16/04/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Consumismo infantil: uma grave moléstia social

A questão do consumismo tornou-se central no mundo contemporâneo. Um adulto tem todas as condições de vivenciá-la como ocasional e desejosa, mas uma criança pequena pode deturpá-la no imaginário, a ponto de compreende-la erradamente relacionando-a com a construção de sua própria identidade, como se fosse essencial e não acidental. Este é um tema de grande importância; não pode e não deve ser menosprezado.

As crianças brasileiras passam uma média de cinco horas na frente da TV, número entre os maiores do mundo. Ou seja, 35 horas semanais (quase uma jornada de trabalho) de bombardeio por comerciais e exposição a toda a sorte de produtos, de fast food, a brinquedos. Além disso, 15% da população infantil do país é obesa.

Segundo a Associação Dietética Norte Americana, bastam apenas trinta segundos para uma marca influenciar uma criança. Hoje crianças participam ativamente de 80% das decisões de compra da família e o aumento do poder de decisão de consumo entre crianças chega cada vez mais cedo, ou seja, atualmente crianças cada vez menores sabem o que querem e como conseguir.

O governo federal relançou em 2013 a cartilha “Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade”, publicação que faz parte da série Cadernos de Consumo Sustentável, lançada pela primeira vez em novembro de 2012.

A importância de trabalhar novos padrões de consumo para os pequenos é evitar a evolução de “pequenos monstros”, que já crescem imersos em uma mentalidade de hiperconsumo e pouca consciência ecológica e financeira.

No documentário “Criança, a alma do negócio”, Estela Renner demonstra de forma clara e precisa a realidade do consumismo infantil no Brasil. Em uma dinâmica com algumas crianças, a entrevistadora coloca duas folhas no chão, cada uma com as palavras: Brincar e Comprar, e a seguir pede para que eles coloquem a mão naquela que mais gosta, e o resultado é a maioria das mãos na folha “Comprar”. O documentário se propõe a discutir e avaliar o consumismo infantil, como as crianças são expostas a propagandas (e a mídia em geral) e o quanto são influenciadas por esses meios de comunicação.

Um exemplo de como o consumo exacerbado muda a mentalidade infantil é dado por Yves de La Taille, professor titular do curso de Psicologia da USP, em sua participação no filme: “Criança, a alma do negócio” de Estela Renner: “As bonecas de hoje, chamo de boneca, mas deveria ter outro nome porque a boneca de antigamente era um trabalho de maternagem, a menina era mãe da boneca, cuidava como se fosse um filho, um bebê. E hoje em dia, você não é mãe da Barbie”.

Dia das crianças contra o consumismo: que tal trocar em vez de comprar?

Dia das Crianças é sinônimo de compra de presentes, gastos a mais e espaço a menos dentro de casa. Para estimular o consumo consciente e ajudar a combater o consumismo infantil, o Instituto Alana promove feiras de trocas de brinquedos pelo Brasil. A ideia surgiu em 2012, quando aconteceram mais de 50 feiras autônomas em todo o país. Neste ano, a proposta é que os eventos simultâneos sejam realizados no dia 12 de outubro.

No site do instituto estão materiais de apoio para que pais, mães, organizações e movimentos realizem suas próprias feiras. Com um guia de como organizar o evento, um kit de divulgação e um flyer com orientações para ser distribuído aos participantes. Depois, quem quiser pode enviar as informações para o Alana e compor o grande mapa de feiras de troca de brinquedos.

Segundo o instituto, muito mais que trocar brinquedos que já não interessam, a experiência é enriquecedora por dar novos significados a objetos antigos e afirmar que as relações não precisam ser pautadas na compra. A campanha propõe que famílias reflitam sobre a relação do Dia das Crianças com o consumo exacerbado.

Para esse ano já estão confirmadas seis feiras, uma delas do próprio Instituto Alana, no dia 12 de outubro, na Casa das Rosas, em São Paulo, das 11h às 15h. Para saber sobre a programação de outras feiras, acesse: http://mobilizacao.alana.org.br.

Projeto que proíbe publicidade infantil recebe emendas

Debates carecem de posições mais firmes na defesa da construção de uma identidade livre das crianças apesar dos imperativos do mercado.

A proposta de Lei 5921/01 - que proíbe a propaganda voltada para crianças até 12 anos na televisão, rádio e internet entre 5h e 22h - está na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados e segue para a Comissão de Constituição e Justiça.

De acordo com o texto, quem descumprir a norma receberá multas entre R$ 5 mil e R$ 100 mil, e ainda poderá ter que publicar uma contrapropaganda.

Todas as empresas envolvidas na veiculação ou publicação da peça serão responsabilizadas, desde o fornecedor do produto ou serviço, à agência publicitária e o veículo de comunicação.

A proibição da propaganda destinada a crianças é defendida por entidades e movimentos da sociedade civil que atuam na defesa dos direitos da criança e do adolescente. Eles acreditam que toda e qualquer propaganda influencia negativamente o imaginário infantil.

Para integrantes da campanha Somos Todos Responsáveis, no entanto, educar as crianças é mais eficiente que tentar “isolá-las”. O exemplo dos pais e a vivencia em casa são mais determinantes no comportamento dos menores, acreditam. A ideia está baseada na opinião de diversos especialistas ouvidos pelo movimento, que colheu cerca de 220 depoimentos de juristas, educadores e pais sobre o assunto.

Além disso, o movimento argumenta que os abusos nas propagandas já são “rigorosamente” regulados e se tornam cada vez mais severos no país. A última atualização do Código de Autorregulamentação Publicitária (Conar) para publicidade infantil, por exemplo, proibiu o uso de merchandising ou de personagens do universo infantil nas propagandas para o público.

Regulação

A propaganda destinada a crianças no Brasil é regulada pelo Código de Autorregulamentação Publicitária (Conar); pelo Estatuto da Criança e do Adolescente; pelo Código de Defesa do Consumidor, além das ações normativas da Anvisa e determinações do Código de Ética da Publicidade.

Estão entre as regras a proibição do uso dos imperativos “compre”, “peça para seus pais”; de conteúdos que desvalorizem a família, escola, vida saudável; ou que tenha algum preconceito. Também é proibido apresentar produtos que substituem as refeições e encorajar o consumo excessivo de alimentos e bebidas. No mundo, apenas países onde a programação é quase 100% estatal há a proibição total da propaganda infantil: Noruega e Suécia, além da província de Quebec, no Canadá.

Por: Instituto Alana e Agencia Brasil