29/05/2012 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Aprendendo a se comunicar em grupos

Um dos nossos principais problemas é a nossa incapacidade de dialogar sobre questões coletivas. A experiência de debater questões importantes acaba se tornando uma dor de cabeça por conta da nossa imaturidade em compreender o ponto de vista dos outros e dizer o que pensamos com respeito e consideração. Temos que compreender a comunicação em grupos para avançarmos na construção social. São três os passos iniciais que temos que aprofundar: 1 - Tomada de decisão coletiva, 2 - Comunicação não violenta e 3 - Resolução pacífica de conflitos.

Beto Grilo

O processo evolutivo da humanidade passa por sua capacidade de agrupar-se e viver em coletivos. No entanto, com o passar dos milênios o ser humano transformou radicalmente a sua forma de organizar-se e viver em bando.

Se outrora as tribos se organizavam de maneira horizontal e circular, nos tempos modernos, o Homo-sapiens se organiza de maneira vertical e cartesiana. Essa mudança acarretou inúmeras dificuldades e distorções no modo de viver em sociedade. Se observarmos de maneira mais detalhada e ao mesmo tempo mais abrangente, podemos constatar que a decadência do nosso modelo de vida em coletivos passa pelos modelos de participação nos grupos.

Sabemos nos relacionar em grupos?

Podemos observar as tentativas atuais de organizar grupos e vamos nos deparar com questões muito semelhantes entre as experiências. O conceito de individualidade egoísta, construído ao longo dos séculos, deturpou o sentimento de pertencimento e de responsabilidade e criou um abismo que impede a integração. Apesar de querer viver junto, o ser humano não consigue superar questões básicas para o bom funcionamento do coletivo.

São pelo menos três questões fundamentais a serem trabalhadas para que possamos ser bem sucedidos no viver e nos organizar coletivamente:

1- Tomada de decisão coletiva

Tomar qualquer tipo de decisão é uma tarefa muito difícil, porque é carregada de responsabilidades. Gera ansiedades e uma série de outros sentimentos. Quando essa tarefa precisa ser feita por mais de uma pessoa e diz respeito ao viver em sociedade, as decisões precisam contemplar as necessidades de um número maior de indivíduos, então, justamente aí que nascem os grandes conflitos.

Na maioria das vezes as decisões são dificultadas por atitudes egocêntricas e egoístas de alguns, ou por falta de pre-paro do grupo para usar ferramentas apropriadas para as decisões. O mais comum é vermos os grupos adotando um modelo democrático baseado no voto, aberto ou secreto, onde a vontade da maioria suprimi a vontade da minoria. Sabemos que o fato de existir uma minoria insatisfeita, não contemplada, gera dentro de qualquer grupo um sentimento de disputa e competição, um ambiente não propício à coletividade.

Em contraposição ao modelo sufragista democrático, encontramos o método do consenso, onde ao apresentar uma proposta para ser discutida e delibe-rada, o indivíduo precisa, antes de tudo, ter clareza e compromisso com o que está propondo. Precisa entender o momento e a forma de apresentar aos seus pares a sua visão e entender que ela pode e deve ser modificada pela visão dos demais. O papel do facilitador do grupo é fundamental; nas tribos o cacique não é o que representa o grupo com de sua opinião pessoal, mas aquele que tem discernimento para perceber o que o grupo precisa e ajudar a coletividade a chegar em uma visão comum. Muitas vezes, tomar uma determinada decisão pode levar muito tempo e isto deveria ser levado em consideração e respeitado por cada indivíduo, o que é um grande desafio na sociedade contemporânea onde tudo é urgente e o tempo é tido como um inimigo, que deve ser ultrapassado e derrotado.

2 - Comunicação não violenta

Na maioria dos casos, a dificuldade de tomar uma decisão de maneira coletiva passa antes de tudo por uma dificuldade enorme de comunicação entre os membros do grupo, pois muitas vezes vemos claramente que as pessoas concordam em suas proposições mas, mesmo assim, não conseguem se fazer entender. Assistimos geralmente reuniões pouco produtivas, onde as pessoas não se escutam, não respeitam a fala do outro e a maneira peculiar de cada um se fazer entender ou se comunicar. Assim, as coisas não caminham... Normalmente aqueles que conseguem ter uma atitude mais agressiva conseguem se colocar melhor diante dos outros indivíduos e acabam usando seu poder de argumentação e sua agressividade para fazer valer sua opinião e angariar simpatizantes para suas propostas.

Já aqueles que têm maior dificuldade de falar em grupo ou têm uma postura mais passiva, e acabam sendo completamente atropelados e ignorados em suas opiniões e colocações para o grupo.Geralmente, raras vezes, se sentem com espaço dentro dos projetos de coletividade e acabam canalizando suas frustrações através da disseminação de comentários pessoais em fóruns reduzidos ondegeram um ambiente de discórdia e intrigas.

Exercitar a paciência, a capaci-dade de escuta e o poder de síntese podem ser as bases para começar a se construir uma nova forma de comunicar. Trabalhar o tempo de fala e o poder da palavra como algo que nos trás responsabilidade é uma forma de começar a construir um novo modelo de comunicação.

Existem métodos para a cons-trução de uma comunicação não violenta. Muitos profissionais oferecem capacitação aos grupos para que estes se reabilitem e dissolvam suas dificuldades na forma como seus indivíduos se comunicam de maneira interna e externa ao grupo.

3 - Resolução pacífica de conflitos

Mesmo adotando novas ferramentas de tomada de decisão, os grupos não estão livres de conflitos. Aliás o conflito é visto como algo pernicioso e que ameaça os projetos humanos, no entanto, o conflito pode ser algo extremamente favorável, que contribui para o amadurecimento e crescimento do projeto coletivo. O problema não está no conflito em si, mas na forma como lidamos com ele.

Geralmente quando o grupo a-colhe o problema, e encara como algo que precisa ser resolvido sem apegos egóicos e sem personificações, os conflitos deixam de ser ameaça e passam a ser um fator de fortalecimento do grupo. Muito conflitos surgem da falta de espaço de expressão dos sentimentos individuais e as frustrações e ansiedades acabam gerando interpretações falsas da realidade e da intensão do outro, o que proporciona terreno fértil para a discórdia.

Mesmo em um grupo o indivíduo deve ser valorizado.

Se dentro das agendase planejamentos estiver garantido um espaço para a autossatisfação e expressão individual e se ao grupo está garantido um espaço onde pode oferecer um feed-back ao indivíduo quanto a sua participação e postura dentro da coletividade, raramente veremos o surgimento de conflitos insolúveis, ou de ataques pessoais.

De maneira geral precisamos de forma urgente reaprender a estar junto. Fazendo uma imagem ilustrativa e metafórica, precisamos não apenas sentar em círculo mas entender que um círculo funciona e se organiza de maneira diferente a uma plenária. O poder compartilhado é fruto da visão compartilhada, o ego deve ser diminuído mas não sufocado. O indivíduo não pode virar “massa” dentro dos coletivos e dos grupos. A individualidade não deve ser confundida com o individualismo e nem com o egocentrismo ou egoísmo. Dentro de uma coletividade não existe o meu lado e o seu lado, existe apenas o NOSSO lado. Trabalhar junto é difícil, mas foi o que garantiu a espécie humana chegar até aqui nessa história evolutiva dentro da história do planeta Terra. Precisamos voltar a ter prazer e tranquilidade em estar junto, reaprendendo a importância do outro e entendendo que ele e tão humano quanto nós, o que o coloca no mesmo patamar que cada um dos indivíduos.Como dizia a civilização antiga Maia: “ Eu sou outro você”. Desse modo novas e velhas formas de coletividade precisam ser engendradas para que nossa espécie possa continuar se perpetuando de maneira saudável e para que possamos realmente lograr sucesso em nossa em-preitada comum-unitária.

Beto Grillo é artista e produtor cultural

betogrilo@yahoo.com.br

Por: FórumSeculo21