24/03/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Que civilização é esta que envenena sua própria comida?

“Faça do alimento sua Medicina, e da Medicina seu alimento”. (Hipócrates)

* Sandra Mara Ortegosa

Você já parou para pensar porque a incidência de câncer, diabetes, problemas cardíacos, Mal de Alzheimer, de Parkinson e várias outras doenças, aumentou tanto nas últimas três décadas, atingindo cada vez mais pessoas e até crianças e animais? O que está por trás disso é que, paradoxalmente, com o avanço da indústria alimentícia, a cada dia torna-se mais difícil a possibilidade de uma alimentação saudável.

A chamada “Revolução Verde”, que prometia acabar com a fome no mundo, impôs a monocultura e o arsenal de produtos químicos que hoje domina a produção agrícola, passando por cima de todo o conhecimento acumulado ao longo de 10.000 anos da agricultura tradicional.Em meados dos anos 70, durante a ditadura militar, o governo brasileiro condicionou o crédito rural ao uso obrigatório de agrotóxicos. Desde então, em nome de um critério economicista e de produtividade, estamos sendo envenenados diariamente (e em doses nem tão homeopáticas) por alimentos contaminados por uma enorme variedade de agrotóxicos, fertilizantes químicos, pesticidas, herbicidas, antibióticos, aditivos químicos, conservantes etc.

O maior consumidor de agrotóxicos é o Brasil.

A partir de 2008, o Brasil tornou-se o maior consumidor de agrotóxicos do planeta: cada brasileiro ingere em média 5,2 litros desses venenos por ano. Seu uso é admitido impunemente (e até estimulado) por nossos governos como uma necessidade inevitável, passando por cima de qualquer critério de qualidade da saúde pública. Aqui são tolerados, sem restrições, agrotóxicos que já foram banidos de diversos países europeus, nos EUA, África e China, e que comprovadamente são responsáveis por danos irreversíveis no sistema nervoso central, pela perda de memória e de movimentos, pelo enfraquecimento do sistema imunológico, além de má formação nos embriões de mulheres gestantes.

A gigantesca empresa norte-americana Monsanto destaca-se, entre outras multinacionais, como a líder mundial em biotecnologia e é responsável por 90% dos alimentos transgênicos produzidos no planeta, obrigando os agricultores a adquirirem, juntamente com os insumos químicos e herbicidas, um pacote com sementes híbridas e transgênicas, criadas artificialmente para resistir aos efeitos dos herbicidas. O Roundup, carro-chefe da Monsanto, é o herbicida mais vendido no mundo nos últimos 30 anos, contaminando de forma avassaladora o solo, a água, o ar, os alimentos e, consequentemente, as pessoas e os animais. Em setembro do ano passado, testes realizados pela Universidade de Caen, na França, com ratos submetidos a uma alimentação com milhos transgênicos tratados com Roundup, apresentaram resultados alarmantes: mortes prematuras, tumores cancerígenos na pele, rins, fígados, glândulas mamárias e hipófise, além de danos no coração, nas glândulas suprarrenais e nos baços. Um artigo da Food and Chemical Toxicology mostra imagens de ratos com tumores maiores que bolas de pingue-pongue.

E os produtos animais?

Engana-se, porém, quem imagina que a alimentação à base de produtos de origem animal está livre desses problemas: a soja e o milho transgênicos, usados na alimentação do gado, contaminam a carne, o leite e todos seus derivados. Outra questão é que, tanto na indústria da carne como na do leite, o lucro está acima de qualquer critério de compaixão ou de higiene. Na indústria do leite, para se manter a produção contínua, as vacas são submetidas a sucessivas inseminações artificiais. Assim que os bezerros nascem, eles são arrancados de suas mães e elas passam a receber hormônios de crescimento para aumentar a produção de leite, e antibióticos para combater a inflamação de suas tetas. Quando deixam de produzir, são levadas para o abate, completando seu triste ciclo de existência no planeta. Todas essas substâncias são ingeridas pelos seres humanos através da carne, do leite e de seus derivados (manteiga, queijo, iogurte etc).

Hora de olhar para os abatedouros

Além disso, as condições de higiene da maior parte dos abatedouros são assustadoras. Recentemente, o programa Fantástico apresentou uma reportagem chocante, mostrando que nesses verdadeiros “circos de horrores”, onde acontecem atrocidades invisíveis aos olhos do consumidor, muitas vezes não existe nenhum tipo de fiscalização sanitária no processo de abate: após receberem marretadas nas cabeças, os animais são esquartejados (às vezes ainda semiconscientes) no chão imundo, onde há insetos mortos, poças secas de sangue e fezes de ratos, contaminando a carne que vai para os açougues e supermercados. A reportagem mostrou, também, funcionários manipulando a carne sem o uso de máscaras ou luvas, e transportando-a sem refrigeração, em tambores de plástico sem tampas. Estima-se que mais de 30% da carne brasileira é produzida nessas condições, podendo transmitir doenças gravíssimas como a cisticercose, que ataca o cérebro, e a toxoplasmose, que provoca problemas no fígado, pulmão e coração.

Como enfrentar essa situação cada vez mais preocupante? O consumidor precisa começar a dar preferência aos produtos orgânicos e exigir do poder público um maior estímulo à agricultura orgânica, em detrimento do apoio que hoje é dado ao agronegócio, à comercialização de agrotóxicos e à pecuária. É por falta de financiamento e de políticas públicas que os alimentos orgânicos não conseguem competir com os produtos contaminados por agrotóxicos.

Além disso, estão começando a surgir iniciativas interessantes de grupos de moradores que passaram a praticar a agricultura urbana com base nos princípios agroecológicos, transformando espaços antes improdutivos, como terrenos baldios, quintais, várzeas de rios etc., em hortas orgânicas, pomares e locais de encontros, convivência e trocas de aprendizados. Essas experiências, além de fortalecer os laços comunitários, fornecem pistas para mudanças em direção à construção de cidades ecológicas e resgate de uma vida urbana mais saudável. A superação do atual quadro de insegurança alimentar passa, portanto, pela conversão do atual modelo agroquímico e mercantil para um modelo de base agroecológica, e pela construção de uma economia solidária e sustentável, que resgate e fortaleça os saberes tradicionais do homem do campo.

* Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP e Phd em Antropologia pela PUC-SP - sandraortegosa@yahoo.com.br

Por: ForumSec21