05/06/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Confira a entrevista com o Padre Guy, reitor do Colégio Anchieta em Nova Friburgo

Jornal Século XXI: O senhor comemorou recentemente 50 anos de ordenação sacerdotal. Destaque aprendizados especiais – ou o principal aprendizado - destes tantos anos de sacerdócio.

Padre Guy Jorge Ruffier: Na altura dos meus 82 anos vividos e 50 de sacerdote confesso que levei uns minutos para selecionar algum fato, alguma circunstância que tenha marcado de maneira significativa a minha vida. Acho mesmo que tudo me marcou e que minha vida foi e está sendo um constante aprendizado. Nunca me imaginei levantar de manhã sem que o primeiro ato consciente seja entregar a Deus “o que tenho que fazer hoje, qual será a agenda marcada para o dia”. Acho mesmo que é por isso que depois de uns dez dias de férias já estou com saudade dos meses de trabalho. Férias trazem monotonia .Viver no meio da juventude me habituou a gostar da novidade, e quando não há novidade, buscar alguma.

As experiências mais fortes da vida sacerdotal foram sempre ligadas a momentos densos e emoções marcantes, morte, doenças. Lembro-me, por exemplo, daquele caso do Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro, na enfermaria de traumatologia que visitava frequentemente acompanhando grupos de alunos. Cenas de dor e sofrimento. : Num cantinho da grande enfermaria havia um homem de aspecto assustador, Um trapo humano, tinha sido recolhido numa sarjeta no bairro da Lapa, sem documento, sem parentes, clandestino vindo de Portugal, um desespero. Mendigo, vítima de atropelamento, agressivo e repugnante, ignorado por todos. Ninguém chegava perto dele pelo odor repugnante que emanava, deixavam o prato de comida a seu alcance, a certa distância, pois cuspia sobre enfermeiras e médicos. Certo dia enchi-me de coragem, fui conversar com o fulano. Quando me apresentei como sacerdote, o homem desmontou, baixou a agressividade, e acabou contando todo o drama de sua história. Era um sacerdote fugido da sua terra, derrubado pela doença, pela bebida, pela vida boêmia e finalmente pela miséria das ruas da Lapa, enroscado pelos vícios, acabou atropelado e sem documentos, sem parentes, sem alma viva que o consolasse, duvidava até de Deus. Ele, um sacerdote. Os parentes viviam em Portugal, nem sabiam de seu paradeiro. Para encurtar a conversa, acabou confessando sua vida, seus numerosos pecados, e recuperou ali uma paz que ele desesperadamente procurava. Soube que morreu por aqueles dias, mais tranquilo e mais humanizado. Aí está uma das dezenas de experiências da vida sacerdotal. Eu tinha, na época, uns 35 anos.

Jornal Século XXI: Como vê o atual momento da Igreja do século XXI com o novo Papa Francisco?

Padre Guy: Não conheci muitos papas, na minha vida consciente de cristão. Nasci em 1931, nono filho de pais profundamente cristãos. Fui aluno de Irmãos Maristas na minha cidade natal – Rio Grande, Estado do Rio Grande do Sul - nesta cidade fui batizado, ali fiz minha Primeira Comunhão e recebi o dom do Espirito Santo no Sacramento da Crisma. Com 18 anos ingressei na Ordem Jesuíta, onde meus três irmãos mais velhos já haviam ingressado, Vivi, portanto, no Pontificado de Pio XII, de João XXIII. De Joao Paulo I, de João Paulo II, e agora começo a conhecer o nosso vizinho argentino, Papa Francisco. Foi uma surpresa grande e agradável, especialmente ao conhecer o jeito de vida deste Senhor Jorge Mario Bergoglio, homem de forte carisma pastoral, vivência no meio do povo, usando condução popular, preparando sua própria refeição, pagando suas diárias no Hotel, conversando descontraidamente com os hieráticos guardas suíços do Vaticano, celebrando todos os dias na sua capela interna para um grupinho de populares, afastando sistematicamente toda honra e pompa inerente ao poder, mesmo aquele clerical. Já se tornam públicos os exemplos que nos edificam positivamente nesta linha. Muitos seguidores de Jesus Cristo que se aborreciam com o aspecto solene e palaciano das Cúrias, tanto a de Roma como de outros Países cristãos, certamente estão felizes, como eu sinto que estou. Estamos numa vertente – como dizia o nosso Cardeal Paulo Evaristo Arns- em em que a periferia catequisa os centros. A vila de Nazaré, de Cafarnaum, os caminhos da Galileia, eram as cátedras a partir das quais Jesus pregou e viveu o Reino de Deus. Finalmente parece que voltamos às origens.

Jornal Século XXI: Este é o ano da Jornada Mundial da Juventude. O que é e o que significa este momento para a igreja e a sociedade? Como vê a juventude brasileira na atualidade?

Padre Guy: A Jornada Mundial da Juventude será um momento forte e cheio de esperança. A juventude sempre foi e será a camada social e espiritual do futuro. Sementeira de generosidade, idealismo, novidade e criatividade. Comparo o Papa Francisco com o Papa João 23, homem bom, alegre e espirituoso, que se sente bem com o ambiente dos pobres. Deus o conserve por muitos anos.

Quanto à juventude brasileira, trabalhando desde 1965 em educação, tento fazer o meu trabalho como acho que tem que ser feito: tendo sempre em vista o que quero alcançar, sem muito alarde, sem muita pompa, aguardando assistir brotar os bons frutos das plantas que semeamos por onde passamos, exercendo especialmente a virtude da paciência. O bem não faz barulho e o barulho não faz bem. O que move os corações são os exemplos mais que os belos discursos.

Jornal Século XXI: Qual é, no seu entender, a missão do Colégio Anchieta e dos Jesuítas em Nova Friburgo?

Padre Guy: O que posso dizer é que seguimos o objetivo que Santo Inácio forjou ao fundar a Ordem. O Santo fundador da Ordem em 1556 assim resume nossa missão no mundo: “todo aquele que pretender alistar-se sob a bandeira da cruz na nossa Companhia, que desejamos se assinale com o nome de Jesus, para combater por Deus e servir somente ao Senhor e ao Romano Pontífice seu Vigário na terra, depois do voto solene de perpetua castidade persuada-se que é membro da Companhia. Esta foi instituída principalmente para o aperfeiçoamento das almas na vida e na doutrina cristãs, e para a propagação da fé, por meio de pregações publicas, do ministério da palavra de Deus, dos Exercícios Espirituais e obras de caridade, e nomeadamente pela formação cristã das crianças e dos rudes, bem como por meio de Confissões, buscando principalmente a consolação espiritual dos fieis cristãos.”

Quando os Jesuítas decidem fundar uma obra, residência ou missão apostólica, o que pretendemos é seguir este objetivo. No que tange à cidade de Nova Friburgo foi montar e sustentar esta meta por meio da educação e da instrução. As gerações passam, lutamos para que o farol não se enfraqueça.

O Colégio Anchieta, fundado há 127 anos, é o terceiro estabelecimento de ensino jesuíta nestas terras do Brasil após a dolorosa supressão da Ordem ocasionada pela perseguição iluminista e a nefasta influência das nobrezas europeias, cuja execução se deveu o famigerado Marquês de Pombal. Durante perto de cem anos todas as obras missionárias e especialmente as educacionais Jesuitas foram fechadas, sem que houvesse continuidade. A história da educação no Brasil sofreu bastante com isso. Pouco a pouco, a partir da restauração da Ordem, em 1814, surgiram de novo os colégios jesuitas, por meio dos padres alemães - na Argentina e em Sta Catarina e dos italianos em Itu -.voltaram a erguer estas obras educativas, entre as quais se conta o Anchieta de Friburgo. Hoje dirigimos no Brasil 16 Colégios e três Universidades, uma Faculdade de Engenharia Industrial, duas Escolas Técnicas, ao todo cerca de 15 mil alunos, E aqui estamos.

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