, através da quebra do espaço/tempo? Atentem para o fato de que Dionísio foi, justamente, o filho que mergulhou no caos sem forma dos estímulos, livre dos ditames do dever, da lei e da moral; que fluiu livremente das expressões do desejo e intensidades sem limites, experimentando a loucura divina da celebração e do caos criativo. Na história, houveram alguns artistas que experimentaram isto, tanto para a sua glória quanto para a sua ruína. É o caso do pintor Van Gogh, do filósofo Nietzsche, do bailarino Nijinski e do escritor Antonin Artaud, que tinham um talento nato, um canal de expressão criativa para a sua loucura. Mas e nós, simples mortais, para os quais só importam o poder, o prazer sensorial e o utilitarismo egoísta? O que poderia acontecer conosco?

Não sabemos até que ponto estão as pesquisas sobre o “boson de Higgs”, mas este exemplo serve muito bem para compreendermos o poder do caos que se avizinha, por outras razões. Basta vermos as características enlouquecidas das práticas civilizatórias atuais. Para nós, filhos do Bóson, a loucura não conseguiu construir canais apropriados e se traduz em violência, pânico, síndromes, vício, anomia, fetichismo, glutonice hedonista e devastação do espaço vital. O ímpeto acelerado do egoísmo fulmina a espécie em nome de viver o desejo do momento.

O filósofo Zygmunt Bauman criou a tese da “modernidade líquida” para justificar a paranóia da violência e a instabilidade dos relacionamentos amorosos. Balman diz que a nossa concepção de progresso significa que podemos ser chutados para fora de um carro em aceleração a qualquer momento. Diz também que “a temperatura elevada da vida acaba alimentando o impulso de transgredir, de substituir e de acelerar a circulação de mercadorias e de capital, o que não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis.”

Fato é que o ser humano parece estar quebrando as bases que tornaram possível a civilização por um mergulho no caos do desejo contraditório. Talvez isto não tenha nada a ver com o Colisor de Hádrons, mas existem razões mais profundas. Se o LHC puder mesmo potencializar a anomia dos comportamentos, pela quebra dos padrões espaço-temporais adequados à nossa psicologia primária, nosso conflito vai tomar características ainda mais esquizofrênicas, como uma peça de teatro inconsciente, onde as necessidades nos impõe personagens e papéis envernizados, mas os desejos nos sugerem outros mais intensos, fortalecendo a tensão entre uma razão estável e lúcida e uma emoção caótica e fantasiosa.

Há muitos outros aspectos filosóficos e psicológicos nesta discussão, mas vamos focar no principal deles: a nossa continuação como espécie. Os recursos planetários não sustentarão este “crescimento econômico infinito”, baseado na livre expansão dos desejos e consumo. Já sabemos que esses recursos se aproximam do esgotamento. Ora, se queremos mesmo enlouquecer de vez, então que tal nos tornarmos artistas criativos ou pessoas amorosas, apesar de tudo, e não simplesmente individualistas idiotas e consumistas alienados? E que a nossa obra de arte seja a nossa própria Vida.

Por: Dib Curi é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI