03/06/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A importancia da valorização dos saberes tradicionais

A conservação do patrimônio sociocultural se apresenta como essencial para os sujeitos históricos locais – os agricultores-caboclos; na medida em que possibilita o reencontro com as raízes das suas comunidades e a reafirmação das suas identidades.

Alessandro Rifan

O Parque Estadual dos Três Picos (PETP) criado em 2002 exigiu novas posturas e comportamentos, em especial, dos “grupos tradicionais”; formados por um tipo humano remanescente de grupos europeus e/ou de afrodescendentes, que em parte se miscigenaram com a população indígena local. Conhecidos pela figura do caboclo-agricultor e integrados ao bioma Mata Atlântica, são responsáveis diretos pela produção dos “etnoconhecimentos”; saberes transmitidos de geração em geração, de maneira oral, e desenvolvidos à margem do sistema social urbano.

A transformação do território social desses grupos em Unidade de Conservação (UC) implicou alteração das formas de apropriação simbólica da natureza. O poder simbólico, isto é, as representações sociais através da materialização de signos e do imaginário mitológico, contidas nos saberes; tem relevância no campo do etnoconhecimento, pois traz em si uma cultura singular, portadora de saberes tradicionais sobre o meio ambiente, a fauna, a flora e sobre diversos aspectos da cultura imaterial, como práticas produtivas, medicinais, trilhas, refúgios, lendas ou narrativas relacionadas ao habitat da floresta.

Em raras propostas relacionadas ao uso sustentado dos recursos naturais no Parque Estadual dos Três Picos, são inexistentes as menções de valorização aos saberes e comportamento das comunidades tradicionais. Não existe nenhuma ação relacionada à incorporação cultural simbólica destes grupos, nem tampouco referência à necessidade de se proteger a biodiversidade de forma dialógica com a sociodiversidade. É notório que as políticas públicas conservacionistas a serem implementadas em áreas protegidas devem levar em conta as necessidades das comunidades locais, e para isso, não deve apenas se restringir a presença desses grupos como conselheiros no fórum oficial de participação do Parque – O Conselho Consultivo; deve estabelecer outros mecanismos, e formas lúdicas e interativas para o fomento do diálogo. A proposta de gestão deve fortalecer as práticas relacionais com novos métodos de participação inclusiva, e este processo deve passar por discussões e comprometimentos dos membros da UC, e sua direção; para haver mudança no modo de agir dos agentes ambientais governamentais e inserção da sociodiversidade e seus interesses nas discussões.

A delimitação desse artigo foi orientada a partir da percepção de que a conservação do patrimônio sociocultural se apresenta como essencial para os sujeitos históricos locais – os agricultores-caboclos; na medida em que possibilita o reencontro com as raízes das suas comunidades e a reafirmação das suas identidades, bem como, e não menos importante, transforma-se em potencial atrativo de visitação no planejamento de Uso Público da referida UC.

Portanto, uma alternativa de inclusão seria envolvê-los através do resgate e disseminação de saberes tradicionais, para construir roteiros de visitação etnoecológicos , redirecionando o poder simbólico para novo contexto: a geração de fontes de rendas sustentáveis.

Precisa-se olhar de forma singular para o poder simbólico dos grupos tradicionais, e colaborar para a desconstrução de estruturas hierárquicas de subordinação, que prejudicam a construção de uma política compartilhada entre sociedade e governo. O conhecimento ecológico-científico, de base cultural local, em tese, propiciaria a integração de variados aspectos na estratégia de conservação, favorecendo a identificação de diretrizes de caráter aplicativo, quanto à gestão sustentável de recursos e espaços, especialmente aos destinados a visitação pública.

O fundamento político da sustentabilidade pressupõe o fortalecimento das iniciativas individuais e organizações comunitárias através de um processo público transparente, informativo e inclusivo, e assim, ganha-se a oportunidade de compartilhar o etnoconhecimento para aproximar grupos à margem das decisões.

* Alessandro Rifan é Arquiteto e especialista em etnodesenvolvimento - rifan.ale@gmail.com

Por: ForumSec21