20/02/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Democracia e cidadania em Nova Friburgo e no mundo em tempos hipermodernos.

Assim como ocorre em muitas partes do mundo, em Nova Friburgo movimentos sociais lutam contra a falta de participação popular e trazem para as ruas e praças um novo olhar e debate sobre as formas de democracia e de cidadania fazendo frente a um presente de desesperança e um futuro de pessimismo.

Bernardo Fonseca

De tempos em tempos, em diferentes circunstâncias e lugares, testemunhamos o surgimento de diversos movimentos sociais, que surgem sempre com a esperança de conquistar mudanças. Na maioria das vezes esses movimentos perdem força quando seus membros e participantes logo começam a se dissipar até poucos restarem, seja por desesperança de que esses grupos não consigam obter verdadeiras conquistas ou mesmo por uma visão imediatista, onde suas ações não teriam força para obter resultados e êxitos no curto prazo. Fenômeno que ocorre no Brasil e em diversas partes do mundo.

Após a tragédia climática na região serrana fluminense em janeiro de 2011 e diante das dificuldades encontradas nos meses seguintes, cidadãos comuns começaram a se articular em suas comunidades ou via internet com diferentes propósitos, seja angariando doações, organizando equipes de voluntariado e ajudas diversas aos atingidos. Com o passar dos meses, surgiram alguns movimentos virtuais e sociais (Movimento Eco reconstrução da Região Serrana, Nova Friburgo em Transição, Movimento Absurdo) alguns grupos de debate sobre a situação da cidade (Transparência Nova Friburgo, Informações de Nova Friburgo, entre outros), uma ONG surgiu (Diálogo) e outra ampliou sua atuação (EccoSocial da Região Serrana). Essa intensa movimentação inicial deu lugar, na maioria dos grupos, a encontros e reuniões esvaziadas e a paralisação das iniciativas era algo certeiro.

O Grupo Articulação dos Movimentos

Com o propósito de ser um espaço de articulação de ideias e dessas diversas iniciativas populares, de movimentos sociais à ONGs, que trilhavam caminhos separados e viam sua capacidade de mobilização popular diminuir consideravelmente em curto tempo, surgiu, através de um encontro convocado via rede social da internet, o Grupo Articulação dos Movimentos de Friburgo (GAM).

Formado principalmente por friburguenses voluntários e até por pessoas de fora da cidade, desde setembro de 2011, o grupo, que funciona através da internet, vem desempenhando uma série de atividades propostas pelos participantes, com o apoio dos grupos integrantes. Dentre as atividades realizadas esteve uma ocupação da Praça Getúlio Vargas com uma manifestação quando quase 50 pessoas ficaram acampados por 5 dias realizando uma série de protestos. Além dos protestos, o grupo participou da Cúpula dos Povos na Rio+20 com a apresentação da história da cidade antes e depois da tragédia com uma retrospectiva dos fatos que marcaram esses períodos até o surgimento dos movimentos, sempre com um tom de denúncia dos absurdos e das soluções encontradas e encaminhadas pela própria população. Além disso, durante as eleições municipais do ano passado uma carta aberta contendo uma série de reivindicações foi elaborada, divulgada e entregue aos candidatos a prefeito de Nova Friburgo. O objetivo era que os então candidatos se comprometessem a cumprir com as demandas estabelecidas na carta. Na ocasião, também foi entregue aos prefeitáveis um abaixo-assinado com cerca de 3 mil e 500 assinaturas coletadas durante a ocupação na praça.

A integrante do GAM, Carolina Werneck Pimentel, conta que o que a motivou a participar do grupo foi a indignação com a situação da lentidão no processo de reconstrução e a as denúncias de corrupção no uso das verbas.

- “Na época a cidade estava um caos e sentia que como os postos de arrecadação onde era voluntária estavam fechando, precisava sair das discussões virtuais e ir pro real lutar pelo que acreditava ser certo. (...) Ainda há muito a ser feito e é visível que a cidade afunda cada vez mais, em diversos aspectos. Se deixarmos o voluntariado de lado, um voluntariado que é por um bem maior – Nova Friburgo – acabaremos no mesmo local, com os mesmos resultados e poucas providências”.

O que é a hipermodernidade?

O filósofo francês Gilles Lipovetsky oferece uma percepção sobre o momento da história que o mundo vivencia e que poderia explicar, por exemplo, a baixa adesão da população em manifestações e em movimentos.

Em seu livro Os Tempos Hipermodernos, Gilles cunhou o termo hipermodernidade, uma fase da sociedade no capitalismo que seria caracterizada por uma incrível velocidade de informações e de avanços tecnológicos e científicos em uma sociedade cada vez mais consumista, individualista e despolitizada, com a falência dos grandes projetos políticos e das ideologias. Sem esperança na política, sem confiança nos governos e sem esperança no poder do povo, é como se as pessoas ficassem sem um norte, pois em um mundo sem “utopias”, talvez não possa haver esperança de transformação social.

A questão é cultural?

Para a jornalista Amine Silvares, a falta de conhecimento sobre o sentido de democracia por boa parte da população é o grande entrave para que as pessoas cumpram com o seu papel de cidadão.

- “As pessoas não sabem qual a função do legislativo, do executivo e do judiciário. Elas não sabem cobrar ações, elas não sabem cobrar os seus direitos. (...) Temos também a cultura do ‘deixa disso, não vai dar certo’, então pouca gente vai atrás de respostas. Na minha opinião, é cultural, acima de tudo. O brasileiro, em geral, não é educado para questionar e sim para aceitar. Mexer com o status quo do coletivo demanda uma mudança individual muito grande e são poucos os que escolhem sair de sua zona de conforto”.

Mobilização e mudança

Nos últimos anos o mundo acompanhou o surgimento de protestos em massa e até revoluções. No Oriente Médio e no Norte da África ditaduras de décadas foram derrubadas em semanas durante a Primavera Árabe. Nos Estados Unidos o movimento Occupy Wall Street ocupou praças e ruas de centenas de cidades americanas por vários meses entre 2011 e 2012, e provocou um intenso debate na sociedade americana sobre a crise do capitalismo e o enfraquecimento da democracia estadunidense, corrompida pela ganância das grandes corporações. Na Europa não foi diferente. O Velho Continente viu emergir movimentos como o 15-M (15 de Maio), da Espanha, que conseguiu colocar mais de 1 milhão de manifestes nas ruas das principais cidades espanholas e deu origem ao Movimento Democracia Real Já que propõe uma reformulação dos processos democráticos representativos rumo a uma democracia direta.

A formação de grupos como o Occupy Wall Street, 15-M, Democracia Real Já e até mesmo o GAM apresenta um novo olhar sobre um presente de desesperança e um futuro de incertezas, cada uma dentro de suas realidades, diante de sistemas democráticos contaminados por governos corruptos. O uso da internet como uma ferramenta de debate e mobilização é um dos pontos principais para o sucesso dessas iniciativas, mas a capacidade de permanecerem ativos diante de uma sociedade cada vez menos engajada e participativa é a grande questão que só o tempo irá responder.

Bernardo Fonsecaé estudante de Comunicação Social na Universidade Estácio de Sá - fonsecb@gmail.com

Por: ForumSec21