02/05/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Cineclube Lumiar: “ponto de encontro”entre a Arte e a Democracia

Lugar encantado, sensação de férias, liberdade, riqueza cultural e beleza natural... Assim é Lumiar, um cenário perfeito de sonhos e histórias reais. E uma dessas histórias tem início em 24 de fevereiro de 2008: neste dia, nascia o “Cineclube Lumiar”, com objetivo de socializar e difundir a Educação, a Cultura e a Arte Audiovisual na região de Lumiar e São Pedro da Serra.

Por: Jeany Amorim

“Cinema: uma eficiente ferramenta de difusão de conhecimentos e de integração social”

Com o intuito de promover o acesso gratuito à obras cinematográficas, aliado ao desejo de estimular o desenvolvimento da consciência sócio ambiental, dois jovens criaram, em Lumiar, o Cineclube, um espaço para a democratização do cinema.

No inicio do projeto, o que motivava Pedro Kiua e Tiaya Sengers era poder proporcionar um momento de encontro entre as pessoas, a necessidade que sentiam de encontrar o outro para conversar sobre algum tema, debater sobre algum acontecimento ou idéias... principalmente por Lumiar ser um distrito rural, com poucas opções de lazer cultural. Os espaços públicos para encontros e discussões acabavam se limitando aos bares ou Igrejas, sem meio termo.

Atualmente, o Cineclube é referência local, um espaço democrático, estabelecido como “ponto de encontro” para reflexão e discussão. O público, tanto de moradores quanto de visitantes, busca o Cineclube com essa intenção.

“... A cada ano que passava, mais gente chegava junto, contribuindo, e fazendo o projeto se tornar realidade.”

Estima-se que, no decorrer dos seus 5 anos, o Cineclube Lumiar tenha exibido cerca de 500 filmes diferentes, levando em consideração a regularidade das sessões de domingo e sessões especiais em outros dias da semana. No inicio, havia exibição durante todo fim de semana - sexta, sábado e domingo - para estudo dos hábitos do público. E foi assim durante quatro meses, até se chegar à conclusão de que domingo seria o melhor dia para a exibição. E as sessões regulares acontecem desde então. Sobre as parcerias para que o projeto fosse adiante, Pedro Kiua, um dos fundadores, comenta: - “Desde o princípio, muitos colaboradores estiveram presentes. Teve a Iolanda Correia, que era funcionária da prefeitura em Lumiar e nos ajudou a conseguir a sala, que era alugada pela Secretaria de Fazenda, onde o cineclube funcionou em seu primeiro ano. Foi também a Iolanda quem me apresentou o Luis e a Vânia, que foram - e ainda são! - grandes colaboradores do Cineclube. Quando mudou o governo, e tivemos que desocupar a sala, o Manoel Antonio, da Euterpe Lumiarense, nos convidou a continuar as atividades na sede da banda. Ajudamos a reativar aquele espaço, pessoas voltaram a circular ali. A Euterpe tornou-se então ponto de cultura e a sala que usávamos começou a ser compartilhada por aulas de música, piano, teatro, balé... aos poucos o espaço foi ficando pequeno. Depois de dois anos, chegou a hora de mudar novamente. O Luis e a Vânia, esse casal sem igual, moradores antigos de Lumiar, tinham guardado o sonho de construir um cinema-teatro no vilarejo, e foi assim que nasceu o “Tribuna Livre Cultural”, onde opera hoje o cineclube. Um espaço que foi todo pensado para as exibições, com isolamento acústico, ar condicionado, projetor na altura certa, som bem distribuído pela sala... enfim, depois de tantas mudanças, o cineclube ganhava um espaço merecido! Hoje, somos uma equipe não hierarquizada, um Conselho de Diretores composta por mim, pela Eduarda Serra, produtora cultural, pelo Almir Gomes, professor, e pelo Pedro Poppe, que é empresário, produtor de mudas de reflorestamento. Uma turma bem eclética!”

“...Nunca nos preocupamos muito com números. A ação do cineclube é de fôlego longo... Já fizemos sessão para três pessoas da mesma forma que fazemos para sessenta.”

O primeiro filme exibido foi “Geração Bendita”, de Carlos Bini. Filme produzido por um grupo de jovens músicos e cineastas de Nova Friburgo, produção do que se chamou na época de “o primeiro filme hippie brasileiro”. O filme foi rodado na região e deixou registrado, além das imagens de uma época, uma trilha sonora tão surpreendente quanto rara. Exibir este filme na abertura do Cineclube foi uma forma de chamar a atenção do público para esta importante ferramenta cultural e de expressão artística, além de criar uma identificação, pois era um filme feito na própria região. A média de público, atualmente, é de 40 pessoas por sessão. Mas essa média já foi de 10, e essas 10 pessoas continuam a frequentar as sessões, o que mostra que o Cineclube tem um público cativo. Mesmo em momentos adversos, o espaço não parou suas atividades.

Em janeiro de 2011, após a tragédia, Lumiar ficou sem luz e sem telefone de segunda à sábado; exatamente no domingo, a luz voltou. - “Fomos para o espaço do Cineclube na hora de sempre, sem muita esperança que haveria público, mas para nossa surpresa, pelo menos umas 20 pessoas estavam lá, mesmo sem divulgarmos nada. Todo mundo querendo conversar sobre o que tinha acontecido e trocar impressões. Foi a prova que o Cineclube já havia se tornado não só um referencial de acesso a cultura, mas também um importante referencial social”, relembra Pedro.

“Cineclubes são espaços democráticos, sem fins lucrativos, que estimulam o público a ver e discutir o cinema e refletir sobre a realidade...”

Os cineclubes foram responsáveis pela formação cinematográfica de grandes cineastas, entre os quais podemos destacar Glauber Rocha, Cacá Diegues, Jean-Luc Godard e Wim Wenders. Compreendendo o Cinema como uma eficiente ferramenta de difusão de conhecimentos e de integração social, os cineclubes permanecem como espaço democrático, onde o público se envolve diretamente na escolha do que será exibido, sem nenhuma preocupação ou fins comerciais; um local que prima por critérios culturais, artísticos, sociais e que leva, ao público, obras que, muitas vezes, não chegariam até ele, seja documentário, curta, média ou longa-metragem. Além das sessões semanais, o Cineclube Lumiar realiza projeções em escolas da região, exibições itinerantes, oficinas e outras atividades relacionadas à Sétima Arte: - “Temos essas experiências em nosso currículo, e é nosso desejo continuar com a expansão das atividades do cineclube. Por enquanto, mantemos a regularidade de nossas sessões aos domingos e outras duas sessões especiais mensais, pois é o limite que nossos próprios recursos permitem”, conclui Pedro.

“...Breve histórico sobre o Cineclubismo”

O cineclubismo surgiu nos anos 20 do século XX, na França. No Brasil ele surge em 1929 com o Cineclube ChaplinClub, no Rio de Janeiro. Os cineclubes surgiram em resposta às necessidades que o cinema comercial não atendia. O movimento passou 15 anos desarticulado, na década de 80, devido à medidas desastrosas para o audiovisual. Sua rearticulação e organização aconteceu em 2003, com a posse do ministro da cultura Gilberto Gil e secretário do audiovisual Leopoldo Nunes.

Ao todo, hoje, são 1370 Cineclubes no país, um número expressivo concentrado em cidades com até 20 mil habitantes, onde não há salas de cinema e o contato audiovisual está concentrado, em sua grande maioria, nos canais de televisão abertos, as videolocadoras e restritos a poucos pela internet. (Fonte: www.cineclubes.org.br)

Jeany Amorim é professora de artes e coordenadora no Colégio Anchieta - jeanyamorim@ig.com.br

Por: ForumSec21