25/03/2013 Noticia AnteriorPrxima Noticia

A eroso das fontes de sentido

* Leonardo Boff

J foi dito, com verdade, que oser humano devorado por duas fomes: de po e de espiritualidade. A fome de po sacivel. A fome de espiritualidade, no entanto, insacivel. feita de valores intangveis e no materiais como a comunho, a solidariedade, o amor, a compaixo, a abertura a tudo o que digno e sagrado, o dilogo e a prece ao Criador.

Esses valores, secretamente ansiados pelos seres humanos, no conhecem limites em seu crescimento. H um apeloinfinito que lateja dentro de ns. Somente um infinito real pode nos fazer repousar. A excessiva centralizao na acumulao e no desfrute de bens materiais acaba por produzir grande vazio e decepo. Foi o que concluiram analistas da universidade Lausane. Algo em ns grita por algo maior e mais humanizador.

nesta dimenso que se coloca a questo dosentido da vida. uma necessidade humana encontrar um sentido coerente. O vazio e o absurdo produzem angstia esentimento de estar s e desenraizado. Ora,a sociedade industrialista e consumista, montada sobre a razo funcional, colocou no centro o indivduo e seus interesses particulares. Com isso, fragmentou a realidade, dissolveu qualquer cnon social, carnavalizou as coisas mais sagradas e ironizou ancestrais convies, chamadas de grandes narrativas, consideradas metafsicas essencialistas, prprias de sociedades de outro tempo. Agora funciona o anything goes, o vale tudo dos vrios tipos de racionalidade, de posturas e de leituras da realidade.Criou-se o relativismo que afirma que nada conta definitivamente.

A isso se chamou de ps-modernidade que para mim representa a fase mais avanada e decadente da burguesia rica mundial. No satisfeita de destruir o presente, quer destruir tambm o futuro. Ela se caracteriza por um completo descompromisso de transformao e de um professado desinteresse por uma humanidade melhor. Tal postura se traduz por uma ausncia declarada de solidariedade para com o destino trgico de milhes que lutam por terem uma vida minimamente digna, de poderem morar melhor do que os animais, de terem acesso aos bens culturais que lhes enriqueam a viso do mundo. Nenhuma cultura sobrevive sem uma narrativa coletiva que confira dignidade, coeso, nimo e sentido caminhada coletiva de um povo. A ps-modernidade nega irracionalmente este dado originrio.

No entanto, por todas as partes do mundo, as pessoasesto elaborando significados para suas vidas e padecimentos, buscandoestrelas-guias que lhes demum norte e lhes abram um porvir esperanador. Podemos viver sem f, mas no sem esperana. Sem ela se est a um passo da violncia, da banalizao da morte e, no limite, do suicdio.

Ora as instncias que historicamente representavam a construo permanente do sentido, entraram modernamente em eroso. Ningum, nem o Papa, nem Sua Santidade o Dalai Lama podem dizer seguramente o que bom ou mau para esta quadra planetria da histria humana.

As filosofias e outros caminhos espirituais respondiam por esta demanda fundamental do humano. Mas elas, em grande parte, se fossilizaram e perderam o impulso criador. Sofisticam-se cada vez mais sobre o j conhecido, sempre de novo repensado e redito mas desfibradas de coragem para projetar novas vises, sonhos promissores e utopias mobilizadoras. Vivemos um mal-estar da civilizao, semelhante quele do ocaso do imprio romano, descrito por Santo Agostinho em A Cidade de Deus.Nossosdeusescomo os deles j no so mais crveis. Os novos deuses que esto despontando no so vigorosos o bastante para serem reconhecidos, venerados e lentamente ganharem os altares.

Estas crises s so superadas quando se fizer uma nova experincia do Ser essencial de onde se deriva uma espiritualidade viva. Vejamos alguns lugares onde os novos deuses se anunciame uma nova percepo do Ser aparece.

Por mais crticas que lhe devemos fazer no seu aspecto econmico e poltico, a globalizao , antes de tudo, um fenmeno antropolgico que se expressaria melhor por planetizao: a humanidade se descobre uma espcie, habitando uma nica Casa Comum, o planeta Terra, com um destino comum. Tal fenmeno vai exigir uma governana global para gestionar os problemas coletivos. algo novo.

Os Frums Sociais Mundiais que a partir do ano 2000 comearam a se realizar a partir de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, revelam uma particularssima irrupo de sentido. Pela primeira vez na histria moderna, os pobres do mundo inteiro, fazendo contraponto s reunies dos super-ricos na cidade suia de Davos, conseguiram acumular tanta fora e capacidade de articulao que acabaram aos milhares se encontrando primeiro em Porto Alegre, depois em outras cidades do mundo, para apresentar suas experincia de resistncia e de libertao, para trocar experincias de comocriam microalternativas aosistema de dominao imperante, como alimentam um sonho coletivo para gritar:um outro mundo possvel, um outro mundo necessrio. algo novo.

Nas vrias edies dos Fruns Sociais Mundiais, em nveis regional e internacional, se notam os brotos do novo paradigma de humanidade, capaz de organizar de forma diferente a produo, o consumo, a preservao da natureza e a incluso de toda a humanidade num projeto coletivo que garanta um futuro de vida e de esperana para todos. Dai a sua importncia: do fundo do desamparo humano est emergindo uma fumaa que remete a um fogo interior do lixo ao qual foram condenadas as grandes maiorias da humanidade. Esse fogo inapagvel. Ele se transformar numa brasa e num claro a iluminar um novo sentido para humanidade. Oxal.

Leonardo Boff (*1938) doutorou-se em teologia pela Universidade de Munique. Foi professor de teologia sistemtica e ecumnica com os Franciscanos em Petrpolis e depois professor de tica, filosofia da religio e de ecologia filosfica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mais informaes e textos no Blog:

http://leonardoboff.wordpress.com/

Por: Leonardo Boff