15/05/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

COPA 2014 - Desfazendo Mitos e Manipulações

Para entender a campanha anti-Copa é preciso entender o contexto em que ela acontece. O que está em jogo nas eleições deste ano, no Brasil, extrapola as fronteiras nacionais.

Carmem Saporetti

Na eleição de 2014, o povo brasileiro escolherá entre “continuar mudando’”rumo a um novo modelo com prioridade em direitos humanos, bem estar social, solidariedade entre nações, solução pacífica de conflitos e soberania dos povos, em curso na América Latina, e a opção neoliberal de estado mínimo (privatizações e terceirizações), controle de inflação (arrocho salarial), austeridade (corte de investimentos em políticas públicas sociais) e subserviência às políticas dos países centrais, como acontece no México, Portugal, Espanha e Grécia.

Neste contexto, a campanha anti-Copa serve a vários propósitos. Um deles, desviar as atenções do que realmente está em jogo nas eleições. O outro, seguir com a demonização dos partidos (o PT, principalmente), da política e políticos em geral, que promove a desestabilização das instituições democráticas, criando ambiente propício para um “golpe branco”, como no Paraguai, em curso na Venezuela, e agora também no Brasil.

A campanha anti-Copa é destilada pela mídia controlada por quatro famílias que apoiaram, lucraram e estabeleceram sua hegemonia com o Golpe Militar de 64. Os números são embaralhados, as informações manipuladas. A maior hipocrisia é que esta mídia sabe que vai lucrar, e muito, com a Copa. E depois com as Olimpíadas.

Utilizam-se das manifestações do MTST, que possui uma pauta de reivindicações justas, contra as obras descabidas de governos estaduais e municipais que desalojam moradores com a desculpa de seus projetos de revitalização urbana, para atender aos interesses dos especuladores imobiliários, jogando a conta para a Copa.

Por que trazer a Copa do Mundo para o Brasil?

O futebol é parte da nossa cultura. Somos referência de competitividade e arte no esporte coletivo mais assistido, praticado e admirado no mundo. Somos o único país pentacampeão e nos orgulhamos disso.

Além disso, a Copa será vista por metade da população do planeta. Isto trará mais visibilidade ao Brasil e a ampliação do turismo doméstico e internacional. A aceleração de investimentos em infra-estrutura é um ganho permanente.

Quanto e em que estamos investindo?

O plano de investimentos totaliza R$ 25,6 bilhões. São R$ 17,6 bilhões (69%) investidos em infra-estrutura (R$ 8,0 bilhões em mobilidade urbana, R$ 6,2 bilhões em aeroportos, R$ 1,9 bilhão em segurança e R$ 0,6 bilhão em portos) e R$ 8,0 bilhões (31%) para a construção e modernização de 12 estádios nas cidades-sede.

As obras de infra-estrutura realizadas, em sua maior parte, ocorreriam independentemente da Copa, mas foram por antecipados por ela. Este investimento é diretamente ligado ao bem-estar da população e traz benefícios duradouros. Além do mais, estas obras movimentaram o setor de construção civil e geraram emprego e renda.

É certo gastar dinheiro público em estádios?

O Governo Federal NÃO realizou despesas com estádios.

Segundo a Matriz de Responsabilidades da Copa, em setembro de 2013, os gastos previstos de R$ 8,0 bilhões para construção e modernização dos estádios se dividiram em R$ 3,91 bilhões financiados pelo BNDES, R$ 3,95 bilhões de recursos dos Governos Locais e R$ 0,13 bilhão em recursos da iniciativa privada.

Os R$ 3,9 bilhões de financiamento federal representaram 0,5% do total de desembolsos do BNDES entre 2010 e 2013, período das obras. Estes recursos retornarão com juros para o BNDES.

Para que se tenha uma ordem de grandeza deste financiamento é preciso saber que, entre 2010 e 2013, o PIB brasileiro alcançou R$ 18,8 trilhões (IBGE) e que o custo dos estádios equivale a 0,04% deste PIB.

Mas não seria melhor investir em saúde e educação?

Saúde e educação são políticas públicas financiadas com recursos previstos em orçamento e oriundos dos impostos pagos pelos contribuintes.

Os estados e municípios que destinaram recursos aos estádios continuam obrigados a destinar as receitas para educação e saúde, conforme determinado em lei e fiscalizado pelos Tribunais de Contas. A construção de estádios não altera essa regra.

Os gastos públicos federais com educação e saúde, entre 2010 e 2013, somaram R$ 825,3 bilhões, 100 vezes o custo de todos os estádios.

Muitos empregos foram gerados na construção dos novos estádios que geraram muitos empregos na construção civil. No Campeonato Brasileiro de 2013, os estádios modernizados atraíram público médio 88% maior do que o dos estádios antigos.

A movimentação de recursos ligado ao futebol brasileiro chega a R$ 60,0 bilhões por ano, com 2,1 milhões de empregos diretos e indiretos (FGV).

O Brasil vai ganhar o quê com a Copa?

O investimento é de R$ 25,6 bilhões. Durante a Copa, há previsão de circulação de mais de 600 mil turistas estrangeiros (o dobro da África do Sul) e mais de 3 milhões de turistas nacionais. Segundo a Embratur, o total movimentado pelo turismo durante a Copa chegará a R$ 25,0 bilhões.

Segundo a Fundação de Estudos e Pesquisas Econômicas (FIPE), da USP, a Copa das Confederações em 2013, com ¼ do número de seleções presentes na Copa do Mundo e com 16 jogos (contra 64 da Copa do Mundo), acrescentou R$ 9,7 bilhões ao PIB. A expectativa é de que esta Copa acrescente R$ 30,0 bilhões ao PIB. A Copa mais do que se paga.

E quem ganhou com a campanha anti-Copa?

Os mega-eventos têm sido utilizados para aumentar os lucros das grandes corporações, que se utilizam do poder de barganha para impor condições privilegiadas em detrimento das empresas e micro-empreendedores locais.

Especuladores imobiliários em aliança com políticos inescrupulosos também se utilizam dos mega-eventos para desalojar moradores do entorno das obras de infra-estrutura onde os terrenos são imensamente valorizados.

Estas e outras questões foram eclipsadas pela cortina de fumaça lançada pelas falsas questões da mídia hegemônica. Enquanto isso, seus patrocinadores e anunciantes tiveram o terreno livre para conseguir seus objetivos espúrios.

Resta aprender com nossa história para que não sejamos novamente enganados na preparação das Olimpíadas em 2016. E muito menos nas eleições de 2014.

Investimentos federais em Infraestrutura: 17,6 bilhões

• Mobilidade Urbana: 45 obras, R$ 8,0 bilhões: novas vias urbanas, acessos a aeroportos, corredores de ônibus, estações de metrô, 13 BRTs e 2 VLTs;

• Aeroportos: R$ 6,2 bilhões: 81% de ampliação na capacidade de recepção de passageiros nas cidades-sede;

• Segurança: R$ 1,9 bilhão: integração de sistemas de inteligência nos pontos de entrada e 14 Centros Integrados de Comando e Controle;

• Portos: R$ 587 milhões: melhoria nos terminais de Fortaleza, Natal, Manaus, Recife e Salvador e alinhamento do cais de Santos;

• Telecomunicação: R$ 400 milhões: expansão da rede de fibra ótica estatal (Telebras) e modernização de fiscalização da Anatel;

• Turismo: R$ 196 milhões: expansão da infraestrutura e investimento em qualificação através do Pronatec Turismo).

Por: Carmem Saporetti é Arquiteta, Urbanista, Especialista em Gestão Ambiental Urbana