27/12/2012 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A sobrevivência da Amazônia depende da preservação dos povos indígenas que nela habitam

“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.” (artigo 231 da Constituição Brasileira)

Sandra Mara Ortegosa

O filme Avatar, de James Cameron, nos mostra que o homem contemporâneo é um predador que age de forma imediatista e cega, deixando de calcular o quanto pode consumir antes de atingir a destruição, e que as chamadas “sociedades primitivas” têm mais sabedoria e riqueza na sua relação com a natureza do que a nossa. A derrubada da árvore-casa dos Na’vi evoca e simboliza toda a destruição que a Terra vem sofrendo e, especialmente, a devastação da Amazônia, com a construção da mega usina hidrelétrica de Belo Monte, provocada pela ganância e perversidade de um sistema econômico que trata a natureza como um obstáculo ao desenvolvimento. O próprio conceito de “(des)envolvimento econômico” sugere uma ruptura no envolvimento com o todo – uma desconexão com a Mãe Terra.

A Bacia Amazônica

e o caso de Belo Monte

A Bacia Amazônica é essencial ao equilíbrio climático global e nela habitam metade de todas as espécies terrestres do mundo, incluindo cerca de 180 etnias indígenas. Belo Monte, se for construída, irá represar o Rio Xingu, que é a fonte de vida das comunidades indígenas da região, alagando mais de 516 km2, consumindo 30 bilhões de reais em investimentos (será a hidrelétrica mais cara e proporcionalmente menos produtiva da história brasileira), provocando o deslocamento compulsório de mais de 30 mil habitantes e a migração de cerca de 200 mil pessoas para a região de Altamira. Irá atingir nove territórios indígenas, desviando 80% da água do Rio Xingu, expulsando milhares de índios da região, além de populações ribeirinhas e comunidades tradicionais de agricultores, ameaçando sítios arqueológicos, biomas com riquíssima biodiversidade, espécies em extinção e paisagens únicas.

Mas o que está por trás desse mega empreendimento que faz com que o Governo Federal, apesar de toda pressão da sociedade civil, não recue na intenção de realizá-lo a qualquer custo?Para além da produção de energia elétrica, Belo Monte é uma forma de abrir caminho para a mineração em terras indígenas viabilizando a maior exploração de ouro da história da Amazônia. Na região do Tapajós, já existem mais de 10 projetos de mineração de ouro de grande porte em processo de licenciamento, tocados por duas empresas canadenses.

No próprio Relatório de Impacto Ambiental de Belo Monte consta que há 18 empresas, entre elas a Companhia Vale do Rio Doce, com requerimento para pesquisa, sete empresas com autorização de pesquisa e uma empresa com concessão de lavra para extração de estanho, evidenciando que o governo pretende autorizar a extração de minérios (principalmente ouro e diamantes) em terras indígenas. Nas imediações dos canteiros de obras de Belo Monte estão concentrados pedidos de autorizações de pesquisa e lavra de minerais nobres, como ouro, diamante, nióbio, cobre, fósforo e fosfato.

Além disso, no atual modelo econômico, os agronegócios (particularmente as plantações de soja e milho transgênicos para alimentar o gado) são o investimento mais rentável.Quase 1/3 das emissões de gases de efeito estufa (que provocam o aquecimento global) é provocada pela pecuária e pela derrubada das florestas para abrir caminho para as plantações de monocultura da soja e do milho, gerando um círculo vicioso onde o aumento da degradação ambiental dificulta a produção de alimentos. A existência de uma bancada ruralista que se impõe em nome de um progresso que só beneficia o agronegócio é resquício da velha política do coronelismo no Brasil contemporâneo.

Um outro momento

se avizinha

Por outro lado, pela primeira vezem milhares de anos, a humanidade está tendo a chance de vivenciar um estado de despertar da consciência coletiva e de realizar as mudanças de paradigmas que conduzam a um mundo de paz e abundância. Nas palavras de Michel Lowy, “temos que tomar consciência da necessidade de uma mudança de rumo, confiando na racionalidade dos seres humanos, sobretudo dos oprimidos e explorados, para que a realidade mude”. Trata-se, de um lado, da preservação da diversidade cultural e natural, ameaçadas de homogeneização e destruição pelo avanço da globalização capitalista, e de outro, da transformação das relações sociais e dos valores individuais e coletivos oriundos da barbárie tecnoburocrática: “o sistema econômico que gerou a crise não pode ser o mesmo que vai nos tirar dela” (Leonardo Boff).

Precisamos de uma matriz energética sustentável, sem destruição de biomas, e de consumo consciente. Não temos necessidade de nenhuma nova megausina hidrelétrica para garantir eletricidade para o povo, não precisamos expulsar povos indígenas e ribeirinhos de seu habitat, não precisamos mais acabar com as belezas naturais para gerar energia. Nós temos um país dotado de uma enorme biodiversidade, terra agricultável em abundância, somos banhados pelo sol o ano inteiro, temos 13,8% da água doce do mundo e temos ventos, ou seja, poderíamos ter toda a nossa energia renovável, eólica, solar, oceânica e outras.

Não há mais tempo para a inércia ou a complacência: o momento é de profundas transformações e de construção de um planeta pacífico, saudável e igualitário, eliminando-se todas as fronteiras geográficas, raciais, políticas, religiosas, culturais e sociais.

A concentração de esforços na construção de uma sociedade fundada em valores como a cooperação, a reciprocidade, o respeito às diferenças, a compaixão e a amorosidade, é um caminho fundamental para a superação da fome e da miséria no mundo. Essa é a escolha que esse ponto de mutação do planeta nos proporciona.

Sandra Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP

Phd em Antropologia pela PUC-SP - sandraortegosa@yahoo.com.br

Por: ForumSec21