08/08/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Por que a nossa democracia está dando errado?

"No fundo, o que o capitalismo faz é acoplar a vontade livre das pessoas ao desejo escravo dos indivíduos."

Dib Curi

A humanidade já passou por uma grande quantidade de períodos históricos e inúmeros aprendizados. Creio que já temos suficiente bagagem para avaliar os caminhos mais acertados para o desenvolvimento humano.

Um de nossos principais aprendizados é a compreensão de que muitos sistemas econômicos e políticos significaram, no passado, uma evolução para a humanidade. Contudo, com o passar dos séculos, os mesmos sistemas que nos libertaram parecem estar nos oprimindo na atualidade.

Um modelo de vida que se tornou deveras opressor é o capitalismo. Este sistema determina deliberadamente o formato e a intencionalidade das consciências porque faz com que elas se construam baseadas em modelos vindos de fora. Neste sistema, nossas consciências são moldadas para se tornarem aquisitivas de bens e reprodutoras de padrões. Assim, colocamos nossa atenção muito mais nos meios do que nos fins do viver. O capitalismo acaba por abafar perigosamente o potencial de reinvenção da consciência humana, submergindo-a num mar de desejos, clichês comportamentais e modistas. No fundo, o que o capitalismo faz conosco é acoplar a vontade livre das pessoas ao desejo escravo dos indivíduos.

Um outro problema que acontece com todos os sistemas de gestão sociais inventados até hoje é o avanço intermitente da burocracia em todos eles. A burocracia acontece necessariamente em sistemas que se baseiam no excessivo empoderamento de alguns atores sociais em detrimento de outros. A grande questão é que todo tipo de empoderamento tende a engessar as estruturas sociais, pois os atores empoderados não se interessam por mudanças efetivas, principalmente, se estas lhe retirarem os privilégios. Costuma funcionar assim com os grandes capitalistas e suas coorporações e também com os políticos, que acabam por se constituir como classe. O fato é que o ser humano costuma se estancar num tipo de consciência ou comportamento justamente pelo apego ao poder e aos privilégios que adquire. Creio que será muito difícil mudar isto, ainda mais que a burocracia tornou-se tecnológica e o capitalismo a usa em seu favor para manipular as consciências, confundindo nelas a própria natureza do desejo, entendido como falta de algo: Desejo de prazer, de segurança ou de morte, como vemos através da excessiva e irracional exploração da natureza.

Antes de compreendermos melhor os efeitos negativos do processo de empoderamento e da natureza do desejo é preciso compreender o caminho que o nosso principal sistema político tomou.

Só houve um momento na História onde um processo democrático institucionalizado realmente funcionou à contento, diluindo e dissolvendo o empoderamento por toda a comunidade. Isto aconteceu na Grécia anterior à era clássica, onde, em muitos momentos, os cidadãos se reuniram nas praças para deliberar sobre os assuntos públicos. Embora somente 30% das pessoas que morassem na Grécia fossem cidadãs e tivessem direito ao voto, o sistema funcionava exemplarmente. Os votos eram sempre conferidos às teses e direcionamentos políticos ou administrativos que fossem os mais convenientes e efetivos para o fortalecimento dos poderes da coletividade e no desenvolvimento das vocações específicas daquele povo.

Mas foi justamente neste momento que ocorreu o golpe de morte nesta nascente democracia arcaica e o nascimento da democracia clássica, que viria a ser o modelo indireto, tanto da república romana quanto da república presidencialista e parlamentarista atual. O que ocorreu foi o seguinte: com as tentativas de invasão dos Persas sobre a Grécia, foi necessário aumentar o efetivo do exército grego para fazer frente às invasões. A solução para o aumento de contingente das tropas gregas foi prometer aos escravos e aos comerciantes o poder de voto nas praças em troca de seu total engajamento na guerra.

Dito e feito. Ao final da guerra em 468 a.C, com a vitória dos gregos sobre os persas, tanto os comerciantes como os escravos começariam a votar nas assembléias. O que ocorreria à seguir é sabido à partir de nossa própria experiência. Os resultados das votações não expressariam mais a prudência, a estratégia e o interesse comum das cidades-estado gregas porque os comerciantes ricos faziam valer suas teses individuais e mercantis, conquistando o voto da maioria dos escravos com atenções e favores. Iniciava-se assim o clientelismo e a decadência da política democrática.

Um dos maiores anti-democratas da História foi o filósofo Platão. Em seu principal livro traduzido erroneamente por “A República”, Platão atacou com “unhas e dentes” o que tinha se transformado a democracia de seu tempo. Sua crítica principal era não ser possível uma democracia verdadeira sem um processo de educação e aperfeiçoamento pessoal por parte de cada cidadão. Sem o desenvolvimento das melhores virtudes pessoais nenhum sistema político se tornaria verdadeiramente bom e justo. Platão acreditava também que nem todas as pessoas tinham o perfil para deter o poder político. Para Platão, os governantes da cidade deveriam ser também os seus mais sábios cidadãos.

Pulando dois mil e quinhentos anos na História, estamos atualmente carregando nas costas um peso enorme. Este peso é o da burocracia pseudo democrática, baseada na primazia dos interesses pessoais e coorporativos, na força do dinheiro e, principalmente, na completa ausência de um projeto educacional que abra os horizontes das consciências e desperte os verdadeiros potenciais cidadãos e comunitários, minimizando a escravidão do egoísmo, da vaidade e da ambição desmedida, atualmente estimulada pelo monstro publicitário e marqueteiro à serviço da economia de mercado e do capital.

Por: Dib Curi é professor de Filosofia, ambientalista e editor do Jornal Século XXI