20/02/2013 Noticia AnteriorPrxima Noticia

2013: coragem para se renovar

Leonardo Boff *

H mais de quinze anos atrs publiquei no Jornal do Brasil um artigo sob o ttulo Rejuvenescer como guias. Relendo aquelas reflexes me dei conta como de elas so ainda atuais nos tempos maus sob os quais vivemos e sofremos. Retomo-as para alimentar nossa esperana enfraquecida e ameaada pelas ameaas que pesam sobre a Terra e a Humanidade. Se no nos agarrarmos a alguma esperana, perdemos ohorizonte de futuro e corremos o risco de nos entregarmos ao desamparo imobilizador ou resignao estril.

Neste contexto lembrei-me de um mito da antiga cultura mediterrnea sobre o rejuvenescimento das guias.

De tempos em tempos, reza o mito, a guia, como a fnix egpcia, se renova totalmente. Ela voa cada vez mais alto at chegar perto do sol. Ento as penas se incendeiam e ela toda comea a arder. Quando chega a este ponto, ela se precipita do cu e se lana qual flecha nas guas frias do lago. E o fogo se apaga. Mas atravs desta experincia de fogo e de gua, a velha guia rejuvenesce totalmente: volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude. Seguramente este mito constitui o substrato cultural do salmo 103 quando diz:O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma guia.

E aqui precisamos ser um pouco psiclogos da linha de C.G. Jung que tanto se ocupou do sentido dos mitos. Segunda esta interpretao, fogo e gua so opostos. Mas quando unidos, se fazem poderosos smbolos de transformao.

O fogo simboliza o cu, a conscincia e as dimenses masculinas no homem e na mulher. A gua, ao contrrio, a terra, o inconsciente e as dimenses femininas no homem e na mulher.

Passar pelo fogo e pela gua significa, portanto, integrar em si os opostos e crescer na identidade pessoal. Ningum ao passar pelo fogo ou pela gua permanece intocado. Ou sucumbe ou se transfigura, porque a gua lava e o fogo purifica.

A gua nos faz pensar tambm nas grandes enchentes como conhecemos em 2010 nas cidades serranas do Estado do Rio. Com sua fora tudo carregam, especialmente o que no tem consistncia e solidez. So os infortnios da vida.

E ofogo nos faz imaginar o cadinho ou as fornalhas que queimam e acrisolam tudo o que no ganga e no essencial. So as notrias crises existenciais. Ao fazermos esta travessiapela noite escura e medonha, como dizem os mestres espirituais, deixamos aflorar nosso eu profundo sem a iluses do ego. Ento amadurecemos para aquilo que autenticamente humano e verdadeiro. Quem recebe o batismo de fogo e de gua rejuvenesce como a guia do mito antigo.

Mas abstraindo das metforas, que significa concretamente rejuvenescer como guia? Significa entregar morte todo ovelho que existe em ns para que o novo possa irromper e fazer o seu curso. O velho em ns so os hbitos e as atitudes que no nos engrandecem: a vontade de ter razo e vantagem em tudo, o descuido para com o lixo, o desperdcio da gua e o desrespeito para com a natureza, bem como a falta de solidariedade para com os necessitados, prximos e distantes. Tudo isso deve ser entregue morte para podermos inaugurar uma forma de convivncia com os outros que se mostre generosa e cuidadosa com a nossa Casa Comum e com o destino das pessoas. Numa palavra, significa morrer e ressuscitar.

Rejuvenescer como guia significa tambm desprender-se de coisas que um dia foram boas e de ideias que foram luminosas mas que lentamente, com o passar dos anos, se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar o caminho da vida. Temos que nos renovar na mente e no corao.

Rejuvenecer como guia significa ter coragem para recomear e estar sempre aberto a escutar, a aprender e a revisar. No isso que nos propomos a cadanovo ano?

Que o ano de 2013 que se inaugura, seja oportunidade de perguntar o quanto de galinha existe em ns que no quer outra coisa seno ciscar o choe o quanto de guia h ainda em ns, disposta a rejuvenescer ao confrontar-se valentemente com os tropeos e as crises da vida. S ento cresceremos e a vida valer a pena.

E no podemos esquecer aquela Energia poderosa e amorosa que sempre nos acompanha e que move o inteiro universo. Ela nos habita, nos anima e confere permanente sentido de lutar e de viver.

Que o Spiritus Creator nunca nos falte!

Feliz Ano novo de 2013.

*Leonardo Boff (*1938) doutorou-se em teologia pela Universidade de Munique. Foi professor de teologia sistemtica e ecumnica com os Franciscanos em Petrpolis e depois professor de tica, filosofia da religio e de ecologia filosfica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mais informaes e textos no Blog:

http://leonardoboff.wordpress.com/

Por: Leonardo Boff