19/11/2012 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Santo Daime: A força da floresta

Desde que o ser humano apareceu na Terra, várias formas de religiosidade apareceram com ele. Em tempos imemoriais, cada coisa na natureza era considerada uma expressão da divindade. Os nomes para este tipo de religião ancestral variam: Panteismo, Animismo, Xamanismo, etc. Uma das principais características das religiões “primeiras” da humanidade eram os seus rituais de religação, muitas vezes, acompanhados de danças e da consagração e consumo de plantas consideradas sagradas. Neste artigo antropológico, o professor-doutor Jorge Miguel Mayer nos conta algumas particularidades do Santo Daime, um ritual religioso que se instalou em sincretismo nos povos das florestas brasileiras, a partir da primeira metade do séc. XX.

Santo Daime - a força da floresta

Por Jorge Miguel Mayer

A Amazônia, desde os primórdios do Brasil, suscitou a cobiça do conquistador ocidental que, nela, projetou um Eldorado de riquezas e buscou enriquecimento através da exploração comercial.Com o objetivo de submeter a população tradicional, o conquistador impôs uma verdadeira guerra às sociedades indígenas, desagregando-as e impondo seus valores. Culturas milenares, em sintonia com a floresta, nos legaram suas visões e conhecimentos sagrados, como o uso de uma bebida que abria portas incríveis. Uma bebida capaz de fortalecer comunidades e valorizar a floresta, as plantas, a água, a natureza.

Ayahuasca, Yagé, Caapi, Natema, Cadana, Pinde, Vegetal, e outros nomes têm designado esta bebida que mergulha raízes no mundo indígena da Amazônia ocidental. Ali se construiu a tradição de cura, de pajelança e de espiritualidade que tem como centro a bebida sagrada. Muito conhecida também na área de fronteira entre a Amazônia e países como Peru e Bolívia, a bebida foi assimilada por nordestinos que adentraram a Amazônia na época da borracha

A partir de 1930, um maranhense negro, Raimundo Irineu Serra, após experimentar a bebida, recebeu dela uma revelação que o levou a estruturar um ritual e prática religiosa no Acre, tendo como centro a bebida sagrada, a que chamou de Daime. E assim construiu-se a doutrina que integra elementos cristãos, afro-brasileiros e tradições indígenas.

Os primeiros mistérios

Há um mistério em como o ser humano descobriu certos vegetais e modos de prepará-los.No caso do Daime, é de se perguntar como dentre tantos cipós, escolheu-se o Jagube (Banisteriopsis Caapi), também chamado de Mariri no Acre. E como se descobriu que seus efeitos psicoativos só surgem em combinação com um arbusto conhecido por Rainha ou Chacrona (Psychotria Viridis).

Não basta combinar simplesmente as plantas. É preciso todo um processo de coleta e cozimento que tem suas particularidades. E, sobretudo consagração.Uma bebida que está ligada à tradição das plantas inteligentes que age quando aparelhada pelas mentes humanas. Para quem a consagra, “a bebida tem poder inacreditável”. Como diz hino do Padrinho Sebastião Mota de Melo, transmitindo os dizeres do Daime: “Eu vivo na floresta, eu tenho os meus ensinos, eu não me chamo Daime, eu sou é um ser divino”.

A bebida e o trabalho espiritual

Existe uma grande diversidade de trabalhos com a bebida.Ela nos faz entrar numa história cujo sujeito é o próprio Daime. Segundo minha experiência no Centro da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra(Cefluris) em todos os tipos de trabalho ▬ concentração, hinário, trabalho de cura, estrela ▬ o Daime nos leva a distinguir a verdade da ilusão. Um mergulho na verdade oculta.Grandes linhas do pensamento, como as vindas de Platão e Marx, revelam que é preciso romper o véu da ilusão, da aparência, para conhecer a realidade. E o Daime, “professor dos professores”, nos revela dimensões para além da nossa instância primeira.

Paradoxalmente, o Daime tem sofrido ataques e condenações, sem mesmo se conhecer este Poder. Como dizia Cristo, a boa árvore se conhece por seus frutos. E convido-os para acompanhar a experiência coletiva do grupo que, liderado pelo Padrinho Sebastião, depois de estar instalado comunitariamente em Rio do Ouro, no Acre, teve que partir para outro destino.

A criação do Mapiá

E partiu para a floresta virgem, enfrentando todas as carências e perigos, a exemplo dos decorrentes da elevada incidência de malária. Uma história épica em que um povo totalmente desestruturado recria a sua autoestima e produz uma nova comunidade ▬ Céu do Mapiá no Estado do Amazonas. Isto nos faz lembrar o papel do Daime numa comunidade, o quanto ele a fortalece. E nesta nova vila construíram plantios comunitários, asseguraram subsistência alimentar e assistência à saúde. E hoje, a vila Céu do Mapiá, no Amazonas, é uma respeitável localidade para onde afluem pessoas do mundo inteiro em busca de espiritualidade, renovação e cura.

Segundo o fundador da doutrina do Santo Daime, Raimundo Irineu Serra, “o centro é livre”, o que permite que várias experiências religiosas convirjam para os trabalhos de Daime. Estão presentes o conhecimento e a incorporação de espíritos provenientes das religiões afro-indígenas, e também o cristianismo com a sua prática amorosa. Desmonta-se a ilusão e emerge o princípio criador, presente na combinação de princípios masculinos e femininos.

Em que se baseia o ritual

Se pesquisarmos o ritual encontraremos elementos ancestrais da comunidade humana. Traços indígenas e africanos estão presentes na dança coletiva (bailado) e no uso da música. As vestes remontam a outras influências culturais. Os hinos que nos elevam e requintam os sentimentos são também chamados e expressões do Poder Superior que rompe os limites individuais e faz os participantes alcançarem outro nível de conhecimento.

Se o Daime se faz num caldeirão, podemos usar o caldeirão como o símbolo da produção de uma nova religação: uma nova era nascida da combinação do fogo, da água, do Jagube e da Rainha. E no plano psicofísico, a produção de uma nova bebida em que velhos pensamentos e novas verdades são combinados no fogo oferecendo ao homem um novo caminho.

Um dos padrinhos do Santo Daime, o saudoso Francisco Corrente, dizia numa estrofe de hino recebido: “Sempre digo aos meus irmãos, que existe este Poder. Só enxerga quem merece, só recebe quem obedecer.” E num contexto em que a humanidade está perdendo suas raízes de amor e respeito, sendo consumida pelas ilusões materiais, creio ser significativo que o Daime esteja chegando a cada vez mais lugares. Os tempos estão difíceis, mas há esperança. E o Daime é uma luz que se acende.

Existem hoje inúmeros estudos sobre este fenômeno que ultrapassa qualquer conceituação. Para quem desejar saber mais:

Fernandes, Vera Fróes – História do povo Juramidam: introdução à cultura do Santo Daime. Manaus, SUFRAMA, 1986

Labate, Beatriz Cayuby; Araújo, Wladimyr Sena (orgs.) O Uso Ritual da Ayahuasca, Campinas, São Paulo, Mercado de Letras, FAPESP ,2002

MacRae, Edward- Guiado pela Lua. Xamanismo e uso ritual da ayahuasca no culto do Santo Daime, São Paulo, Brasiliense, 1992

Polari, Alex – O Guia da Floresta, Rio de Janeiro, Record, 1992

O autor é Doutor e professor de históriada Universidade Federal Fluminense

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Por: ForumSec21