20/02/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

O que o consumo de carne tem a ver com a devastação da Amazônia e com o aquecimento global?

“Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência. (...) Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.” (Chefe Seatle)

Sandra Mara Ortegosa *

Paradoxalmente, o ser humano - que se diz superior e mais inteligente que os outros animais - é a única espécie no planeta que destrói seu habitat para se alimentar, caminhando em direção à autodestruição. De fato, não é sinal de inteligência adotar a carne como fonte de proteína na alimentação, sabendo-se que essa opção, além de ser muito mais cara que a proteína de origem vegetal, tem um altíssimo custo social e ambiental. A FAO (Food and Agriculture Organization) alerta que 40% da superfície terrestre no mundo estão sendo ocupados pela pecuária, e isso avança rapidamente a 2% ao ano.

Atualmente existem mais de seis bilhões de cabeças de gado no planeta e menos de 10% da população mundial consome essa carne. O planeta não tem condições de suportar sete bilhões de pessoas, com quase metade de sua superfície dedicada à pecuária. Isso é um luxo que atende apenas a uma minoria de menos de um bilhão de pessoas, enquanto 1/3 da população mundial passa fome.

A dieta à base de carne, que hoje demanda um terço das terras aráveis do mundo só para o cultivo de colheita para alimentar os animais (principalmente a soja), consome aproximadamente dez vezes mais água (um recurso natural cada vez mais escasso) que a dieta vegetariana. São necessários mais de 2.400 litros de água para produzir um quilo de carne, contra 25 litros para o cultivo de um quilo de trigo.

Os bois avançam sobre a Amazônia

Com o segundo maior rebanho global (mais de 200 milhões de cabeças), o impacto ambiental da pecuária no Brasil e, especialmente, na Amazônia, é bastante grave. A cada 18 segundos um hectare da floresta é convertido em pasto e 232 milhões de árvores são abatidas por ano para dar lugar à pecuária bovina. Só no ano passado, mais de 450 mil hectares de floresta foram derrubados.

Se você é um consumidor de carne, saiba que não está unicamente se prejudicando com um alimento de qualidade altamente duvidosa, ou colaborando com a matança de milhões de animais usados como alimento, você também está contribuindo com o desmatamento da maior floresta tropical do planeta – a Floresta Amazônica – um bioma essencial ao equilíbrio climático global, onde se estima que habitam mais da metade de todas as espécies vivas do Brasil, incluindo cerca de 180 etnias indígenas.

‘Infelizmente, ainda são poucas as pessoas que têm consciência de que, se não mudarmos nossos hábitos alimentares e o consumo de carne não for reduzido drasticamente, estaremos colocando em risco a própria sobrevivência da nossa espécie no planeta e que a desertificação da Amazônia, com sua biodiversidade riquíssima ainda pouco conhecida (e onde certamente se encontra a cura para inúmeras doenças), será algo inevitável.

O consumo de carne e o Efeito Estufa

Um dos problemas mais prementes relaciona-se às emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) responsáveis pelo aquecimento global, extremos climáticos e, consequentemente, pela intensificação das catástrofes ambientais. Ao contrário do que muitos imaginam, a maior parte da responsabilidade sobre o aquecimento global não provém de atividades industriais, termoelétricas ou aviões, automóveis e caminhões, e sim do desmatamento, das queimadas e do gás metano (18% do total dos GEEs) provenientes da pecuária Um único boi produz em torno de 700 litros de metano/dia durante o processo de ruminação (arrotos e flatulências), o que equivale à mesma quantidade de gás carbônico produzido por um caminhão grande circulando 56 km/dia, só que o metano é um gás 23 vezes mais nocivo que o CO2. A quantidade de gás carbônico lançada na atmosfera durante as queimadas para preparar o pasto também é absurda, o que nos leva à conclusão de que substituir derivados animais na alimentação, como carnes e laticínios, por análogos vegetais, daria resultados mais rápidos contra o aquecimento global do que a substituição dos combustíveis fósseis por energia renovável.

Outra questão bastante preocupante tem a ver com o fato de que o avanço do desmatamento da Amazônia está fortemente ligado à ilegalidade: a exploração de madeira, a produção de gado e a ocupação do solo são praticadas de forma ilegal e clandestina. Segundo Paulo Maués, analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), “num primeiro momento chegam os madeireiros, que roubam as madeiras mais nobres para se utilizar nas serrarias. Depois, vêm os grileiros que terminam de devastar a floresta. Depois, tocam fogo e plantam capim para vender para pecuaristas do resto do país”.

Caminhos insustentáveis

Em termos estritamente econômicos, a pecuária bovina na região amazônica é insustentável, pois não chega a produzir 100 quilos de carne ao ano por hectare, ocupando em torno de 70 milhões de hectares – uma área equivalente à soma dos territórios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. “Hoje, o Pará é o estado que mais desmata. Quem navega pelas águas mansas do rio Xingu não imagina o contraste. Ao lado da bela paisagem está um cenário desolador. Motosserras não dão trégua e queimadas criminosas deixam a selva em cinzas.” (Globo Rural, 20/01/2013)

A interação entre o avanço do desmatamento e as mudanças climáticas, por sua vez, pode gerar um círculo vicioso extremamente perigoso, onde as mudanças climáticas provocadas pela emissão dos gases de efeito estufa aumentam a vulnerabilidade aos incêndios florestais e aceleram a conversão de florestas em regiões muito mais secas e pobres em espécies. Para que essa trágica perspectiva de devastação da Amazônia seja revertida, torna-se indispensável uma mudança radical nos hábitos alimentares, tendo em vista a segurança alimentar da população mundial, que deverá chegar a nove bilhões em 2050.

Hábitos geram destinos

Na medida em que adquirimos consciência do que estamos consumindo, passamos a observar nossos hábitos de maneira diferente e a perceber que o que comemos também define o futuro do planeta. Além disso, como se sabe, o consumo de carne vermelha e de carnes processadas (hambúrguer, lingüiças, salsichas e salames) aumenta os riscos de morte por câncer e problemas cardiovasculares, entre outras causas. Quando o movimento vegetariano mundial defende a proposta de não se comer carne uma vez por semana (campanha das segundas sem carne), está tratando da nossa sobrevivência enquanto espécie humana no planeta Terra. Restam-nos duas opções: ou nos adaptamos conscientemente às mudanças necessárias para criamos um mundo mais sustentável, ou seremos forçados a fazer isso pelo agravamento dos extremos climáticos e catástrofes ambientais.

O espaço ocupado pela pecuária bovina (mais de 200 milhões de hectares, enquanto a agricultura ocupa menos de 80 milhões de hectares), a baixa produtividade de uma cabeça de gado por hectare, o baixo nível de emprego, a ilegalidade e o alto impacto ambiental dessa atividade, devem nortear uma discussão urgente e decisiva sobre essa questão no Brasil. Temos que colocar na ordem do dia a retirada da pecuária da Amazônia, caso contrário qualquer outro movimento em relação ao aquecimento global, perda da biodiversidade, violência no campo, desmatamento, queimadas, será inócuo. Trata-se de decidirmos se o Brasil pretende continuar transformando a Amazônia num pasto e promovendo sua desertificação, para se tornar um exportador de carne barata e de qualidade duvidosa, e como a humanidade sobreviverá num mundo onde tem mais espaço para boi do que para as pessoas. Essa é uma das questões mais relevantes na definição do destino da Amazônia e do planeta hoje.

*Sandra Mara Ortegosaé arquiteta e socióloga pela USP

Phd em Antropologia pela PUC-SP

Por: ForumSec21