23/07/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Protestos transbordam das redes sociais para as ruas no Brasil e no mundo

“A única verdadeira utopia é acreditar que as coisas possam continuar indefinidamente como estão”. (Slavoj Zizek)

Sandra Ortegosa

O emblemático mês de junho de 2013, marcado pelas múltiplas manifestações convocadas pelas redes sociais da internet sem participação de partidos políticos, sindicatos ou outros meios tradicionais de organização política, que levaram mais de um milhão e meio de brasileiros às ruas, provavelmente será visto no futuro como um ponto de inflexão na história política do Brasil. Ninguém podia imaginar que essa onda de protestos, que teve início com os atos convocados pelo MPL (Movimento Passe Livre) contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos em São Paulo, fosse emergir com tanta força e tomasse as proporções que tomou, transformando-se num avassalador tsunami. Assim como os milhões de cidadãos indignados que ocuparam a praça madrilenha da Porta do Sol, em 2011, aos gritos de “Democracia Real Já!”, o movimento de massas que eclodiu no Brasil surpreendeu até os analistas políticos mais competentes.

Mas o que há em comum entre esse inesperado e surpreendente despertar da cidadania em nosso país (visto por alguns como o início de uma “Primavera Brasileira”) e outros movimentos semelhantes, como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados na Espanha, a defesa da Praça Takim na Turquia, e agora o maior manifesto já registrado na história da humanidade, com 17 milhões de pessoas protestando na Praça Tahir (Egito) contra o tirano chefe de estado Mohammed Mursi? Em todas essas manifestações, pode-se constatar um mesmo sentimento de indignação, que transbordou do mundo virtual para o mundo real, contra os políticos e burocratas governamentais que, embora pagos com dinheiro público, representam apenas seus próprios interesses e das empresas que bancam suas candidaturas.

No Brasil, as manifestações, que tiveram como estopim a questão da mobilidade urbana, rapidamente se alastraram pelo território nacional, agregando inúmeras outras demandas sociais represadas, expressas nos cartazes e faixas contra a precariedade dos serviços públicos, a corrupção, a PEC-37, os gastos excessivos com a Copa do Mundo, a violência da tropa de choque da PM, a perda de poder aquisitivo dos salários, o desrespeito aos direitos das minorias, a rede Globo, as suspeitas de fraudes no sistema eleitoral, etc.

Segmentos de extrema-direita também estão presentes nesse processo, representados por agentes infiltrados entre os manifestantes com o intuito de instigar atos de vandalismo que justifiquem a intervenção repressiva das forças policiais e, sobretudo, na mídia tradicional conservadora. Na véspera dos ataques da PM de São Paulo, os editoriais dos dois maiores jornais (a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo) chamavam os manifestantes de vândalos e baderneiros, incentivando a repressão policial em defesa do patrimônio público e privado.

Num segundo momento, não tendo mais como ocultar a brutalidade da repressão policial denunciada pelas redes sociais e a simpatia da população aos manifestantes, entregaram os anéis para não perderem os dedos, passando a apoiar as manifestações. A espetacularização da violência tornou-se a tônica dos noticiários. Agentes da tropa de choque foram vistos por manifestantes saindo de dentro dos prédios da PM do Rio de Janeiro com a máscara dos Anonymous.

Segundo o sociólogo espanhol Manuel Castell, estudioso das sociedades em rede, um dos papéis relevantes da internet no fortalecimento deste tipo de mobilização tem sido a divulgação, quase instantânea, de imagens da truculenta repressão policial contra os manifestantes, despertando sentimentos de revolta e solidariedade, e motivando novas adesões. “Ocorre um processo de identificação. E a transição da indignação à esperança ocorre após deliberações em espaços autônomos – tanto o virtual quanto o espaço público ocupado”, analisa Castells. Para ele, as mobilizações devem permanecer pacíficas e “se agirem com violência, irão perder sempre, porque o sistema sempre será muito mais violento do que qualquer contra-violência que o movimento possa adotar.”

Em meio a essa situação de crise institucional, o Brasil se prepara para recepcionar a Copa do Mundo e realizar as eleições presidenciais no próximo ano, prevendo-se um maior acirramento desse clima de embates políticos. O PT, que apostava no sucesso da Copa para alavancar a reeleição da presidente Dilma Roussef, depara-se agora com um aprofundamento da crise de credibilidade (que atinge igualmente e de forma implacável todos os demais partidos e políticos), registrando uma queda de 27 pontos percentuais no índice de aprovação da Dilma, que despencou de 57% antes dos protestos para 30% depois dos protestos. Na tentativa de aplacar os ânimos exaltados da população, a presidente fez promessas de maiores investimentos em educação, saúde, transporte, reforma política e punições mais duras para corruptos, abrindo-se ao diálogo com os movimentos sociais.

O que está em questão nesse momento, portanto, é a reinvenção da democracia por fora das instituições políticas. As instituições que não se adaptarem a essa nova dinâmica de democracia interativa possibilitada pelas redes sociais estão condenadas a se tornarem obsoletas e ultrapassadas. Apesar dos grandes desafios que ainda existem pela frente, não restam dúvidas de que o movimento conseguiu colocar em destaque na agenda política do país a pauta da democracia direta, resgatando as ruas e praças públicas como locus privilegiados de exercício da vida pública, encontros e reflexões coletivas. Embora esse despertar do gigante (por tanto tempo adormecido em berço esplêndido) ainda esteja fortemente marcado pela explosão emocional e carecendo de reflexão e amadurecimento, esse pode vir a ser um momento decisivo de preparação do terreno para a construção futura de outras formas mais avançadas de organização política, o que não é pouca coisa. Mais do que nunca, esse é o momento de mantermos uma postura pró-ativa, valendo-nos da qualidade exclusiva à espécie humana que é a nossa capacidade de imaginar o futuro, para colocarmos em prática estratégias de desenvolvimento direcionadas para a sustentabilidade ambiental, a inclusão social e o aprofundamento da democracia. Como afirma o filósofo esloveno Slavoj Zizek, “a única verdadeira utopia é acreditar que as coisas possam continuar indefinidamente como estão”.

Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP - Phd em Antropologia

pela PUC-SP

Por: Forum Seculo21