26/07/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Copa sem culpa

Para nós, brasileiros, termina uma fase de um tipo de identificação entre o caráter nacional e o tipo de futebol jogado por aqui. A derrota acachapante dentro do campo e a inesperada vitória na organização e no funcionamento da Copa podem nos indicar algum caminho no processo de renovação da identidade nacional.

Felipe Tourinho

De vez em quando o Brasil liga o modo “me engana que eu gosto”. E quando a realidade acaba com a fantasia, o País deprime.

Proponho, então, um olhar para a Copa sem culpa. O que podemos aprender sobre o caráter nacional com a Copa do Brasil?

A ideia de copa nos remete a uma taça, como o mítico Graal do rei Arthur. A taça reúne os diferentes criando uma identidade acima das diferenças. No caso da Copa, é o futebol que nos oferece a possibilidade da identificação dos diferentes com uma causa comum.

Se a Copa, em termos de qualidade do futebol e organização foi um sucesso, o mundo vai mal, pois, atualmente, vários conflitos entre nações geram um número de refugiados sem precedentes.

Apesar de todos os nossos problemas, somos um dos mais bem sucedidos casos de sociedade multiétnica, um verdadeiro caldeirão de fusão racial. Parece pouco para este país de caboclos, cafuzos e mulatos, mas, se olharmos para o que acontece hoje em partes do mundo como o Oriente Médio, a Ucrânia e a Nigéria, veremos situações de intolerância extrema causadas por diferenças étnicas, linguísticas e religiosas.

A cultura evoluiu na espécie humana de forma muito súbita, enquanto que a biologia de nossa espécie se arrasta no ritmo das centenas de milhares de anos da seleção natural e da evolução da espécie. Esta seria a causa da xenofobia, pois o cultural assume uma importância desmesuradamente grande em comparação com o biológico, que é o que une realmente toda a espécie humana.

É aí que entra o futebol, que coloca a todos nós diante da dificuldade de conduzir a bola com os pés, quando seria muito mais fácil carregá-la com as mãos. Por isso o essencial do futebol é o erro e dois ou três acertos decidem a partida.

Como dizemos que todos os humanos são falhos, pronto, estamos todos identificados como espécie humana, apesar de todas as nossas diferenças culturais.

Logo depois da Copa vem a reunião dos BRICS a lembrar que uma nova ordem mundial está a caminho para substituir a velha ordem criada com o fim da Primeira Guerra Mundial, que completa 100 anos de seu início em 2014.

Para nós, brasileiros, termina uma fase em que um tipo de identificação entre o caráter nacional e o tipo de futebol jogado por aqui. A derrota acachapante dentro do campo e a inesperada vitória na organização e no funcionamento da Copa podem nos indicar algum caminho no processo de renovação da identidade nacional.

Gilberto Freire percebeu o conjunto de características que compuseram o mito que criamos para nós mesmos e que, para ele, perpassa toda a nossa identidade nacional.

“O mesmo estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de brilho e de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política. Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, o alguma coisa de dança e capoeiragem que marcam o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e às vezes adoça o jogo inventado pelos ingleses e por eles e por outros europeus jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo para os psicólogos e os sociólogos o mulatismo flamboyant e, ao mesmo tempo, malandro que está hoje em tudo que é afirmação verdadeira do Brasil”. (Citação retirada do texto Brasil: futebol e identidade nacional. WWW.efdeportes.com/efd/56/futebol.htm).

Na Suécia (1958) e no Chile (1962), Pelé e Garrincha foram o ápice do mulatismo. Na época do mulatismo, ter uma camada cultural a menos representava uma vantagem em termos de espontaneidade, de improviso, de astúcia, como acontecia no jazz e na Bossa Nova.

Mas o tempo passou, o mundo e o futebol “evoluíram” e nós ficamos parados ali. Veio a era dos militares, quando o capitão Claudio Coutinho deu mais atenção aos aspectos físicos e táticos do esporte. Seguiu-se então uma fase composta por dois tipos de jogadores: o volante, fruto da era Dunga, e o atacante-matador-individualista, cujo protótipo foi Ronaldinho “o Fenômeno”. Nosso fiasco na copa se deveu à falência desse modelo, ainda mais que os volantes não marcaram e ficamos sem o nosso último atacante-matador-individualista, o Neymar.

Como nos enganamos presos ao mito que criamos para nós mesmos, não fomos capazes de perceber que o tic-tac espanhol que encantou o mundo não soube se renovar e que os alemães aperfeiçoariam esse sistema com uma reunião de futebol coletivo, excelência técnica e preparo físico rigoroso.

Se, na época de Pelé e Garrincha, ter uma camada cultural a menos fez muito bem para o futebol brasileiro (como também para a música brasileira), hoje, a camada cultural a mais que têm os europeus favorece um futebol mais na base da inteligência e da organização do que no jeitinho e na ginga.

Vamos lembrar esta Copa sem culpa. Ela pode ser a oportunidade para um reexame das ideias que temos de nós mesmos. E a Copa já nos ofereceu um rumo: parece que somos bons mesmo é na hospitalidade.

Por: Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista