01/08/2012 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Cúpula dos Povos denuncia o fracasso da Rio+20 e aponta a necessidade urgente de engajamento da sociedade

Em sua história, o ser humano já enfrentou muitas adversidades até chegar ao presente momento, porém, nada se compara ao tamanho da encrenca em que se encontra atualmente...

Bernardo Fonseca

Sob as árvores do Aterro do Flamengo, milhares de pessoas de todo o mundo se encontraram para debater o futuro da vida na Terra. Homens, mulheres, índios, negros, brancos, camponeses e cosmopolitas, ricos e pobres, reunidos na Cúpula dos Povos, para denunciar as falsas soluções da Rio+20 e encontrarem uma saída para a crise social, econômica e ambiental.

Desde que terminou, em 22 de junho, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, ativistas, ambientalistas, ONGs e governos consideraram como fracasso os resultados obtidos.

O grande encontro global, que ocorreu exatos 20 anos após a realização da “Eco-92”, não conseguiu produzir nenhum compromisso concreto por parte dos governos na garantia de uma agenda de transição de uma economia insustentável e em crise para uma economia que garanta prosperidade, justiça social e preservação ambiental.

Enquanto no Rio Centro um grupo restrito de pessoas tentavam ditar os rumos da humanidade, do outro lado da cidade,sob as árvores do Aterro do Flamengo, pessoas de diversas partes do mundo discutiram soluções alternativas aos caminhos apresentados durante a Rio+20.

A Cúpula dos Povos

por justiça social e ambiental

A Cúpula dos Povos reuniu uma enorme variedade de movimentos sociais, ONGs e cidadãos comuns, dispostos a fazer com que suas vozes fossem ouvidas pelos líderes mundiais.

Apesar da não devida divulgação pela mídia, o encontro ficou dentro das expectativas.

As 300 mil pessoas que passaram pelas atividades, discutiram a crise do sistema capitalista e os desafios da sustentabilidade, em contraponto a controversa proposta de economia verde, defendida pela ONU, mas que não apresenta soluções para um modelo econômico esgotado e sem perspectivas, É um sistema capitalista “pintado” de verde, logo, não sustentável por se basear num crescimento ilimitado em um planeta que atingiu o seu limite.

Uma das principais bandeiras que levaram a realização da Cúpula dos Povosfoi a crítica aos falsos mecanismos de participação da conferência Rio+20, que em nenhum momento ouviu o que a sociedade civil tinha a dizer sobre o futuro. Como prova disso, no último dia da Rio+20, cinco representantes da Cúpula dos Povos foram convidados para um encontro com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Na reunião, os representantes entregaram um documento contendo uma síntese dos temas que foram discutidos. Ao se declararem contrários a proposta de economia verde, o secretário da ONU, surpreso, perguntou:

- “Mas se vocês são contra a economia verde, como vamos salvar o mundo?”.

O conservadorismo

dos interesses financeiros

Como resultado do conservadorismo por parte da governança mundial, da influência das grandes corporações e interesses financeiros acima do bem comum, o mundo desperdiçou mais uma chance de acelerar os passos rumo a outro futuro.

Passando por cima dos avanços obtidos desde a Rio 92, o pífio documento final da Rio+20 manteve o discurso das falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocam a crise global, legitimando um modelo preexistente e danoso ao futuro do planeta, adiando, mais uma vez, as reais necessidades de mudança.

O caso da região serrana

Um exemplo concreto desse conservadorismo é a tragédia das enchentes e deslizamentos de terra de 2011, na região serrana do Rio de Janeiro. Soma-se a irresponsabilidade do poder público durante anos de ocupação irregular, onde as populações mais pobres foram obrigadas a se instalarem em encostas, topos de morro e margens de rio, e também as mudanças climáticas em curso e falta de visão estratégica no processo de reconstrução dos municípios afetados, sem atentar adequadamente para a questão da sustentabilidade. Um tema que, diga-se de passagem, foi muito pouco debatido tanto na Cúpula dos Povos como na Rio+20.

Cada um por sí ?

Todo o processo da conferência mostrou que, em um mundo que patina em uma crise econômica profunda, a idéia de multilateralismo nas decisões importantes vem se enfraquecendo, enquanto a ideia de cada país por si, que vem sendo liderada principalmente pelos EUA, ganha força. O problema é que um assunto tão delicado como o desenvolvimento sustentável não pode ser tratado de forma individual, mas deve ser encarado de forma coletiva, principalmente, quando falamos de um mundo com uma economia cada vez mais globalizada, onde a poluição de uma fábrica na China, por exemplo, afeta todo o planeta.

A grande urgência planetária no momento é fazer com que as sociedades compreendam que tudo está interligado. O tênis que você usa foi fabricado na China. A sua televisão foi fabricada com peças da Malásia, Cingapura e Hong Kong. A madeira do seu móvel veio da Colômbia. As frutas que você consome vieram da África. O banco em que você é cliente é da França. A sua operadora de celular pertence a uma empresa italiana. Não é mais possível continuar lidando com o problema de forma individual.

Após nove dias de trocas de saberes, diversas manifestações e confraternizações dos povos, a Cúpula dos Povos produziu um documento contendo um resumo das questões abordadas pelos participantes como um chamado aos povos para que continuem na luta e que se posicionem, de fato, como sujeitos na busca por uma “outra relação entre humanos e humanas e entre a humanidade e a natureza, assumindo o desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo e de construir novos paradigmas de sociedade” (trecho inicial do documento).

A declaração final critica os falsos caminhos apontados por governos e grandes corporações e aponta soluções dos povos frente às crises, assim como os principais eixos de luta a se seguir.Entre os itens apresentados estão: mudança da matriz energética, reconhecimento da dívida histórica social e ecológica, violência contra a mulher e garantia de conquista de direitos das minorias, entre indígenas, negros, mulheres, jovens, agricultores e camponeses, povos e comunidades tradicionais etc.

Hoje, os sete bilhões de seres humanos na Terra consomem 1 planeta e meio. Diversas partes do globo já sentem os impactos da exploração predatória dos recursos naturais, do desmatamento sem limites, da poluição dos oceanos, da extinção de espécies animais, dos problemas de saúde nos grandes centros, da escassez da água e também do petróleo.

Um outro mundo é possível?

O homem já enfrentou diversas adversidades até chegar ao presente momento, porém nada se compara ao tamanho da encrenca em que se encontra. Ao mesmo tempo, nunca a humanidade nunca teve tanto conhecimento e oportunidade de seguir em outro rumo e de proporcionar outro futuro para o presente e para as futuras gerações. É possível aliar prosperidade econômica sem destruição e consumir sem ser consumido. Mas enquanto a voz da sociedade não for escutada, não haverá verdadeira mudança. Só há uma “Rio+20” que pode trazer de volta a esperança por um mundo melhor: a mudança de cada um de nós e a responsabilidade que devemos assumir perante a vida na Terra.

Bernardo Fonseca (fonsecb@gmail.com) é estudante de comunicação na Universidade Estácio de Sá

Por: ForumSec21