21/02/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Humanidade está envolvida em jogos corruptores

"Diante da imprevisível e mutante dinâmica de vida e morte que é nossa existência, buscamos uma ilusória segurança e plenitude pessoal que nunca são alcançadas."

Alexandre Saioro

Ao longo da história humana, sempre vimos populações inteiras sendo jogadas de um lado para o outro, injustiçadas, desrespeitadas e exploradas segundo os interesses de uma minoria estabelecida no poder. Vimos também inúmeras revoluções que surgiram para mudar este tipo de situação, mas que acabaram repetindo o mesmo padrão de desigualdade de direitos e deveres sociais onde oprimidos muitas vezes se transformaram em opressores.

É comum ouvirmos dizer que o poder corrompe. Mas não sei se é bem assim. Na verdade, não são só as elites que citei que estão mergulhadas neste jogo ensandecido com as suas vidas e a vida dos outros. Se observarmos bem, todos nós estamos.

Ao que parece, há em todos nós esta tendência corruptora muito antes de conquistarmos o poder. Olhe para sua mente e você verá como você está a todo o momento procurando manter sua sobrevivência física ou psicológica. E é nesta busca pessoal que entramos em diversos tipos de jogos emocionais, ideológicos, financeiros, profissionais, religiosos etc., com seus inevitáveis conflitos e perversidades. Todos nós queremos vencer, ou pelo menos não perder. Queremos ver nossas ideias e ideais realizados, conquistar nosso lugar na sociedade, manter ou aumentar o nosso padrão de vida com seus confortos, prazeres e controles.

Tudo isto nos parece muito justo e básico para termos uma vida digna. Temos “evoluído” desta forma, sofisticando cada vez mais estes jogos de sobrevivência e sucesso. Mas o que podemos ver nesta evolução é que este “básico e justo” acaba não tendo um limite. Sempre há um algo a mais a ser obtido, conquistado e realizado e para isto não é difícil rompermos os limites da sanidade.

Talvez possamos achar que isto é uma coisa normal e que a vida nada mais é, foi ou será do que isto. Mas, é este tipo de pensamento que é o nosso grande problema, pois é ele que faz com que não questionemos o que estamos fazendo e, assim, vislumbremos uma outra maneira de viver.

Todos os nossos jogos corruptores têm sua raiz na sensação de uma insatisfação que brota da insegurança que temos diante da vida. O que quero dizer com isto? Quero dizer que vivemos envolvidos na equivocada percepção de uma vida incompleta e, portanto, ameaçadora, gerando todo o tipo de medo e esperança.

Diante da imprevisível e mutante dinâmica de vida e morte que é nossa existência, buscamos uma ilusória segurança e plenitude pessoal que nunca são alcançadas. Por ser equivocada, esta busca acaba por nos afastar cada vez mais de nossa verdadeira realidade que é não-pessoal, não-social, não-planetária etc. (seja lá o que tudo isto signifique), ou seja, não condicionada e que pode ser percebida no relaxamento e bem estar natural de nossa mente sem esperanças e medos deste exato momento. Experimente...

Por não percebermos isto, alimentamos a experiência de vivermos em constante insatisfação e ameaça. E, buscando acabar com esta insatisfação, geramos pensamentos e ações que só criam mais confusão e sofrimento.

Creio que toda a violência, desrespeito e maldade que vemos no mundo seja fruto desta situação. Movidos pela insatisfação ilusória nos debatemos uns sobre os outros tentando aliviar nosso sofrimento.

Somente tendo o ato corajoso de parar de agir e reagir movidos pela insatisfação para investigar e desafiar nossos medos e esperanças é que teremos a chance de desfazer nossos jogos corruptores. Nos desfazer de nossos jogos nos deixa sem chão e nós criamos nossos jogos exatamente para fugir disso. Observe e você verá que ao menor sinal de insegurança ou desconforto nós sempre buscamos algum tipo de solução. Não suportamos sentir o chão que pisamos se mover que logo queremos nos agarrar em algo. E é este agarrar que nos enrijece nos tornando estúpidos e perigosos, fazendo com que percamos a grande chance de experienciar a liberdade e paz que tanto buscamos. Como quem foge de uma ameaça num sonho, nos seguramos em alguma coisa, em nossos conceitos, ideias, emoções, poder, posses e nos viciamos no alívio temporário que todas estas coisas nos dão, não percebendo a realidade onírica disto tudo.

As nossas tão proclamadas conquistas parecem ter mudado muito pouco a nossa mente insegura. Talvez estejamos um pouco mais sofisticados, dissimulados, contidos, mas ainda autoiludidos. E o que se vê é que tudo o que já nos foi dito com o intuito de se construir uma vida feliz e harmoniosa; como a liberdade, igualdade e fraternidade; a ordem e progresso; a paz e amor; a democracia e a justiça, acabou sempre servindo à ilusória busca autocentrada que sempre distorce e desfigura a mais elevada visão de uma sociedade justa, fraterna e iluminada.

Pode ser desanimador ver tudo isso, mas, na verdade, qualquer sofrimento que venha deste enganoso modo de vida só é possível nos afetar se aceitarmos as verdades que ele nos oferece. Se vermos a qualidade hipnótica e onírica de que ele é feito, podemos encontrar uma tremenda e poderosa liberdade. E isso muitas vezes acontece quando somos encurralados e não temos alternativa a não ser encarar a situação, sem querer escapar. Aprendendo a relaxar na insegurança do momento, podemos ver a miragem se desfazer na nossa frente. E assim, realmente livres, podemos olhar este jogo da ilusão com sabedoria e compaixão, sem nos deixar levar pela ideia de realização que vemos nos modelos de sucesso e felicidade promovidos por aqueles que vivem no medo e que se mantém no poder a partir da exploração, do desrespeito e do sofrimento de muitos seres.

* Alexandre Saioroé professor do Programa de Redução do Estresse - A Arte do Estresse - e instrutor Budista em Nova Friburgo - alexsaioro@hotmail.com

Por: ForumSec21