24/03/2013 Noticia AnteriorPrxima Noticia

Dominando a prpria mente ...

* Alexandre Saioro

Vivemos em busca, sempre em busca de algo que achamos que precisamos. Poucas vezes questionamos a razo e o sentido destas buscas. E quando fazemos isto, o que habitualmente questionamos sempre o objeto da busca e no este impulso contnuo de se apegar a um objeto.

Se olharmos sinceramente como so nossas vidas, veremos que ela se resume a uma movimento cclico de busca de alvio de alguma insatisfao ou desconforto onde o que procuramos mudar apenas o objeto de apego como, por exemplo, condies ambientais e sociais, e relacionamentos pessoais.

Ser que nosso sofrimento se d pela falta, mudana ou perda de certos objetos de desejo, ou seria por esta constante inquietao que nos leva a nos apegarmos, desejarmos e odiarmos certos objetos?

Se investigarmos profundamente todo o sofrimento que existe no mundo, veremos que sua origem est no apego. Segundo o budismo, o apego causado pela ignorncia de nossa verdadeira natureza, plena de contentamento, sabedoria e compaixo. E ao entendermos o apego e utilizarmos certas ferramentas para desfazer este estado mental, podemos eliminar as causas de nosso sofrimento, assim como ajudar aos outros seres a no criar estas causas.

No texto a seguir, Chagdud Khadro nos traz um esclarecimento inicial, baseado na Sabedoria Budista, sobre a natureza do apego, suas dolorosas conseqncias e como podemos lidar com ele.

Apego, uma primeira abordagem - Chagdud Khadro

O apego permeia de forma to completa a mente dos seres humanos e determina to consistentemente nossas aes, que nosso estado de existncia conhecido como reino do desejo. Fabricamos este reino ao nos fixarmos tanto nas aparncias comuns do ambiente externo, quanto nas aparncias mais sutis do ambiente interno da mente, que so os conceitos e as emoes. A partir desta fixao criamos um vasto espectro de experincias. Em uma extremidade, surge uma experincia infernal a partir da fixao nos objetos da raiva e do dio o apego convertido em total averso. Na outra extremidade, a fixao em certos estados de meditao um tipo de apego extremamente sutil, no entanto poderoso resulta numa existncia plena de xtase, ainda que temporria e condicionada pelo desejo.

O apego emerge da falta de compreenso da natureza da vacuidade e da impermanncia dos fenmenos. Esse equvoco fundamental enormemente potencializado por nossos desejos mundanos que, simultaneamente, nos seduzem e frustram. No compreendendo que nada permanente, ou mesmo confivel, na experincia comum, temos desejos e anseios pelas coisas do mundo.

Os desejos surgem incessantemente e ficamos frustrados por no obter o que queremos, por no possuirmos o suficiente, por termos algo que no queremos mais, ou por conseguir as coisas e perd-las. Para as pessoas mais introspectivas, o prprio processo de fixao, a formao dos apegos, assim como o esforo para satisfazer os desejos, se tornam profundamente desgastantes.

Tambm desgastante reconhecer que o poder do nosso apego, o hbito forte de sermos apegados, nos impulsionou ao longo de incontveis vidas passadas e nos impulsionar ao longo de incontveis vidas futuras, a no ser que possamos encontrar a liberao. E no estamos ss nessa dificuldade, que compartilhada por todos os demais seres sencientes, incluindo aqueles que nos so mais queridos. Todos ns, da mesma maneira, somos iludidos pela miragem da satisfao e estamos enredados em nossa prpria teia de apegos. Essa percepo, em si, se torna uma fonte de compaixo.

Na maioria dos casos, existe um certo padro no processo que usamos para desenredar essa teia. A tristeza e a dor direcionam nossa mente para questes mais amplas sobre a vida, que s podem ser resolvidas atravs de uma busca espiritual. A fora da impermanncia nos leva continuamente a novas e contnuas alianas com amigos, casamentos, romances e laos familiares; a reviravoltas nas carreiras e contas bancrias; a mudanas nos recursos, residncias e projetos; a melhoras e declnios na sade e no bem-estar. Sabemos que, num determinado momento, vamos nos deparar com o esgotamento da juventude e a deteriorao de nosso prprio corpo, com a velhice e a morte.

Se, nesse momento, tivermos a fortuna de encontrar um autntico mestre espiritual, e se este mestre possuir a sabedoria nascida do escutar, contemplar e meditar sobre os ensinamentos da linhagem do Buda Sakiamuni, ele ou ela vai nos aconselhar a no nos afastarmos da verdade da impermanncia, e sim a olh-la profunda e diretamente. Ao examinar o nosso interior, descobrimos que as ocorrncias mentais tambm so impermanentes, que os pensamentos e emoes vm e vo como o vento, que as prprias caractersticas das nossas identidades pessoais so variveis. Se olharmos para dentro de ns com as lentes da meditao, ficaremos abismados com a proliferao dos fenmenos mentais, com seu movimento agitado, seus incontveis pontos de fixao seguidos de exigncias infindveis, digresses, imaginaes e humores. Achamos difcil sentar em silncio e olhar para eles!

Para algum que leva a srio o desenvolvimento espiritual, a primeira questo como domar esses aspectos desregrados da prpria mente.

A conscincia da impermanncia a chave para o trabalho com o apego, um processo que abarca muitos nveis espirituais, envolvendo desde o principiante que busca o domnio do apego comum ao interesse pelo prprio eu, at o grandioso bodisatva, que liquida os ltimos vestgios de apego a certos hbitos sutis da mente. Em cada estgio, o crescimento da compaixo a medida que determina o quanto as amarras do apego esto se afrouxando. A liberao do egocentrismo permite a expresso mais espontnea de nossas qualidades naturais de compaixo. Especialmente, desenvolvemos a aspirao sincera de que todos os seres, nossos companheiros no reino do desejo, encontrem a liberao do apego ao mundo externo e interno como sendo reais, libertando-se da exaustiva busca pela realizao de seus desejos, que leva apenas, e cada vez mais, em direo iluso e ao sofrimento. Essa tambm a aspirao que temos em relao a ns mesmos.

* Alexandre Saioro professor do Programa de Reduo do Estresse - A Arte do Estresse - e instrutor Budista em Nova Friburgo.

Por: Forum Seculo XXI