01/04/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Nelmo vai deixar saudades...

Sua lembrança e sua dedicação à arte não se apagarão. Figura incomparável, de talento inimitável, fará muita falta no cenário da arte friburguense.

* Jeany Amorim

“Nascido, criado, e revoltado aqui” – como costumava brincar o artista- Nelmo Ricardo Martins Diasnasceu aos dezoito dias do mês de setembro de mil novecentos e sessenta e um. Sócio de livraria, comidas alternativas, brechó e, finalmente, de um espaço cultural que, infelizmente, não chegou a inaugurar -as águas da tragédia de 2011 se interpuseram entre ele e a realização do sonho – é difícil encontrar alguém que não o tenha conhecido:“...aquele artista de rua, que não fala nada, mas diz tudo e, quando não veste o personagem, está sempre de macacão, com sua inseparável bicicleta- meio de transporteno qual percorria quilômetros diuturnamente e do qual muito se orgulhava...” Sim, Nelmo foi, e sempre será, “Patrimônio Artístico e Cultural de Nova Friburgo”.

Começou no teatro, em 1982, meio por acidente: foi assistir ao ensaio de uma peça que um amigo participava e, ao entrar pela porta errada – hoje temos a certeza que esta era a porta certa! – Nelmo foi parar, por acaso, no meio do palco, onde a peça era encenada. O diretor adorou aquela intervenção, e ele passou a fazer parte do espetáculo. Mas antes, em 1979, já fazia esquetes Natalinas com o renomado ator Fernando Borher: “Eradivertidíssimo! Ganhávamos panettones, e vinhos, e fazíamos o nosso Natal na rua mesmo”, costumava recordar o ator, em conversas entre amigos.

Nelmo ficou conhecido por toda cidade através depersonagens que crioupara campanhas publicitárias. Até mesmo o artista já havia perdido as contas de suas criações, mas nunca esqueceu a razão de ter iniciado este trabalho: a falta de espaço para montar peças teatrais. Ele nunca deixou o teatro, o que fez, foi transformar a rua em palco. Levar personagens para as ruas foi uma maneira que encontrou para estar perto do público. Nunca se fixou a um grupo, pertenceu a inúmeros, prezava a sua liberdade, Não gostava de aprisionamentos, nem mesmo os artísticos.

Algumas pessoas na cidade chegavam a pensar que o artista fossemudo, pois foi na mímica que encontrou uma maneira funcional e românticade desenvolver seus trabalhos. Nelmo gostava de instigar os transeuntes e mexer com a curiosidade das pessoas; buscou inspiração no Cinema mudo e em Marcel Marceau – mestre da pantomima francesa.

Quando despia os personagens, ria dos problemas que encontrava durante suas performances – até a postura tentou impedir seu trabalho; mas era pontualao dizer que, o maior problema que encontrava, era o mesmo dos outros artistas: a falta de incentivo. Mas nada tirou o prazer que sentia em estar trabalhando, em ver as pessoas sorrindo, brincando com os personagens, o prazer de desmontar a expressão dura de quem teve um dia difícil... Divertia crianças, adultos e idosos. Muitas vezes se encantavacom a receptividade e aceitação da população e relatava entusiasmado, aos amigos, suas experiências emocionais da Arte nas ruas.

Amiga e companheira de trabalho, Daniela Santi – Atriz e Diretora Teatral – relembra com carinho a trajetória artística do grande amigo:

“ – Nelmo foi artista de palco em teatros fechados, nos anos 80 e 90. Teve muitas e grandes atuações. Me lembro de algumas. Em “Navalha na Carne” surpreendeu e encantou com seu Herculano. No “Cabaret Valentin” suas mímicas intrigaram. Em “Drape e Pau” soltou o verbo. Em “Procurando uma História” encarnou o garoto interno que sempre foi. Nos filmes marcou presença em “O Rapto das Cebolinhas” e “Limpim”. Seu Cachorro, no primeiro, e o Anjo, no segundo, são a expressão de seu talento. Trabalhou com quase todos os diretores de teatro da cidade. Foi em 1992, num evento em praça pública, que arrecadava alimentos para a Campanha Contra a Fome, lançada pelo Betinho, que descobriu o prazer de brincar, e inventar objetos e magia com as caixas. O papelão, a cola e a tinta, passaram a fazer parte de seu cotidiano. Optou por tornar-se um artista de rua. Performático, como poucos.”

Uma de suas últimas criações,teve como palco oHospital Municipal Raul Sertã, onde Nelmo ficou conhecido como Dr. Sombrinha. O Dr. Sombrinha era um Besteirologista, integrante da “Trupe do Sorriso”, inicialmente formada pelosartistas Nelmo Ricardo, Cris Azevedo eLúcia Palomo. Mais tarde, juntaram-se a Trupe Léo Abelha e Jeferson Robert Cunha. Por vários anos consecutivos, a Trupe do Sorriso “clinicou” os pacientes do Hospital Municipal – passando por todas as enfermarias, invadindo até mesmo o descanso médico - levando humor, amor e esperança, “fazendo rir”num dos grandes momentos de fragilidade humana. E foi como Dr. Sombrinha que Nelmo foi esperado todas as segundas-feiras, por pacientes e funcionários do Raul Sertã. Com um humor silencioso, sutil, inteligente e sensível, elefez toda diferença aos que ali se encontravam, e foidurante este trabalho que confessou: “Talvez, esta seja a maior performance da minha vida”.

“Inusitado. Criativo. Teimoso. Amoroso. Resmungão. Adorável. Tantos e tantos adjetivos podem servir para qualificar o meu grande amigo Nelmo Ricardo” – se emociona a amiga Daniela Santi. “Qualidades: muitas. Defeitos: também. Porém e apesar, um coração de ouro numa cabeça de ferro. Uma alma pura num corpo judiado. Grande, imenso ator e homem. Deixou um buraco no meu coração. Uma cratera, na minha emoção” .

Nelmo nos deixou no dia 26 de janeiro de 2013.Sua lembrança e sua dedicação à arte não se apagarão. Figura incomparável de talento inimitável, fará muita falta no cenário da arte friburguense. Ao querido amigo e ator Nelmo Ricardo, nosso aplauso e eterna admiração, por tanta alegria, gentileza, profissionalismo, criatividade e bondade. Nova Friburgo vai sentir saudades.Estesim sai da vida, entra na história e ficará para sempre na memória dos amigos, das ruas e da cultura friburguense.

* Jeany Amorim é professora de artes e coordenadora no Colégio Anchieta - jeanyamorim@ig.com.br

Por: ForumSeculo21