21/03/2012 Noticia AnteriorPróxima Noticia

As nossas cidades são pensadas para autómóveis e não para pessoas.

“Jamais mudaremos algo combatendo o existente. Para mudar alguma coisa há que se criar um novo modelo que torne o existente obsoleto”. (Buckminster Fuller).

Sandra Ortegosa

O consumo excessivo e irracional dos recursos naturais nas cidades atuais é o principal responsável pelo gigantesco desequilíbrio ambiental no planeta: as cidades emitem dois terços dos gases de efeito estufa a nível global, consomem enormes quantidades de energia e água, provocam o esgotamento do solo, contaminam as águas e devastam enormes áreas de florestas. Mais da metade da população mundial vive atualmente em áreas urbanas e essa proporção tende a aumentar, à medida que o campo se esvazia, colocando em cheque a própria sobrevivência da espécie humana.

O automóvel é o vilão desta história

A pegada ecológicade uma cidade (quantidade de terra e água necessárias para sua subsistência) depende das características de sua urbanização. Na visão de diversos urbanistas, o automóvel provoca a desorganização do território, induzindo a ocupação espraiada do solo e a destruição da cidade.A presença crescente dos automóveis está no cerne da atual crise da vida urbana, tornando nossas cidades cada vez mais segregadas, dependentes de petróleo e, portanto, insustentáveis.

No Brasil, cujo modelo de urba-nização é baseado no uso cada vez maior do automóvel, são as indústrias automotivas e as grandes empreiteiras que direcionam os investimentos urbanos. Seguindo a lógica do mercado imobiliário e do rodoviarismo, praças e ruas de significativo valor histórico e/ou afetivo são sacrificadas para dar lugar às vias expressas, estacionamentos e viadutos. Avenidas rasgam bairros inteiros, desestruturando redes interpessoais, para alimentar o capital imobiliário e continuar incrementando a expansão das indústrias automotivas. Esses investimentos, por sua vez, estão vinculados aos financiamentos das campanhas eleitorais, fazendo com que a prioridade às obras viárias esteja presente nos orçamentos municipais de todas as cidades, conduzindo-as a uma situação de caos generalizado.

A morte das grandes cidades

Já no início dos anos 60, vários ativistas e pensadores, como a jornalista e socióloga Jane Jacobs em seu famoso livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”, criticavam o desenvolvimento antiurbano da América do pós-guerra, incentivando os urbanistas a reconsiderarem a habitação unifamiliar, os bairros dependentes do carro, os centros comerciais e conjuntos habitacionais segregados, que tinham se tornado a norma.

A hora é do urbanismo sustentável

Inspirados nestes primeiros dissidentes, o Urbanismo Sustentável emergiu nos anos 70, como uma reação ao “espraiamento” ou suburbanização das cidades americanas, defendendo propostas de comunidades mais compactas e com uma mescla das diversas funções urbanas em estreito relacionamento entre si, contornos bem definidos e ênfase no transporte público e na “caminhabilidade”.

Imagine um lugar onde a vida diária não dependa do uso do automóvel e as crianças possam caminhar sozinhas ou irem de bicicleta até a escola mais próxima de sua casa, de forma segura e agradável, passando por parques, praças e ruas com calçadas largas e arborizadas. Apesar de parecer utópico, isso está se tornando cada vez mais possível em cidades pensadas para as pessoas e não para os carros. A idéia fundamental, por trás desse novo paradigma, é a de que uma cidade mais “caminhável” também será uma cidade mais equilibrada em termos ecológicos. Ou seja, reduzindo-se o uso do automóvel, mediante a diminuição da necessidade de deslocamentos para fora do bairro, minimizam-se também os problemas de poluição atmosférica, aquecimento global, consumo energético, congestionamentos etc.

A pegada de carbono dos nova-iorquinos, por exemplo, é a metade da pegada dos moradores de Denver, e isso se deve à maior densidade populacional de Nova Iorque. Enquanto os moradores de Denver vivem em grandes casas de subúrbio e dependem do carro para ir a qualquer lugar, os de Manhattan moram em edifícios de apartamentos e podem andar de metrô ou a pé.

Copenhague, conhecida como a cidade das bicicletas, ampliou os calçadões de pedestres que cruzam as esquinas, diluindo os limites entre áreas de trânsito e áreas para pedestres. Esse “espaço compartilhado” obriga os motoristas a diminuírem a velocidade, aumentando a segurança no trânsito. Em Vauban, na Alemanha, o poder público foi mais radical: os carros foram completamente banidos e as pessoas circulam de bicicleta ou viajam de bonde até Freiburg, a cidade vizinha. Avenidas asfaltadas, viadutos e estacionamentos foram substituídos por jardins, e as crianças brincam nas ruas.

Numa cidade compacta as distâncias podem ser percorridas a pé ou de bicicleta, alcançando-se facilmente as estações de transporte público (ônibus, metrô, trem etc.). A malha viária e os estacionamentos podem ser reduzidos, dando lugar a espaços de lazer, parques e hortas urbanas. Além disso, uma maior concentração de pessoas num espaço onde os locais de trabalho, moradia, escola e serviços estão mais próximos, possibilita o fornecimento de eletricidade, água, alimentos e transporte de modo mais eficiente e com menos desperdício.

Urbanismo Sustentável no Brasil

No Brasil, o Urbanismo Sustentável é pouco praticado, mas já existemexperiências isoladas que se tornaram referência internacional, como o sistema de transporte público em Curitiba: um sistema de ônibus de circulação rápida, conhecido como “ligeirinho”, que começou em 1974 com 25 mil passageiros/dia e hoje transporta 2,2 milhões de passageiros/dia. Apesar da duplicação do número de habitantes, o tráfego de veículos particulares diminuiu 30%. O arquiteto Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba, afirma que, havendo vontade política, pode-se transformar uma cidade para melhor emapenas três anos. Além do desestímulo ao automóvel existem muitas outras iniciativas que as cidades podem adotar para reduzir seu impacto ambiental, tais como construções ecológicas, reciclagem deedifícios desocupados e de interesse histórico, emprego de energias renováveis, reciclagem de água e lixo, incentivo ao uso de bicicletas, tratamento biológico do esgoto, hortas orgânicas etc.

Reflexões para Nova Friburgo

Em Nova Friburgo, a crise do setor de transporte público, monopolizado pelas empresas FAOL e 1001, não será superada sem a injeção de investimentos públicos em soluções pautadas numa visão de mobilidade urbana sustentável. O índice de motorização do município já está próximo de São Paulo (1 automóvel para cada 2 habitantes), que vive hoje problemas gravíssimos de congestionamentos e deseconomias urbanas, especialmente durante o período de enchentes. Com a diminuição do número de automóveis em circulação, faixas ocupadas para o estacionamento de veículos poderiam ser transformadas em ciclovias e em novos espaços públicos para os pedestres. Se quisermos ter uma cidade mais resiliente e menos vulnerável às crises econômicas e ambientais, temos que começar uma transição imediata para um modelo de desenvolvimento urbano sustentável. A perspectiva de uma renovação no quadro político do município, a partir das próximas eleições, pode abrir uma possibilidade para que isso possa se concretizar. Nova Friburgo, com sua extraordinária beleza paisagística natural, tem tudo para se tornar uma cidade-parque com uma vida cultural bastante rica e atraente.

Sandra Ortegosa é arquiteta e socióloga pela USP e PHD em Antropologia pela PUC SP - sandraortegosa@yahoo.com.br

Por: ForumSec21