26/07/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O fim do ser humano

A política, por exemplo, tornou-se uma passarela privilegiada onde desfila a farsa completa que muitos de nós se tornaram...

Dib Curi

Um dos grandes problemas da mentalidade atual é que consideramos o passado como inferior à nós ou até mesmo como um tempo primitivo. Gostamos muito do passado, mas somente como uma espécie de bibelô que guardamos em museus ou em livros, algo de valor sentimental sem dúvida, mas raramente a sabedoria viva de nossos antepassados. Muitas opções de vida boa foram feitas no passado, assim como escolhas deveras ruins são feitas hoje em dia. É preciso muito cuidado para pensarmos sobre o real sentido do progresso.

Progresso para a nossa sociedade significa tecnologia. Foi ela que nos garantiu a maioria das conquistas que tivemos à partir do século XVIII, quando um movimento chamado iluminismo considerou a Razão como a fonte única do progresso.

O iluminismo pregava o agir pela razão. Para Immanuel Kant, morto em 1804, um dos principais filósofos iluministas, a verdadeira liberdade seria submeter nossa vontade à razão. A vida não deveria ser regulada pelos nossos afetos, mas sim pelos nossos deveres. Esta regra de conduta ou moral, que Kant chamou de “Imperativo Categórico”, acabou reforçando demais o conflito entre os desejos do corpo e os ideais da razão. Fortaleceu também em nós a culpa, em virtude de ser muito difícil para o ser humano a submissão total de seus afetos. Talvez, tenha sido a moral iluminista a principal responsável pelo desvario atual dos nossos afetos, emoções ou ambições.

A este respeito é muito interessante lembrar o apóstolo Paulo em uma de suas citações mais intrigantes:

- “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero”.

Talvez o ser humano seja assim mesmo, independente do iluminismo. Talvez sejamos como qualquer organismo vivo; interesseiros, egoístas e utilitaristas. Todavia, pensar assim pode significar a nossa ruína. Basta ver o mundo como se encaminha. Talvez exista uma chance de sermos melhores do que somos. Parece certo que os ditames morais não tem nos auxiliado neste objetivo, pelo contrário, nos tornaram inexpressivos, envernizados e hipócritas, copiadores uns dos outros ou de modelos ideais quaisquer. Mas porque não conseguimos fazer o que é certo? O que é o certo a fazer?

Observem o péssimo estado da civilização baseada na moral. Freud escreveu um livro chamado “O mal estar na civilização”, onde responsabiliza a moral pelo atual estado de coisas. Já o filósofo Espinosa nos diz que temos que realizar a nossa própria natureza, pois só assim seremos felizes.

De onde então viria a moral? Não se trata de tentar responder a esta questão sendo imorais, pois assim estamos nos destruindo e ao planeta. Trata-se de superar este dilema “moral versus imoral” e compreender o porquê dos potenciais de amor e de criatividade se manifestarem tão pouco entre nós. Será que a moral é mesmo uma invenção dos poderes reativos do mundo, como disse o filósofo alemão Nietzsche?

Será necessário irmos ao passado para vermos outras culturas e formas de viver. Não se trata de nostalgia dos tempos de ouro e nem de uma solicitação de voltarmos à épocas que não existem mais. Trata-se somente de entender que a mentalidade atual se tornou muito fechada e que perdemos a capacidade de auto reflexão. Entre nós, existe um verdadeiro comichão de desejos modistas, medos recorrentes, vaidades impulsivas, imoralidades possíveis e ideologias ultrapassadas, que nos transformaram numa espécie estúpida e confusa.

Por outro lado, existiram povos no passado que não associavam a civilidade à tecnologia ou ao poder, mas sim ao “respeito” à Vida. Na Grécia, havia o amor e o cuidado com a cidade. No Egito, o culto à divindade prevalecia. O povo judeu se sentia um verdadeiro povo, de tão pleno de identidade e pertencimento, o que lhes dava um sentido inegavelmente superior em sua vida.

Nem sempre houve esta sensação de sermos indivíduos separados e sem pertencimento fora da família. A noção de felicidade se ancorou de tal maneira no indivíduo que ele se esqueceu do todo no qual se move; seja a cidade, a natureza ou Deus. Se por um lado parecemos nos sentir mais livres de vínculos, por outro, nos sentimos isolados e inseguros. Nossa ilusória vontade livre é determinada pela máquina de criação de desejos que é a sociedade de consumo. A maioria de nós se ensimesmou tanto que tornou-se impossível a realização de qualquer coisa que tenha valor além das fronteiras do ego e da satisfação dos sentidos. A comunicação verdadeira ficou difícil e a concordância coletiva impossível. Não conseguimos mais transcender os interesses pessoais e os valores hedonistas e materiais. Pior ainda, muitos se tornaram indiferentes, insensíveis, competitivos e cruéis.

Há momentos em que o ser humano parece esgotado em suas possibilidades. Atualmente, comportamentos e emoções se tornaram ladainhas irritantes nos mesmos moldes que vemos replicados na política, na economia, na religião e até na arte. Alienados de uma substancial alegria de viver, resta-nos o passatempo e a coceira dos poderes, prazeres e posses. Caminhamos para a mistificação e a loucura como ostentação de nós mesmos. Nossa política tornou-se a passarela privilegiada da farsa completa que muitos se tornaram. Trafegamos energias pelas mesmas vias e expectativas de todos. Nos sentimos num engarrafamento de emoções viciantes e comportamentos em série. Não conseguimos fazer valer nossa verdadeira individuação em momento algum. Seguimos inconscientes o modelo da razão instrumental que nos ludibriou porque nunca desejou se associar à Vida, mas somente dominá-la. Já éramos egoístas, nos tornamos “expertos”. A forma “Homem” tornou-se fossilizada e engessada. Como diz o povo, “morreu e esqueceram de enterrar.”

Será que existem soluções para esta humanidade desprovida de brilho e decaída? Vamos às mentes do passado. A primeira delas é o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, que faleceu em 1831. Hegel dizia que existe um “Espírito do Mundo” que anima a História. Tal espírito consumará o seu projeto mesmo através dos erros e das vaidades humanas. Já o filósofo Baruch de Espinosa, morto em 1677, falava de um Deus Natureza, do qual fazemos parte, e que está numa constante criação de si mesmo. Felizes seriam aqueles que vivem à partir de sua própria natureza e infelizes os que seguem os modelos dos “poderes”.

Precisamos mesmo ir além deste conflito secular entre o corpo e a razão, rumo à mais verdadeira das utopias: o Espírito, consciência final da síntese total. A experiência de milênios de conflitos e culpas nos tornou pesados demais e duvidamos de nós mesmos nesta hercúlea tarefa de nos superarmos. Já dizia Salomão: “Nada de novo debaixo do sol”. Apesar de tantos pesares, há muita esperança nas palavras do mestre Jesus: “Se a semente não morrer não produzirá fruto”. Ou então: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”

Por: Dib Curi é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI