02/05/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Como viver neste mundo irritante?

Sem este tipo de investigação estaremos aprisionados numa sofrida busca movida por nossas fantasiosas ideias e esperanças de paz e felicidade.

Alexandre Saioro

Atisha, um grande mestre budista indiano, quando foi para o Tibete levou com ele um atendente que era muito desagradável. Estava sempre muito mal disposto, resmungava com tudo e arranjava problemas com todas as pessoas do mosteiro. Além disso, era muito malcriado com o mestre. Indignados com a sua atitude os discípulos imploravam ao mestre que o mandasse embora, que o substituiriam no seu trabalho. Então Atisha respondia:

“E sem ele como é que vou treinar a minha paciência?”

A yogue tibetana Machig Labdron recomendava aos seus alunos:

“Aproxime-se daquilo que considera repulsivo, ajude aqueles que você acha que não pode ajudar e vá aos lugares que o assustam”.

Creio que nunca foi tão útil a sabedoria destes dois mestres budistas. Atualmente, estamos envolvidos em um sistema de vida bastante irritante e perturbador. Todos os dias somos bombardeados por situações que nos tiram a tranqüilidade e nos convidam para atitudes explosivas e raivosas ou nos fazem perder o ânimo de ver um mundo mais justo, harmonioso e encontrarmos um pouco de paz.

Temos estas perturbações com a pessoa que para o carro na rua e põe o som na maior altura, o vizinho que não respeita o horário de silêncio, os furadores de fila, os políticos e governos corruptos ou insensíveis, os empresários gananciosos e incompetentes que não respeitam o consumidor e os jornalistas e empresas de comunicação que enganam a população com informações distorcidas e manipuladoras.

Com certeza se Atisha e Machig Labdron vivessem em nosso mundo de hoje Atisha não precisariam trazer nenhum atendente para perturbá-los e talvez o principal conselho de Machig Labdron para seus alunos seria: adquira uma linha telefônica e depois espere a conta.

Mas, como viver neste mundo irritante?

Talvez, há muito tempo atrás (sabe-se lá quando) surgiu na mente de alguém que era possível, um dia, se chegar a algum lugar ou alguma situação em que tudo funcionasse como e gente esperava e, então teríamos a completa paz e felicidade. E a ideia pegou.

Mas o problema é que cada um que pensou nisso tinha a sua idéia de paz e felicidade e os conflitos foram inevitáveis. E para piorar a situação, a tal ideia de paz e felicidade também mudava um pouco de tempos em tempos. Então sempre que alguém chegava perto da situação ideal imaginada, ela já não era tão ideal assim. Até hoje a maioria de nós está nesta busca, mas parece que, de um modo geral, não tem dado muito certo.

As pessoas mais felizes e em paz que conheci não tinham uma forma idealizada destes estados. A felicidade e a paz delas não dependiam de condições. Elas tinham encontrado uma liberdade tão grande que se sentiam a vontade em qualquer situação. Não havia mais exigências das coisas serem de um jeito ou de outro. Elas viviam presentes, abertas e flexíveis momento a momento, na completude de cada situação. Talvez elas tenham compreendido o que Dilgo Khyentse Rinpoche quis dizer com as seguintes palavras:

“As diversas atividades da vida comum seguem uma depois da outra como ondas no mar. Os ricos nunca acham que têm dinheiro suficiente. Os poderosos nunca acham que têm poder suficiente. Pense nisso: a melhor maneira de satisfazer todos os seus desejos e completar todos os seus projetos é abandoná-los todos.

Um ser realizado vê as preocupações das pessoas comuns como eventos de um sonho, e as observa como um velho homem olhando crianças brincarem. Na noite passada você sonhou, talvez, que era um grande rei, mas quando acordou, o que sobrou? O que você vivencia acordado dificilmente tem mais realidade que isso.

Em vez de perseguir esses sonhos de névoa, deixe sua mente descansar em serena contemplação, livre da agitação mental e da distração, até que a realização da vacuidade se torne parte integral de sua experiência.” (Dilgo Khyentse Rinpoche, em “The Hundred Verses of Advice”)

Creio que antes de querermos entender o que estas palavras querem dizer, temos que procurar entender por que nos irritamos. Com certeza a irritação surge porque nos sentimos ameaçados e desconfortáveis. Mas o que é realmente este desconforto ou ameaça? De onde vêm estas sensações? Elas têm sua base nas coisas que inevitavelmente mudam e acabam, ou na mente que se identifica com elas?

Sem este tipo de investigação estaremos aprisionados numa sofrida busca movida por nossas fantasiosas ideias e esperanças de paz e felicidade.

Talvez a nossa pergunta não deva ser como viver neste mundo irritante. Talvez o mundo não seja irritante, mas sim a nossa mente seja irritável. Uma mente onde reina o apego e a aversão é uma mente cheia de elementos irritantes.

Não é o mundo que temos que mudar se quisermos lidar com nossa irritação, mas sim a nossa mente.

Como diz Lama Sonam Tsering num ensinamento:

“O grande Shantideva da tradição indiana do budismo escreveu que, se quisermos proteger as solas de nossos pés de espinhos e bolhas, não tentaremos cobrir toda a terra com couro - o que é caro e difícil – apenas calçamos sapatos de couro. Do mesmo modo, podemos insistir em mudar a realidade fenomênica para servir às nossas necessidades ou podemos mudar nossa visão da realidade fenomênica. A última opção é bem mais eficaz e consome menos tempo.”

Estamos tão obcecados em obter e conquistar coisas e condições para momentos mais ou menos longos de prazer e satisfação que nem nos passa pela cabeça perguntar como estamos conseguindo isso e o que são realmente estas coisas que precisamos conquistar.

Nos ensinamentos budistas é dito que sofremos porque nos agarramos e confiamos em nossas experiências como se fossem verdadeiras. Estamos sempre nos agarrando a algo; uma idéia, um objeto, ou um relacionamento muito firmemente. Mas, na verdade, se investigarmos e analisarmos tais experiências veremos que elas não são permanentes, nem singulares no sentido de serem compostas e nem livres no sentido de que podem ser afetadas por coisas externas. Portanto, como podemos nos apoiar em algo que é composto por elementos que irão se separar mais cedo ou mais tarde, é vulnerável por influências externas a ela e, consequentemente, é impermanente?

Para começarmos a saber lidar com este mundo/mente irritante, não basta compreendermos estas três características de uma forma intelectual. É preciso compreendê-las da forma profunda, através da contemplação e da meditação espiritual. E uma vez realizado isto completamente, seu relacionamento com a vida e tudo que existe em sua vida mudará. Sua mente se tornará gradualmente livre das falsas percepções e pretensões que são a causa do sofrimento para você e para os outros.

* Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org) - asaioro@gmail.com

Por: ForumSec21