31/12/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A maior crise mundial desde 1929: levantes e avanço da repressão

“Este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo” (Eduardo Galeano).

Sandra Ortegosa

Cada vez mais se torna evidente que o planeta como um todo está imerso num momento decisivo de crise e transição, onde duas tendências se opõem claramente: de um lado, as crescentes manifestações de indignação e protesto contra as injustiças inerentes à globalização capitalista e, de outro, o avanço da repressão tentando impedir o grito das multidões, seja nas ocupações de praças e ruas de cidades do mundo inteiro, seja nas universidades, onde o movimento estudantil também começa a renascer.

Retomando um velho ditado: estamos na presença de algo novo, que está nascendo, mas que ainda não nasceu, e de algo velho que ainda não acabou de morrer.

Crises do Capitalismo

No entanto, esse quadro de agonia que o capitalismo está atravessando atualmente não é recente. Ele teve início no final da década de 20, com a grande crise de 1929 e, desde então, como metaforiza Saramago em seu brilhante ”Ensaio sobre a Cegueira”, a humanidade tem cami- nhado de maneira cega em direção à barbárie. Cada nova crise conjuntural reproduz a violência contra os traba- lhadores, o desemprego em massa e o rebaixamento dos salários.

Paradoxalmente, porém, o avanço dessa crise mundial e da atual onda repressiva, tem estimulado o despertar e levante das massas em diversas cidades do planeta, como abordamos na matéria “Multidões ocupam praças do mundo por mudanças globais”, publicada no número anterior deste jornal.

As empresas multinacionais são hoje mais poderosas que o próprio Estado ou Governo e seu objetivo é mercantilizar tudo o que for possível no planeta, custe o que custar. O Banco Mundial, principal credor do chamado Terceiro Mundo, é quem verdadeiramente governa nossos países e lhes impõe sua política econômica. Os interesses corporativos que dominam o cenário econômico mundial impedem uma melhor distribuição da riqueza e dilapidam os recursos naturais, gerando a fome, o desemprego, as guerras, os desastres ambientais e a assustadora escalada da violência. Como afirma Eduardo Galeano, em 4 Mentiras Sobre o Ambiente, “a divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques”.

Nos Estados Unidos, as atuais taxas de desemprego são altíssimas (quase 9%) e milhares de trabalhadores, na sua maioria desempregados, aposentados e pais de famílias com crianças, recentemente saíram às ruas em Nova York, numa marcha em solidariedade ao movimento “Ocupe Wall Street”, que há aproximadamente dois meses ocupa um parque próximo ao centro financeiro da cidade. Em reação à degradação de suas condições de vida e à ausência de uma democracia real, trabalhadores e estudantes continuam parando a produção e saindo às ruas para se manifestar.

Situação da Europa

A Europa encontra-se à beira do abismo: analistas do banco JPMorgan estimam que os bancos europeus necessitam de cerca de € 200 bilhões (quase R$ 500 bilhões) para se salvar. Este montante equivale a aproximadamente 15% do PIB do Brasil. Se a Alemanha e a França forem definitivamente contaminadas pela crise financeira, arrastadas pela Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e Itália, 60% da economia européia entrará em colapso, expandindo definitivamente a crise para o resto do mundo. Segundo a própria presidente do FMI, Christine Lagarde, “há risco de uma recessão global em espiral” se se perder o controle da situação grega, que tem uma dívida superior aos 350 bilhões de dólares, e aepidemia de bancarrota pode estender-se por todos os países da União Europeia.

O momento brasileiro e da América

No Brasil, apesar de Dilma afirmar que o país está preparado para enfrentar a crise, alguns setores já dão sinais de desaquecimento, como é caso da indústria automotiva. A situação social no Brasil, ao contrário do que afirma a presidente, está longe de ser um exemplo a ser seguido: milhões de jovens oriundos da classe trabalhadora, sem encontrar qualquer perspectiva de vida digna, envolvem-se com o crime e acabam perdendo a vida prematuramente. A taxa de homicídios de jovens entre 19 e 23 anos no Brasil é de 60 por 100 mil habitantes, quase nove

vezes maior que a média mundial (6,9 homicídios por 100 mil habitantes).

A violência urbana na América, assim como na África, é uma das mais altas do mundo (16 mortes por 100 mil habitantes), muito superior à dos outros continentes (3 a 4 homicídios por 100 mil na Europa, Ásia e Oceania). A América vive como se estivesse sobre um barril de pólvora com o estopim aceso: inúmeros jovens americanos são barbaramente assassinados todos os dias numa espécie de guerra civil molecular. Segundo Enzensberger: “a guerra civil molecular inicia-se discretamente sem que haja uma mobilização geral. Pouco a pouco, multiplica-se o lixo nas ruas. No parque, amontoam-se seringas e garrafas de cerveja quebradas. Nas paredes surgem pichações monótonas, cuja única mensagem é o autismo: elas exorcizam o eu que já não mais existe. Na sala de aula os móveis são destroçados, os jardins fedem a urina. Trata-se de declarações de guerra mudas e diminutas, mas percebidas pelo experiente morador da cidade. Logo se revela o anseio por um gueto mediante sinais eloqüentes. Pneus são furados, telefones de emergência inutilizados, automóveis incendiados. Nas ações espontâneas se expressa a raiva das coisas em bom estado, o ódio por tudo que funciona e que forma um amálgama indissolúvel com o ódio por si mesmo”.

Superação da crise

A economia mundial encontra-se numa fase muito perigosa e, se esse sistema injusto e excludente não for superado, a tendência é o aumento dessa guerra civil molecular, apontada por Enzensberger, e o avanço da repressão aos movimentos sociais, aprofundando-se o caráter bárbaro da sociedade contemporânea. Seguramente essa conjuntura irá acirrar o ciclo de rebeliões populares que parece estender-se mundialmente.

A crise econômica mundial, portanto, coloca em destaque e acentua a luta entre dois projetos de sociedade: um baseado na violência das classes dominantes contra os traba-lhadores e, outro, baseado na preservação da vida de toda a humanidade, mediante a mobilização dos trabalhadores e estudantes para enfrentar a crise, defendendo seus direitos e me-lhores condições de vida.

Os novos movimentos sociais podem ter papel decisivo nessa encruzilhada histórica. A única verdadeira utopia é acreditar que as coisas possam continuar indefinidamente como estão. Como sinaliza Salvador Allende: “A história é nossa e a fazem os povos”.

Sandra Mara Ortegosa - Arquiteta e socióloga pela USP

Phd em Antropologia pela PUC-SP - sandraortegosa@yahoo.com.br

Por: ForumSec21