24/03/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Relação Famílias/Escola: Contrato e Aliança

Talvez, mais que em outros tempos, a escola necessite estreitar os laços com as famílias para alcançar seus próprios objetivos.

* Prof. Dr. Luiz Alberto Boing

No início de cada ano letivo acontecem reuniões de pais e responsáveis nas escolas. Esse tipo de encontro vem sendo reinventado nos últimos anos, mas, por mais que se busque maior objetividade, o resultado ainda fica muito aquém do esperado e, não raro, a discussão descamba para outros temas e queixas que tomam o lugar das questões pedagógicas que deveriam ser tratadas. Essa experiência, um tanto frustrante para pais, pedagogos e docentes, leva a um questionamento mais amplo das relações entre famílias e escola.

Talvez mais que em outros tempos a escola necessite estreitar os laços com as famílias para alcançar seus próprios objetivos. São cada vez mais variadas as configurações familiares, contexto a ser incorporado necessariamente ao trabalho escolar. Por outro lado, a escola também tem mudado, ainda que tais mudanças nem sempre sejam tão evidentes para quem não está nela todos os dias. Ocorre que para a aproximação desses dois mundos a mera relação contratual de prestação de serviços educacionais não é suficiente. A base ética dessa relação é mais ampla.

Adela Cortina, pesquisadora e professora de Filosofia Jurídica, Moral e Política da Universidade de Valência, na Espanha, resgata outra narrativa das relações humanas que vai além do contrato social. A ideia de contrato social, apresentada por Hobbes no Leviatã, foi se tornando hegemônica à medida que as sociedades se tornaram cada vez mais individualistas. Deixadas à sua própria individualidade, segundo Hobbes, as pessoas acabariam se aniquilando umas às outras. Como o que importa é o interesse individual, nessa linha de raciocínio, as pretensões dos outros quase sempre são encaradas como ameaças. O contrato surge, então, para garantir o convívio de diferentes interesses na sociedade. Para Adela Cortina, o modelo contratual é importante, mas cada vez mais limitado eticamente pelo fato de ser egocêntrico. Ela volta à narrativa da Aliança, no Gênesis, quando Adão reconhece Eva como outro ser humano, “carne de sua carne”. O motor das relações na perspectiva da aliança, explica a autora, é o outro, em mútuo reconhecimento.

Como em outras relações sociais, o vínculo da escola com as famílias tem se apresentado mais na perspectiva do contrato do que da aliança. Nas escolas privadas talvez isso fique mais evidente, pois aí efetivamente se celebra um contrato de prestação de serviços. No entanto, nas redes estatais de ensino também se percebe a presença do contrato social, por vezes sutil, mas com força de reivindicação de parte a parte mais impactante do que na rede particular. Se na escola privada o contrato de serviço é reivindicado quando existe qualquer insatisfação, na escola pública a pretensão se sustenta na própria Constituição Federal e em vários outros estatutos hierarquicamente superiores a qualquer contrato particular.

Relações baseadas na legalidade contratual já não resolvem o que famílias e escola estão enfrentando na desafiadora tarefa de educar em tempos como os atuais. O contrato sempre coloca em polos opostos esses dois entes, estabelecendo o que é dever de um e direito de outro e vice-versa. Diante de um impasse quase sempre um passa a exigir e o outro normalmente procura se defender ou se desonerar de qualquer responsabilidade.

Ao estabelecerem uma aliança que vai além do contrato, famílias e escola criam a possibilidade de quebra das relações autocentradas. Por isso mesmo essa mudança não é simples e nem tão rápida quanto se deseja. É preciso gastar tempo no mútuo conhecimento e reconhecimento.

As poucas “rodas de conversa com famílias” que tivemos oportunidade de patrocinar mostram que a aliança entre famílias e escola será resultado de uma construção mais difícil do que a teoria apresenta. É mais uma atividade a ser realizada entre tantas outras que recaem sobre os pais ou responsáveis pelas crianças e adolescentes e envolve enorme desconfiança de todos os lados. Não é simples abrir espaço nas agendas já apertadas de educadores e cuidadores para encontros fora do horário normal de expediente para discutir temas relevantes para a educação dos filhos e para se conhecer.

Mas é possível animar-se alguma coisa já no início da caminhada. A riqueza dos encontros realizados até aqui apareceu numa dimensão que realmente foi surpresa, pois não havíamos cogitado tal perspectiva: a possibilidade dos pais estabelecerem alianças entre si. Na dinâmica da partilha, na acolhida das fragilidades que só a dimensão da aliança possibilita, a diversidade das famílias – seus valores, sonhos, crenças e práticas – emerge como possibilidade de reinvenção concreta da relação entre famílias e escola. Do diálogo franco entre todos os adultos envolvidos na educação das crianças e adolescentes surgem novos olhares sobre os velhos temas. Misturam-se os papeis de familiares e educadores. Todos partem da mesma convicção: já não existem receitas para a educação, nem a familiar e nem a escolar. O desafio é encarar o mistério que é o ser humano para garantir aos filhos e alunos o melhor para seu desenvolvimento. E isso não é pouca coisa.

Em aliança, mais desarmados e menos autocentrados, profissionais da educação e familiares, criam uma possibilidade concreta para partilhar conhecimento, como é próprio de nossos tempos. De repente, uma conversa puxando a outra, se ensina e se aprende a lidar com as novas gerações.

* O autor é doutor em Educação pela PUC-Rio e Diretor Acadêmico do Colégio

Anchieta - academico@colegioanchieta.org.br

Por: ForumSec21