16/04/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Os Desafios da Mobilidade Urbana Sustentável

O automóvel é apontado pelos urbanistas contemporâneos como o principal responsável pela degradação urbana e desorganização do território...

Sandra Mara Ortegosa

As manifestações sociais que tomaram as ruas e praças das principais cidades brasileiras em junho de 2013 tiveram como motivação principal o aumento das tarifas dos transportes coletivos e as dificuldades cada vez maiores no sistema de mobilidade urbana. Com o aumento do poder aquisitivo das classes populares e a facilitação na aquisição de automóveis, a saturação do sistema viário, especialmente nas metrópoles, vem se agravando visivelmente nos últimos anos. Ao contrário do que se imagina a priorização de investimentos em obras viárias, ao invés de amenizar o problema, funciona como um estímulo ao transporte individual, gerando um círculo vicioso.

A causa principal dessa situação relaciona-se ao fato das prefeituras e câmaras municipais funcionarem como correia de transmissão dos interesses dos proprietários imobiliários e das empreiteiras que financiam as campanhas eleitorais, dando-lhes poder absoluto no controle dos orçamentos municipais e nos seu atrelamento à lógica do rodoviarismo, onde a circulação de automóveis adquire mais importância que o transporte coletivo, fazendo com que as prefeituras invistam prioritariamente em obras viárias (abertura e alargamento de avenidas, asfaltamento, construção de túneis e viadutos, etc) passíveis de serem concluídas dentro do limite de quatro anos de cada gestão. Esses investimentos, por sua vez, além de estimularem o aumento da frota de automóveis em circulação, sevem para abrir novas fronteiras de expansão da especulação imobiliária.

Segundo a arquiteta Hermínia Maricato, “há uma lógica que junta o automóvel, a infraestrutura urbana baseada no rodoviarismo e na especulação imobiliária, e o financiamento de campanha. São três forças que intervêm na política urbana e nos levam para o caos completo.”

O incentivo do governo federal à indústria automotiva, através da redução de impostos para estimular a venda de automóveis e motocicletas, tiveram um efeito positivo no crescimento econômico e na geração de empregos. Contudo, também geraram um aumento vertiginoso da quantidade de veículos em circulação, contribuindo com um aumento significativo dos acidentes e da poluição atmosférica. Com 600 mil novos veículos colocados anualmente nas ruas do país, o automóvel é apontado pelos urbanistas contemporâneos como o principal responsável pela degradação urbana e desorganização do território, por induzir a ocupação espraiada do solo urbano, em forma de mancha de óleo, avançando sobre áreas verdes e mananciais, além de provocar a eliminação de espaços públicos, como praças, largos e paisagens históricas, para lugar a estacionamentos e aumentar a vazão do fluxo cada vez maior de veículos.

A ocupação desordenada, com o sacrifício das áreas verdes, canalização de córregos e rios, e impermeabilização do solo, provocam o agravamento do problema de enchentes e catástrofes que se repetem a cada ano, durante as chuvas de verão, na maior parte de nossas cidades. Para tentar amenizar o problema, o poder público investe na construção de “piscinões”, mais uma vez favorecendo as empreiteiras.

De acordo com o relatório anual de Evolução da Frota de Automóveis e Motos no Brasil, a quantidade de automóveis duplicou nessa última década, passando de 24,5 milhões em 2001 para 50,2 milhões em 2012. Nos últimos cinco anos, em plena crise econômica internacional, o Brasil passou a integrar o grupo dos grandes poluidores mundiais, cuja fonte principal de gases-estufa é a queima de combustíveis fósseis. Além dos danos que isso tem provocado nas nossas cidades, o impacto sobre a saúde pública é notável. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em torno de 6 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo devido a poluição atmosférica. O efeito cumulativo da inalação contínua de nanopartículas e gases tóxicos como chumbo e cádmio é responsável por doenças respiratórias, problemas cardíacos, aumento da pressão arterial, diminuição da produção de lágrima, maior coagulação sanguínea, depressão, esquizofrenia e problemas reprodutivos. Do ponto de vista estritamente econômico, os congestionamentos de trânsito podem consumir até 10% do PIB de uma metrópole.

Além da precariedade dos transportes coletivos e do excesso de automóveis em circulação, outra questão mais complexa e estrutural no problema da mobilidade urbana relaciona-se ao desequilíbrio decorrente da concentração de empregos nas áreas centrais e de moradias nas periferias, obrigando os deslocamentos diários casa-trabalho. Em metrópoles como São Paulo, as pessoas gastam em média quase seis horas (um quarto do dia) em deslocamentos de casa para o trabalho. Isso só se resolve com políticas urbanas que reaproximem as pessoas de seus locais de emprego, procurando reduzir a necessidade de deslocamentos tão longos. Nesse aspecto, o urbanista Jan Gehl, autor do livro “Cidades para Pessoas”, propõe a construção de cidades compactas, onde a mobilidade urbana deixaria de representar um problema e a cidade passaria a funcionar como lugar saudável de encontros e trocas de experiências, estimulando o caminhar e o pedalar.

No caso particular de Nova Friburgo, onde a fluidez do trânsito sofre com a peculiar configuração das vias de acesso, espremida entre os morros que cercam a cidade, essa questão adquire importância crucial. É preciso impedir que a urbanização continue avançando sobre encostas suscetíveis a deslizamentos e margens de rios, adensando as áreas já dotadas de infraestrutura urbana, e promovendo um maior equilíbrio na distribuição das funções de comércio, serviços e habitações. Com enorme potencial turístico, a implantação de ciclovias e VLTs (veículos leves sobre trilhos), e o aproveitamento da calha do rio que corta a cidade para o transporte fluvial de passageiros, como na maior parte das cidades européias, além de contribuir na melhoria da qualidade do sistema de circulação, funcionariam como mais um atrativo para a cidade.

O momento presente é decisivo e propício a uma mudança radical de rumos e de construção de um projeto coletivo de desenvolvimento urbano mais harmônico e em consonância com as exigências e limites da natureza. Concentrar investimentos nas várias modalidades de transportes não motorizados, priorizando-se o transporte coletivo, e espaços qualificados para os pedestres e ciclistas, é fundamental para a concretização de um modelo de mobilidade urbana sustentável, que consiga melhorar a qualidade de vida em todas as cidades brasileiras. Cabe ao presente, portanto, definir o futuro que queremos deixar para as próximas gerações.

Por: Sandra Mara Ortegosa é socióloga e articulista do Jornal Século XXI.