15/07/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Conflito na Faixa de Gaza: espetáculo macabro de genocídio e infanticídio

“Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinianos mortos, um israelita. Gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a achar que uma vida israelita vale tanto como cem vidas palestinianas. E esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atómicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irão foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.” (Eduardo Galeano).

Sandra Mara Ortegosa

Neste mês de julho, enquanto os torcedores brasileiros ainda estavam mergulhados no clima de indignação e revolta pela exclusão do Brasil da Copa após a acachapante derrota por 7 x 1 para a Alemanha, as cenas do massacre na Faixa de Gaza chocavam o mundo. Esse estreito território, onde um milhão e setecentos mil palestinos vivem apinhados e cada vez mais encurralados, transformou-se numa verdadeira ratoeira sem saídas, uma prisão a céu aberto, bombardeada diariamente e de forma indiscriminada por terra e pelo ar, tendo como alvos escolas, casas, hospitais, igrejas, estabelecimentos comerciais e outros locais freqüentados por civis, cercados e impedidos de fuga.

Desde que Israel deu início à ofensiva terrestre, o número de vítimas civis, especialmente crianças, mulheres e idosos, vem crescendo de forma assustadora, sob a justificativa de “danos colaterais”. No hospital Al Shifa, onde a ONG Médicos Sem Fronteiras atua, a maior parte das emergências que chegam é de mulheres e crianças. Só dia 20 de julho, mais de 50 palestinos foram mortos em mais um dos bombardeios do exército israelense, sob as ordens do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, representante da extrema-direita de Israel. O trágico espetáculo de mísseis, responsável por um verdadeiro banho de sangue e barbárie, deixando vários corpos espalhados pelas ruas e milhares de civis correndo desesperados para um hospital lotado de feridos, vem sendo assistido de camarote por alguns grupos de israelenses, do alto da colina da cidade de Sderot no sul de Israel, com direito a cerveja, pipocas, cadeiras de plástico e até sofá, como um macabro cinema ao ar livre. Refletindo a banalização da guerra e da violência em curso no mundo contemporâneo, cada vez que os mísseis atingiam um alvo, essas pessoas vibram e comemoram com aplausos!

A enorme disparidade na correlação de forças bélicas faz com que o nome mais apropriado para o conflito em Gaza seja “agressão armada” contra a resistência de um povo que luta, de forma débil e desesperada, pelo direito de permanecer em seu território.

Enganam-se os que acreditam que o objetivo político de Israel seja derrotar o grupo antissemita Hamas. O que está por trás desse conflito é, de fato, a intenção de enfraquecer o presidente palestino Mahmud Abbas que, desde o seqüestro e assassinato de três jovens colonos israelenses na Cisjordânia, vem sendo acusado por essa operação e pressionado a romper a aliança com o Hamas, com quem Abbas acaba de construir um governo de unidade nacional com amplo apoio popular.

Apesar da ausência de provas, Israel decidiu declarar guerra à Palestina com a justificativa de exterminar o grupo terrorista, mas na verdade isso não passa de um pretexto para prosseguir a colonização do território palestino, mesmo que isso signifique a morte ou mutilação de centenas de vítimas inocentes.

A partir desse episódio, um adolescente palestino foi queimado vivo, um jovem americano foi espancado de forma brutal pela polícia israelense e 140 crianças palestinas (mais de um terço do total de vítimas inocentes dessa guerra insana do mundo adulo) foram mortas e centenas delas foram mutiladas para o resto da vida.

Não se trata de justificar o ataque de extremistas palestinos contra civis israelenses, mas de reconhecimento da enorme desproporção bélica entre os dois lados, aonde os palestinos vêm resistindo há décadas contra a grotesca repressão do Estado de Israel, que insiste em descumprir o acordo internacional em relação ao território palestino, legalmente reconhecido pela ONU. Atualmente, o Estado de Israel não apenas ocupa e coloniza o que ainda restou do território palestino na Faixa de Gaza, como controla a água e o comércio, atacando e bombardeando a região, numa clara manifestação de crime de guerra.

O marco inicial desse conflito no Oriente Médio, que já vem se arrastando há mais de meio século, foi a ocupação ilegal da Cisjordânia e da Faixa de Gaza pelos israelenses, com apoio dos Estados Unidos e da União Europeia, de olho no petróleo do Oriente Médio. Desde o final dos anos 1980, com a ascensão do Hamas, que é contrário à existência de Israel, o conflito vem se acirrando de forma exponencial. Antes do último ataque terrestre, denominado pelo exército israelense de “Operação Borda Protetora”, Israel interrompeu o fornecimento de eletricidade, água e combustível na Faixa de Gaza. A escalada da violência, que já está sendo vista mundialmente como uma guerra contra as crianças, vem sendo acompanhada por uma linha de pensamento pautada na estratégia torpe de culpabilização da vítima, onde o povo palestino, como um todo, passa a ser visto como responsáveis pelos foguetes lançados pelo Hamas, numa tentativa de justificar moralmente o massacre de civis, chegando-se ao cúmulo de se afirmar que o que está em curso é uma lógica perversa de suicídio em massa do povo palestino, com o intuito de fortalecer o grupo Hamas.

Numa bizarra reedição do pensamento nazista usado por Hitler para exterminar os judeus, a deputada israelense ultranacionalista, Ayelet Shaked, chegou a afirmar que as mães dos palestinos deveriam morrer por darem a luz a “pequenas serpentes”! Quando uma representante parlamentar chega ao ponto de, em “sã consciência”, fazer uma declaração tão ultrajante, é um sinal de alerta máximo sobre o grau de insanidade em que se encontra a humanidade em pleno século XXI.

Por: Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP.