01/08/2012 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Rio+20: Desperdício de mais uma oportunidade histórica de mudança de rumo...

A atual crise econômico-financeira que mergulha nações inteiras na miséria nos faz perder a percepção do risco e conspira contra qualquer mudança necessária de rumo”. (Leonardo Boff)

Sandra Mara Ortegosa

Antecedentes históricos da RIO+20

“A primeira conferência internacional da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento aconteceu em 1972, em Estocolmo, quando os governantes mundiais começaram a se preocupar mais seriamente com o resultado desastroso da equação crescimento econômico ilimitado e finitude dos recursos naturais. O termo “desenvolvimento sustentável” surgiu nesse encontro. A ECO 92, por sua vez, foi um marco mundial na discussão sobre o meio ambiente, tendo produzido a Agenda 21, as convenções de combate à desertificação, da diversidade biológica e das mudanças climáticas, ainda que suas metas tenham sido cerceadas pelo avanço do neoliberalismo.

Um outra visão sobre a Rio+20

Após o fracasso da “Conferência de Copenhague” e todos os sinais de aprofundamento do desequilíbrio ecológico em escala planetária, o Rio de Janeiro voltou a ser palco de uma Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável- a Rio+20 –vinte anos após a emblemática Cúpula da Terra (também conhecida como Rio-92 ou Eco-92). Esse novo encontro, porém, aconteceu num contexto ainda mais grave de crise global, onde se torna cada vez mais evidente que o atual modelo econômico, que trata a natureza como um obstáculo ao desenvolvimento, além de insustentável, colocou o futuro do nosso planeta em xeque. Seu objetivo foi a avaliação do progresso e das lacunas na implementação das decisões adotadas pelas principais cúpulas sobre o meio ambiente, e o tratamento de dois temas novos e emergentes: a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza; e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável.

O tema das mudanças climáticas, porém, foi barrado pelos Estados Unidos, país que mais polui e devasta o planeta. Nas palavras de Fritjof Capra, ”as companhias de petróleo compraram os políticos norte-americanos, há uma corrupção enorme e conseguiram fazer com que essa questão urgente não seja nem discutida”.

Situação do planeta se agravou

O fato mais preocupante e lamentável é que o evento aconteceu numa conjuntura onde os dados demonstram que a situação do planeta se agravou significativamente desde a Rio 92, colocando em risco a própria sobrevivência da espécie humana. Apesar dos seguidos alertas da natureza sobre a gravidade do momento, como a incidência cada vez maior e mais intensa de tsunamis, terremotos, tempestades, enchentes, furacões etc, nossos chefes de Estado parecem acreditar na possibilidade de saírem ilesos desta bomba-relógio em que o planeta se transformou. Como já havia alertado o presidente da França, François Hollande, “o mundo está centrado agora na crise econômica, a crise financeira, inquieto por certo número de conflitos como o da Síria”, fazendo com que a urgência máxima do momento – o meio ambiente – seja tratada como uma questão secundária.

Um mega evento inútil?

Os pífios resultados da conferência colocam em questão a própria razão de ser de megaeventos dessa natureza. Segundo Yolanda Kakabdse, diretora internacional da WWF, desperdiçou-se US$150 milhões, que poderiam ter sido investidos em ações de sustentabilidade, para nada .

Desviando o foco para o tema da economia verde, os países ricos “astutamente descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança de olhar sobre o planetaque possa projetar umreal futuro para a Humanidade e para a Terra” (Leonardo Boff).

O documento final da Rio+20, além de não contemplar as propostas da sociedade civil, passa por cima de questões cruciais, como a perda da biodiversidade, a contaminação dos oceanos e a promoção da justiça climática; e não propõe nenhuma mudança estrutural que possa garantir a esperança do “futuro que queremos” (lema do encontro). Abre as portas para a mercantilização dos recursos naturais, sob o pretexto de uma economia verde (que na verdade não passa de uma nova roupagem do velho capitalismo); limitando-se a uma inócua declaração de intenções com falsas soluções de mercado para a crise ambiental, que irão apenas incrementar os lucros das grandes corporações, empresas e bancos, aumentando a concentração da riqueza e acúmulo de capital.

Na visão do economista e sociólogo Inagcy Sachs, nesse caminho “corremos o risco de aprofundar ainda mais a distância abissal que já separa as minorias abastadas, ocupando os camarotes de luxo no convés da Nave Espacial Terra, das massas que disputam o triste privilégio de labuta nos seus sótãos”.

O enfraquecimento dos compromissos assumidos pelos líderes mundiais na Rio 92, tem como uma das razões principais a visão imediatista dos governantes, voltada apenas para as eleições, desestimulando investimentos em sustentabilidade, cujos resultados se apresentam a médio e longo prazos.

O Brasil e Nova Friburgo

No Brasil, onde a Floresta Amazônica segue sendo desmatada no nível de cinco mil quilômetros por ano, dentre os maiores fatores de degradação ambiental figuram as obras públicas mal projetadas e impactantes, como a construção da usina Belo Monte em pleno coração da Amazônia, e a omissão do poder público em relação às ocupações irregulares em áreas de risco, situação que irá se agravar com as alterações do Código Florestal.

No caso de Nova Friburgo e demais cidades da região serrana fluminense, atingidas pela maior catástrofe ambiental da história brasileira, em janeiro de 2011, o grande e urgente desafio é a adoção de medidas que as tornem mais resilientes em relação às mudanças climáticas. Infelizmente, porém, após um ano e meio da tragédia (seguida de uma avalanche de denúncias de corrupção e desvio das verbas de reconstrução da cidade), as poucas ações do poder público não apontam em direção às mudanças necessárias, persistindo na repetição dos erros do passado.

Esse é o caso do imenso conjunto habitacional que irá alojar a população de mais de dois mil desabrigados. Ironicamente, o local escolhido (denominado “Caminho do Céu”), em Conselheiro Paulino, é também uma área de risco, sujeita a enchentes e deslizamentos de terra, onde ocorreu o desabamento de cinco casas em janeiro do ano passado, vitimando famílias que já tinham sido realocadas de um bairro vizinho, após uma catástrofe em 2007. Esse mega empreendimento imobiliário, capitaneado pela Odebrecht, além de altamente impactante ao meio ambiente, envolve um investimento de vulto em obras de infraestrutura, tais como, uma gigantesca terraplanagem, enormes muros de contenção, obras de macrodrenagem etc. Paradoxalmente, na área central de Nova Friburgo existem vários edifícios vazios, como é caso do complexo industrial da Arp entre outros, que poderiam ser reciclados para fins habitacionais, numa resposta mais digna e sustentável para o problema. Com a aproximação das eleições municipais, essa poderia se tornar uma das principais bandeiras de luta dos movimentos sociais envolvidos na reconstrução de Nova Friburgo.

Mais do que nunca, precisamos elaborar e pôr em prática estratégias de desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente includente, que nos levem em direção ao futuro que queremos, antes que seja tarde demais.

Sandra Mara Ortegosa (sandraortegosa@yahoo.com.br) é Arquiteta e socióloga pela USP e Phd em Antropologia pela PUC-SP

Por: ForumSec21