31/12/2011 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia não pode fechar

Não bastasse a tragédia ocorrida em 11 de janeiro e a confusão política do município, corremos o risco de sermos atingidos também em nosso DNA cultural, com o possível fechamento da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. A matéria abaixo, do professor Ricardo Gama (RICO), tenta compreender o fenômeno para que possamos tentar evitá-lo.

Ricardo Gama (Rico)

A notícia do possível fechamento da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia caiu como uma bomba nos meios educacionais, culturais, intelectuais e artísticos de Nova Friburgo e cidades vizinhas. Afinal, a Instituição é reconhecida pelotrabalho sério e competente desenvolvido há mais de cinquenta anos em toda a região centro-norte fluminense, dedicado principalmente à formação de professores, além de ser um verdadeiro centro cultural, promotor de inúmeras atividades no campo da educação e da cultura, seminários, palestras, debates políticos (foi a primeira instituição a promover debates eleitorais nos estertores da ditadura, em 1982), peças de teatro, shows musicais, etc.

O fechamento da FFSD seria mais um desastre anunciado num ano pródigo de tragédias na nossa cidade. Como muito bem já lembrou o amigo e mestre João Raimundo, seria uma tragédia cultural, depois do desastre climático de janeiro e da situação política extremamente instável vivida por Nova Friburgo.

O caos político

O governo eleito, estruturado sobre bases políticas desconexas, reunindo antigos adversários, já havia representado o início do caos, que se instalou em definitivo com sua doença e a tragédia de janeiro. Mas a cidade já vinha vivendo, há tempos, outra tragédia: a de ordem econômica e social, com o fechamento de indústrias, demissões, absurda rotatividade de trabalhadores nas empresas, desrespeito sistemático dos patrões aos direitos sociais e trabalhistas, redução de salários.

O problema econômico

É tristemente significativo que, no ano em que se comemora o centenário da indústria friburguense, justamente as três grandes fábricas que inauguraram o processo de industrialização na cidade viveram ou vivem situações de falência: Rendas Arp, Ypu e Filó. Sabemos que o setor industrial representa, ainda, além dos serviços e do comércio, parte fundamental da produção de riqueza no município, mas, com exceção do ramo metal-mecânico e das indústrias têxteis que restam (Hak e aSinimbu), a imensa maioria dos empregos industriais – localizados no setor do vestuário – são precarizados, com baixos salários e sem garantias plenas de direitos.

A realidade de baixos salários e desrespeito aos direitos sociais também se verifica no setor público, no comércio e na prestação de serviços. Esta tragédia social tem muita relação com o quadro de crise experimentado pela Faculdade Santa Dorotéia, pois, nos últimos anos, verificou-se a redução do número de alunos ingressantes na instituição. Além da conjuntura nacional francamente desfavorável à formação de professores, em função dos péssimos salários, das precárias condições de trabalho, do assédio moral nas escolas, da violência contra o professor – apesar da propaganda enganosa do governo federal – há o quadro local de acirramento da competição entre instituições privadas, de disseminação do ensino à distância nas licenciaturas e de redução do poder aquisitivo dos trabalhadores. É preciso lembrar que os alunos da FFSD são, na sua imensa maioria, trabalhadores: professores da educação básica nas redes pública e particular, comerciários, prestadores de serviços, empregados de confecções, etc.

Relação com a conjuntura mundial

Numa sociedade em que as relações capitalistas avançam cada vez mais celeremente, seria inevitá-vel, mais cedo ou mais tarde, que uma faculdade isolada passasse a viver dificuldades. A sociedade capitalista empurra para o gueto as pequenas instituições, principalmente aquelas cujos valores e princípios orientam-se para muito além do que determina o Deus Mercado. A FFSD não soube ou não quis se adaptar aos novos tempos. Resistiu enquanto pôde – graças inclusive à presençainterna de um combativo grupo de professores – às imposições do capital: apesar de algumas medidas visando à diminuição de gastos (dentre as quais a mais impactante foi a mudança na grade curricular), não predominou a lógica – até agora, pelo menos – do desrespeito sistemático aos direitos dos profissio-nais da educação, a exemplo das “reengenharias”, “reestruturações produtivas” e ações “empreendedoras” tão comuns em tempos de globalização neoliberal.

Uma História de fidelidade a princípios

Talvez por manter-se fiel a princípios dedicados a uma educação humanista, solidária, de espectro científico e cultural, na contramão da formação tecnicista e imediatista, voltada a atender às necessidades mercadológicas, a FFSD esteja hoje nesta situação.

Esperamos que a decisão da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéia, de não mais continuar mantendo a Faculdade e passar a se dedicar quase que exclusivamente aos colégios e à educação básica, não represente uma rendição tardia aos imperativos do mercado. Seria o final inglório de uma bela história construída há 55 anos.

No ano de 1956, as freiras da Irmandade Santa Dorotéia – tendo à

frente a Irmã Sania Cosmelli – deram início aos trabalhos da Faculdade Nossa Senhora Medianeira, que, mais tarde, seria transformada em Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. No decorrer da década 1970, a FFSD experimentou um significativo aumento de demanda por seus cursos, sem dúvida, em virtude da criação da Lei 5.692, de 1971, que apontava para o enquadramento dos professores da rede pública por formação. De meados dos anos 1970 até a atualidade, já sob o comando da atual Diretora, Irmã Celma Calvão da Silva, a instituição tem sido responsável pela formação acadêmica da quase totalidade do professorado hoje atuante nas redes pública (municipal e estadual) e privada de Nova Friburgo e das cidades das regiões serrana e centro-norte fluminense. A qualidade de seu trabalho e o empenho de seu corpo docente têm sido avaliados de forma positiva nos últimos anos e, hoje, a FFSD ocupa o 76º lugar entre as melhores instituições de ensino superior em todo o país.

Consequências do fechamento da FFSD

O encerramento das atividades da Faculdade representará, além da enorme carência na formação de professores e de profissionais da área de informática e de secretariado, uma perda de natureza cultural incalculável e comprometedora para o desenvolvimento da região. O Movimento “A FFSD NÃO PODE FECHAR”, liderado por professores, alunos e funcionários, pretende, em primeiro lugar, despertar a atenção de toda a sociedade friburguense para o problema.

Queremos a continuidade dos cursos e a manutenção dos empregos de professores e funcionários, o que significa a garantia da qualidade até hoje ofertada pela instituição, mas sem que isso represente ataque aos direitos constituídos dos profissionais. Por isso, de todas as alternativas que vêm se apresentando a partir do momento em que extrapolamos os muros da Faculdade e botamos o bloco na rua, as mais interessantes, a meu ver, são as que apontam para a encampação da nossa faculdade pelo setor público (seja o Município, através da Autarquia Municipal de Ensino Superior, seja o Estado, por meio da UERJ). Tal solução seria, para toda a comunidade friburguense, uma grande conquista, pois ampliaria o acesso ao ensino superior público e gratuito na região. O nosso movimento é amplo e plural e tem tido o cuidado de buscar estabelecer conversações com todos os setores da nossa sociedade, com vistas à obtenção de apoio ativo à nossa luta. De uma coisa estou absolutamente certo: sem luta e sem mobilização nada conquistaremos.

Ricardo Costa (Rico) é professor e coordenador do curso de História da FFSD, diretor do Sinpro de Nova Friburgo e Região e militante do PCB.

Por: ForumSec21